Prisão por Desacato deveria valer para todos.


Esse aviso tem em toda e qualquer zona de atendimento público, se procurar vai encontrar. Aqui no Rio de Janeiro, ao menos, se tem balcão e atendente público, tem o aviso. Exceção é quando não tem.

No entanto, apesar de todo o entendimento e até mesmo a intenção muitas vezes intimidadora desse cartaz, ele tem um enorme fundamento. Vou tentar resumir com duas situações, uma que sofri e outra que vivenciei como espectador.

Essa semana que passou, no sábado, estava tomando café da manhã com minha esposa na padaria em que costumo sempre comer quando durmo em minha sogra.

Minha esposa sai para procurar um pacote de biscoitos na loja enquanto eu espero meu tradicional pão na chapa. A menina do balcão está sozinha para atender 10 pessoas (sem contar eu e minha esposa) e chega com 3 fatias de queijo minas.

O rapaz que pediu o queijo olha e solta:
- Já viu o tamanho dessa fatia? - Pergunta o cara, com uma voz completamente arrogante. - Eu não posso aceitar, está muito grosso.

Ressalto: a fatia de queijo minas (o verdadeiro, não aquele industrializado que parece queijo prato pintado com liquid paper) era de 0,5cm, ou seja, menor que isso o queijo ia se desmanchar - quem conhece queijo minas sabe disso.

- Não tem como cortar mais fino.
- Então leva essas duas fatias de volta. Já.

A mulher leva as fatias com ela e retorna com apenas uma. No interior comenta o mesmo que disse acima: não tem como cortar mais fino. Mas como todo cliente chato, o ouvido funciona bem e ele chama o gerente.
- Diz para "essazinha" que o cliente tem sempre razão. Se eu mandar, ela tem que fazer.
- Sim, senhor.
- Quem ela pensa que é? Eu sou o cliente! Chama ela aqui.

O gerente chamou a menina e ela teve que escutar o cliente reclamar e ainda foi obrigada por sua situação inferior (afinal de contas, se ela discorda, é demitida) a aceitar e concordar. Minha vontade foi dar um fora, mas me contive. A menina sumiu por um tempo depois da última humilhação, obviamente para se acalmar.

A segunda situação ocorreu comigo, essa há mais tempo, em meu primeiro emprego.

Eu fazia a mesma coisa que hoje em dia (trabalhava em uma cyber café), mas na condição de empregado. Como ocorre em toda empresa do ramo, o atendente de uma cyber café não apenas presta o aluguel de máquinas como também tira dúvidas e auxilia no acesso de clientes com dificuldade. Nunca me incomodei com isso (mesmo porque, se não gostasse hoje não seria dono de uma) e geralmente o meu azar - ou sorte? - sempre me faz ter que atender três a quatro pessoas ao mesmo tempo (pois problema nunca vem sozinho).

Nesse dia eu atendia uma senhora nessa Cyber que eu sempre a ajudava a tirar boletos e seus comprovantes de recebimento. Também ajudava uma outra moça a entrar na internet e estava fechando uma terceira máquina e efetuando a cobrança (tudo em 3 lugares diferentes e ao mesmo tempo). Entra uma quarta pessoa, um senhor de aparentemente oitenta anos (mas que acredito que devia ser reflexo da alma e não da idade) que escolhe uma máquina qualquer.

Então, enquanto fazia o trajeto entre a senhora, a moça e o caixa, esse cidadão da terceira idade me cutuca.
- O senhor pode me ajudar?
- Posso mas só um momento, estou ajudando aquela senhora, aquela moça e tenho que ir no caixa.
- Tem que ser agora. Já!
- O senhor poderia esperar um segundinho?
- VAI TOMAR NO CU então.

O senhor se levanta e vai embora da Cyber. Sem pagar e sem sequer demonstrar um mínimo de educação. O velho me mandou tomar suco de cajú e foi embora. Eu fiquei com um péssimo humor, que só foi curado porque TODOS na Cyber me deram razão, principalmente a senhora, que soltou a seguinte:
- Se fosse onde meu filho trabalha ele seria preso.

Apesar de para alguns parecer uma espécie de ato intimidatório - e o é, se sua intenção for xingar. - na verdade é uma forma de proteção, que impede que o servidor público no desempenho de suas funções seja ofendido, vilipendiado, etc, por muitas situações que na verdade não são sua culpa, e sim do que vem atrás do Iceberg.

O servidor que está no balcão - isso quando não é um estagiário, um terceirizado. - não tem culpa que o INSS sempre atrasa, que o Policial não registra a queixa, que o médico não te atende, que seu requerimento não recebeu o aval do juiz (exceto quando é aquele imbecil que só entrou no serviço público para atrasar a vida alheia e se diverte com isso).

A culpa é sua mesmo.

Se votasse melhor e exigisse seus direitos junto a quem dita leis, normas e seu cumprimento (leia-se: os mandatários do executivo, legislativo e judiciário), provavelmente a morosidade seria mínima e os maus servidores (aqueles que confundem "estável" com "estático" e ficam jogando paciência enquanto você perde a sua) seriam todos limados do poder público cedo ou tarde.

Seu voto cria o sistema, e a insistência em votar errado apenas o ratifica. E quem não participa da política é devorado por ela.

Se quiser condenar, pense em quem votou em 2008 e em quem votará em 2010, só assim que muda (para pior ou melhor depende de você)... E aí então condene, mas quem tem mesmo a culpa.

Essa postagem ter origem em um artigo do Hugo Meira:
Portal Meira - INSS, um dia você vai precisar...

Fonte da foto:
- http://bocaonopulpito.wordpress.com/2009/04/09/absurdo/

6 comentários:

  1. Hoje muitas pessoas visam concurso público muito mais pela estabilidade do que pelo salário, até porque a iniciativa privada paga melhor na maioria dos casos.

    Onde vamos parar com todos querendo uma vida boa!?

    Por estas e por outras que sou favorável ao um regime estatutário mais flexível, baseado em um salário base de baixo valor e complementação justa no quesito produtividade, para estimular o trabalho eficiente. Reconheço que isto é bem complicado, pois dá margem ao administrador de realizar manipulações e ingerências arbitrárias, mas há de ser pensado...

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  2. A falha toda de um cidadão imbecil, como esse que você descreveu no cyber, acaba caindo na educação básica que (não) recebeu em casa.

    Personalidades à parte, um escroto desses deve ter tido sempre tudo o que quis na hora em que quis.

    É por essas e outras que marco em cima do meu filho desde bem pequeno. Manha comigo nunca teve vez.

    Sempre digo a quem acha que às vezes estou sendo duro demais com uma criança que ainda não entende (mas que entende sim), que depois que ele estiver maior do que eu, queimando índio na rua, aí eu não consigo mais consertar.

    Eu sou tão revoltado com falta de justiça que só de você contar essa história do cyber café, estou como me sentindo como se tivesse acontecido comigo nesse instante.

    E revoltado porque ele saiu de lá achando que estava certo, sem levar o dele.

    É... É Como dizia aquele velho sábio: para acabar com a violência, só dando muita porrada...

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  3. Hugo,

    Já existem tais gratificações.

    O problema é que elas não são focadas em desempenho, apenas em conhecimento e cursos.

    E iniciativa privada só paga melhor na cadeia de comando e dependendo da área o serviço público paga muito melhor, sem contar os benefícios.

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  4. Olá, Peguei o link do seu blog em um comentário que você fez no visao panorâmica, é a primeira vez que acesso o seu site, gostei do texto , concordei quase tudo, apenas no quesito que a culpa é "nossa" porque votamos errado. Gostaria até que você usasse minha idéia pra um novo texto, se você quiser. Pois bem, discordo poque uma parte das pessoas, no legislativo, não estão la por que eu ou você votamos nelas. Quando o eneias foi o deputado mais votado na eleicçao pra deputado ele levou a reboque 5 outros para a assembléia. Pouquissímas pessoas votaram nesses 5, cada doido de fazer o Mestre ter inveja. O mesmo aconteceu com o Clodovil, e com tantos outros. Outra, geralmente ja existe um "acordo" entre legislativo e executivo, de tal forma que o senador tal vira ministro, abre vaga pra suplente, o deputado de tal partido vai ser diretor de tal estatal e seu suplente assume. O relator do caso do Sarney, voce conhece alguem que votou no careca? Nao, por que ninguem votou nele e ele é SENADOR. Agora concordo quando a eleição é pro poder executivo.

    Bom site, Parabens

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  5. Concordo e discordo. O serviço público no Brasil é pessimamente prestado e é um refúgio de parasitas e incompetentes. Isso não sou eu que digo é o resultado de uma pesquisa feita pelo governo com os próprios servidores no início do ano.

    É claro que a boa educação leva você mais longo do que a má e transforma o seu dia positivamente. Infelizmente, atender ao público sempre envolverá esse tipo de acontecimento. Ainda mais com uma população acostumada a ser mal tratada e mal educada.

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  6. Parabéns , vou ter que marcar ponto por aqui...

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