Sobre diplomas e "dipromas". - Parte II


No artigo anterior relatei minha primeira frustração universitária, mas para poder entender meu segundo fracasso, terei que falar um pouco de minha história pessoal.

Um pouco do dragão rosa.
Conforme relatei antes, em 2000 iniciei minha meteórica estadia na UFRJ, e no meio de 2001 ocorreu o evento que marcou mais minha vida e que até hoje não me recuperei, a perda de meu pai de criação, no caso, meu avô materno. Em um intervalo de duas semanas a vida que eu tinha, e da qual gostava demais, foi simplesmente levada e tragada pelo ralo cruel do tempo e culminou no pior semestre de minha vida.

Para ter idéia, naquela época eu era tecnicamente noivo, estava cercado de amigos dos quais tecnicamente até então confiava cegamente (erro fatal, diga-se de passagem), e estava me relacionando super-bem com minha família, morando sozinho e tudo o mais.

A vida era boa e, o pior, eu sabia disso (ok, convenhamos que hoje em dia sei que se eu pensar na frase "estou feliz" os capetas rapidamente vão se excitar e correr até mim rijos de vontade de me ferrar de todas as formas possíveis), e eu estava até então reiniciando a UFRJ, já procurando estágio e tudo mais.

Daí a merda veio a galope e com esporas de aço. Meu "pai" faleceu precocemente em virtude de problemas cardíacos (o somatório fatal de Angina+Infarto), meu pretenso noivado foi junto uns meses depois porque a menina não agüentou minha depressão e descobri que salvo raríssimas exceções TODOS os demais que me cercavam naquela época não eram mais do que um bando de abutres ou serpentes que pisaram em mim na primeira oportunidade. E decepcionado abandonei tudo, inclusive chegando a algumas tentativas ridículas de suicídio que falharam completamente e nem marcas deixaram.

Daí, com toda certeza eu sabia ainda em maio daquele ano que 2001 tinha ido para o buraco.

Não considero sequer que "vivi" a 2001, considero que sobrevivi. No entanto, por insistência de minha mãe que não me aguentava mais meu estado deplorável me aconselhou a tentar mais uma vez, uma outra faculdade, para quem sabe assim ocupar minha mente e diminuir um pouco minha letargia. Daí, motivado por uma reportagem de televisão fui tentar a Universidade Estácio de Sá.



Universidade Estácio de Sá (ou "Analogia do Pão de Forma.")
Prestei o vestibular da Estácio de Sá em junho de 2001, passei para Politécnico em Propaganda & Marketing, em um dos projetos do MEC na época de acelerar a formação dos jovens (obviamente que só podia dar merda). Entrei e as primeiras impressões que tive do curso e da instituição foram boas.

Para poder falar da faculdade temos que fingir que ela é um pão de forma, mas não um pão de forma novo, comprado em supermercado, mas um guardado há uma semana. Já viu como fica um pão de forma depois de uma semana? Exatamente. Umas fatias estão mofadas, outras duras e algumas boas. É exatamente assim a Estácio de Sá.

A fatia boa é o corpo docente. A faculdade tem bons professores, capazes e esforçados. Que dão aulas excepcionais algumas vezes, e com dedicação (mas que ainda assim não se compara a dos professores da UFRJ citados no artigo anterior). Aprendi muito com eles e tirei muito das minhas noções de design e publicidade (além de refinar minha escrita) com eles.

A fatia embolorada é o método de entrada. Já em 2001 a prova foi toda eletrônica. Não tive acesso as notas, ao menos não de modo facilitado, tanto que não as tive ou tenho, e com certeza se tivesse marcado qualquer coisa nas provas teria sido aprovado (como deve ser até hoje, mas como as universidades tem convênios com os grandes jornais, nunca saberemos disso, claro).

E existe a fatia podre. A fatia que fede a mijo velho e a titica de elefante manco da Somália. É o que a Estácio chama de SIA e eu chamo de RIA. SIA significava até então Sistema Integrado de Alunos. Na teoria era a informatização da burocracia escolar visando diminuir a burocracia e prazos. Na teoria. Na prática só acontecia o RIA (sigla de "Ridículo Improvável e Anormal"), que é um sistema falho, lento e tão cheio de mazelas e bugs que quando você entende um pouco de informática fica com mais raiva ainda.

Fiz a faculdade NORMALMENTE até o terceiro período, no quarto, isso em 2002 precisei trancar o curso por falta de dinheiro e cagaço com tiroteios .

Falta de dinheiro porque eu tinha arrumado um emprego que não me pagava (aliás, levei nessa época o PK para tomar calote comigo) e que exigia muito tempo, mas pouco retorno. Para evitar afundar minhas médias - pois isso fode o diploma. - optei por trancar. Fiz o requerimento, assinei a papelada e foi que começaram os problemas.

Cagaço porque eu estudava naquela mesma Estácio onde uma menina foi atingida por um tiro e ficou tetraplégica. Aliás, eu estudava no mesmo prédio onde o tiro aconteceu, a única diferença é que eu tinha trancado a matrícula duas semanas antes da menina ser atingida. Quando minha mãe viu no jornal apenas soltou um leve e tranqüilo "Viu? Podia ser você!". Aparentemente meus problemas estavam acabando. Ou não.

Apertem os cintos, seu cadastro sumiu!
Tranquei em 2002. Em 2003 descobri que o RIA não havia feito o trancamento de minha matrícula. Descobri isso porque de repente, uns três meses depois de ter feito o trancamento começaram a vir boletos para eu pagar. Mas se eu estava trancado, não era para emitir boleto. Como sempre guardo os papéis que possuo, tinha comigo o comprovante do pedido e rapidamente fui para o RIA ao receber o terceiro boleto errado (o primeiro é engano, o segundo também, o terceiro é burrice mesmo), depois de quase uma hora de fila, finalmente sou atendido. Dessa vez coloco o diálogo:
- Boa tarde. - Diz o atendente.
- Boa tarde, me enviaram esses boletos por engano.
- Não é engano, o senhor tem que pagar ou seu nome pode ser incluído no cadastro de inadimplentes.
- Mas eu estou com a matrícula trancada, não era para vir.
- Não, você abandonou o curso.
- COMO ASSIM?
- Abandonou.
- Não abandonei não.
- Pode provar?
- Aqui.

Sabe a sensação de quando se está jogando pôquer e deixou todos na mesa acreditarem que está blefando e na verdade você tem um Royal Straight Flush? Ver a cara arrogante do atendente se contorcendo em meio a meu pequeno e ridículo papel (sim, de 4cmx5cm), que geralmente as pessoas perdem, quando toda sua argumentação caiu por terra foi o ponto alto daquele ano. Ele observou, viu que não tinha o que fazer, e foi até seu superior.

Em menos de quinze minutos os boletos tinham sido cancelados e eu estava trancado. Mas assim como eu joguei Pôquer com a Estácio e ganhei uma rodada, eu fui querer continuar apostando e me dei mal.

Em 2003/2004 decidi efetivamente reiniciar meus estudos. Bem, apesar de ter conseguido trancar a matrícula, a Estácio decidiu brincar de "esconde-esconde" com meu histórico escolar. Tranquei o período no 3º de cinco semestres, e quando voltei teria que teoricamente cursar apenas esse 3º e os dois últimos. Nada disso. Devido ao tal "abandono" o sistema me fez pular de período, validou as notas de matérias que não fiz, sumiu com as que fiz e simplesmente fudeu meu histórico de cabo a rabo.

Saí iniciando o terceiro período, voltei enfiado no quarto e com notas desaparecidas e alteradas. MARAVILHA.

A Lenda do Histórico Perdido: Os Requerimentos dos Segredos.
Tenha uma idéia: eu antes de trancar, meu CR era aproximadamente 8. Quando voltei, caira para 4. Ou seja, em um período tinha perdido dois. E isso para arrumar um bom estágio é como querer fazer teste de filme pornô tendo na sua avaliação médica um atestado de impotência. Uma enorme sacanagem. Fui direto até a Coordenadora do Curso. Agora volto aos tempos de UFRJ, onde também tive problemas com nota. Vejam o paralelo:

Minha nota de Desenho Técnico II ficou errada. A média que era para ser 9, saiu 7 porque digitaram um valor menor na segunda prova. Vou até o coordenador do curso, ele conversa comigo, como estou com a prova ele senta no terminal dele e com o privilégio de coordenador faz a alteração e me entrega um formulário que preencho e fim. Problema resolvido. E depois reclamam da burocracia pública. Tempo usado: meia hora. Acabou.

Meu histórico da Estácio sumiu. Vou até a coordenadora. Ela lamenta meu problema e vê que está tudo aparecendo para ela, e empurra o problema pro RIA. Vou gargalhar e lá me mandam fazer um requerimento a respeito. Faço e uma semana depois aparece INDEFERIDO no requerimento. Volto, refaço o requerimento, agora com outras palavras. Ele diz que meu problema não existe. Vou na coordenadora.
- Eles dizem que está ótimo.
- Dizem, é?

Ela imprime a maneira como eu vejo e a maneira como ela vê. Tira os óculos e vai até o RIA. Sigo de perto a tempo de escutar apenas o final do esporro:
- (...) Se quiser meu óculos, eu te empresto, para conseguirem diferenciar a realidade da ficção.

Penso que será resolvido, no entanto escuto ela lamentar. Pede ela um requerimento. E depois de meio período as notas não voltam. Aliás, volto nela, e ela já me conhece, afinal de contas, uma vez por semana ia lá, e ela até já me tratava pelo nome (o que não é bom sinal quando se trata de resolver problemas). Para piorar as coisas o tempo passa, voa e nada acontece.

Chega finalmente o último período, faço os exames e me fodo novamente. Descubro que por causa das notas que sumiram, do período que me pularam e de toda a bagunça por causa do RIA que teria que pelo menos cursar mais DOIS períodos para conseguir me formar, mas que antes, eu teria que arrumar meu histórico, isso já no final de 2006.

Quer dizer, eles perdem minhas notas, brincam comigo de pingue-pongue burocrático e ainda queriam tirar a vasilina?

Terminei o quinto período, não consegui me rematricular por causa do RIA. E pensam que desisti?

Em 2008 tentei me rematricular e MAIS UMA VEZ fazer a conclusão do meu curso. Fui até a Estácio do Centro e tentei puxar as matérias que fiz na Rua do Bispo para aproveitar, etc e tal. E quem sabe assim ter o sonhado diploma. Não consegui.

Sério.

Fui na Estácio do Centro da cidade, fiz o procedimento que chamam de Convalidação (que é basicamente um vestibular para resgatar o histórico). Passei - claro. - e fui fazer minha matrícula. Quando estava no final o cara disse que não podia fazer porque tinha erro no RIA da Rua do Bispo. Na mesma hora peguei um Táxi e fui para a Rua do Bispo. Chegando lá foram conferir meu cadastro e descobriram qual era o problema, era esse: nada.

Sim, meu problema era nada, rapidamente corri para o Centro novamente e tentei mais uma vez me matricular. Não ia. Mesmo a Rua do Bispo dizendo que o que tinha era nada ainda assim esse nada não me permitia me matricular, só seria possível na Rua do Bispo. E, sinceridade, depois de tudo que disse acima, ficar naquele campus era a última coisa que eu queria no mundo.

Fui procurar a justiça.

Jogos (Advocatícios) Mortais.
Procuro advogados e as respostas que obtenho são as seguintes:
1. Você vai entrar com o processo, eles vão recorrer até o infinito e além.
2. Você vai entrar com o processo e perder. Vão alegar que a responsabilidade por zelar pelas provas é sua, ainda que os professores não as devolvam ou que sejam notas sem avaliação.

O único direito jurídico ao que tenho direito nesse caso é o "tomar no cu", mas em latim, claro (queria muito saber como se escreve isso).

Depois de muito tentar, não foi dessa vez que consegui.

Ainda sim quero insistir nisso, e a próxima faculdade que planejo começar é Direito.
1. Porque gosto de leis, e isso qualquer um sabe;
2. Porque gosto de ver as coisas direito;
3. Porque sempre gostei da matéria, não fiz antes sei lá porque. Acho que porque ainda me iludia com desenho, hoje em dia não sou assim.
4. Porque bem ou mal, é uma carreira irônica, se a faculdade for que nem a Estácio foi comigo, ela será processada por quem ensinou a processar.

Mas vamos ver... Quem sabe daqui a alguns anos não falo de como me formei? Nunca se sabe...

4 comentários:

  1. não acompanhei essa "época negra" do SIA, mas atualmente parece bem melhor. até porque, eu conheço o SIA como "Sistema de Informações Acadêmicas".

    tem duas coisas que eu acho realmente escrotas na Estácio, hoje em dia: MATÉRIAS ON-LINE e TELETRANSMITIDAS.

    só faço porque meu diploma está bem próximo (espero).


    ps: Royal STRAIGHT Flush.

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  2. Eu não tive muitos problemas com o SIA tambem não. Entretanto a demora deles para emitir certificado é f***.

    No começo do ano fiz o requerimento para pegar o meu diploma (me formei no 1º semesre de 2005, mas a minha colação foi apenas em 2006... é acho que me fudi um pouquinho sim). O prazo para que eu pudesse ir na Escraxo e enfrentar a fila quando o Diploma estivesse pronto era de 8 MESES.

    Tive a "sorte" de ficar pronto em 5 meses. Acho que só tive sorte por ter anotado o protocolo, caso contrário não duvido nada que eu tivesse que fazer outro requerimento.

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  3. Lamentável...

    Se Kafka ainda estivesse escrevendo por aí, não ia conseguir nada.

    A realidade burocrática bate qualquer ficção, em termos de surrealismo.

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  4. Havia me atrasado na leitura de textos de teu blog e não tinha entendido se irias fazer faculdade ou não, porque havia lido aos pulos, na época.

    Meus professores são muito competentes. Até demais. Não dão uma folga.

    Lembro da aluna que levou um tiro. foi muito comentado por aqui.

    Perder um ente querido, pelo menos para mim, é muito pior do que perder minha própria vida. Pior que a base de minha vida são o marido e a filha.

    Já sabes. Passei por um período de grande depressão e entendo o que é a dor emocional. Tenho poucos amigos reais porque detesto o fato de poder ser traída por um deles. como costumo me entregar as amizades, dói muito quando descubro que não fui correspondida.

    Isso reflete no mundo virtual, quando desesperadamente procuro amigos que desapareceram ou fugiram de mim.

    Agora estou muito mais controlada, espero.

    Não te preocupa quanto a formação em Universidade porque quando for a hora estarás pronto e te formarás sem perceberes que o fizesses.

    Vou ler os outros textos anteriores e deixar meus parabéns para o PK.

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