Sobre diplomas e "dipromas".



Quem me conhece ou já leu o "sobre" aqui do Pensamentos sabe que sou quase formado em Propaganda & Marketing, mas conferindo os arquivos vi que nunca tinha relatado a respeito de minha experiência estudantil e do porque sou um "quase".

Para começar, tenho duas faculdades incompletas. Uma abandonada e outra em alguma fase entre "formar-abandono-trancamento". Parece confuso, mas acredito e já vi narrativas de que não sou o único. A primeira é o curso de Licenciatura em Educação Artística Modalidade: Desenho, que iniciei na UFRJ em 2000. A segunda é o curso politécnico de Propaganda e Marketing que comecei na Estácio em 2001. Cada uma tem seus pontos positivos e negativos, e os negativos foram decisivos para meu pequeno problema.

Hoje vou narrar minha primeira experiência universitária, a UFRJ, amanhã narro sobre a Estácio, que dentre as duas foi a que... Bem, fica para amanhã esse desabafo.

Artigo longo, mas é uma história longa, por isso dividi em títulos.

Licenciatura em Educação Artística. - UFRJ, 2000.
Consegue me imaginar como professor? Não? Nem eu. Mas em 1999 dentre os cursos oferecidos na UFRJ esse em especial me chamou a atenção. Conferi o currículo da faculdade e gostei digamos, da amplitude de mercado de trabalho que eu teria. Eu sempre gostei de desenhar, ainda gosto, e naquela época pensava em viver disso (doce ilusão adolescente).



Enfiei a cabeça nos estudos, passei em 7º para o curso e entrei na UFRJ. Entenda, Faculdade Pública é o objetivo de todo estudante (ou seria melhor dizer "dos pais"?) no último ano de estudos. Para mim, ainda adolescente e que estudava em escola particular, significou o primeiro contato com a capacidade do mundo adulto de mentir em proveito próprio, dentre as que escutei selecionei o TOP 5 de frases que mostraram isso sempre no momento menos oportuno:
  1. "Se passar, vai sobrar dinheiro!" - MENTIRA. Você tem que gastar com passagem, xerox, livros, cursos e material a cada seis meses, te lembram sempre disso quando você reclama.
  2. "Se passar, te dou um carro!" - MENTIRA. Nessa eu caí direitinho. Acreditei, e quando fui mostrar minha colocação escutei um sonoro "quando estagiar, compra o seu". Até hoje não tenho carro.
  3. "Quando entrar na faculdade, vai chover mulher!" - Depende do curso. No meu chovia mulher de tromba, quase-mulher ou quase-hippie e para mim não rola.
  4. "Faculdade pública é ótimo!" - Depende do curso. Se for na área de humanas, as condições são desumanas.
  5. "O mercado de trabalho é mais fácil para quem tem diploma." - Essa época já era. O mercado de trabalho é mais fácil para quem se prostitui e faz por 10 por um mesmo trabalho que receberia 100 se fosse cobrado o justo, correto e teórico.

Sem contar as mentiras adultas, encarei a primeira decepção logo no dia de inscrição em disciplinas. Algumas das matérias que desejava fazer, as que mais me interessavam (como História em Quadrinhos) simplesmente não tinham professor. Procurei me informar a respeito e descobri que não tinha professor porque não tinha concurso.

Não tinha concurso porque o presidente não queria e desautorizava o MEC a realizar concursos. Para tampar buracos, seguiram a via da tercerização (ou o chamado dos "compadres") e colocavam professores substitutos, que por força de lei não podem dar aula por mais de 2 anos, e como só tinha 1 professor de História em Quadrinhos na faculdade, o lance era esperar passar 1 ano para o mesmo ser contratado por mais dois anos e assim eram as coisas.

Me inscrevi no que deu. Não era perfeito, mas era o suficiente para iniciar a faculdade.

Foi então que escutei um aviso que levo para sempre quando vou fazer qualquer curso ou similar:

"Faltar/Matar aula é que nem matar barata, dá medo da primeira vez, mas depois da terceira vicia."

Tiro e queda. Não que eu tenha matado aula, mas eu fui extremamente caxias no meu início de faculdade, tirando quando fui mendigo no trote (uma história que vou contar aqui ainda) durante o transcorrer normal das aulas não faltei aula, mesmo quando me deparei com o 8 ou 80 do serviço público. O bom servidor público e o mau servidor público.

No primeiro período eu tive duas matérias que se destacaram. Uma positivamente e outra negativamente.

O lado mau: História das Artes e Técnicas I
Tive uma professora,que vou chamar de "Doença". Não porque Doença tivesse algum problema realmente, mas ela era (e acho que ainda é) a manifestação viva de todos os protestos e insatisfações do Arthurius em relação ao funcionalismo público. Se ela, em um período de seis meses, deu uma seqüência de duas aulas foi um milagre.

Eu pega o ônibus toda segunda-feira as 7:00 da manhã no Méier (para quem sabe, é o 696, um ônibus hoje em dia freqüentemente figura nas capas de jornal do Rio de Janeiro, mas pegando fogo), enfrentava um calor infernal e o fedor dos arredores do Fundão (a Ilha do Fundão, onde fica parte da UFRJ é cercada de Mangue e favelas que depositam seu esgoto no mangue, ou seja, dias quentes é fedor certo), para chegar na porta da sala dela e descobrir que estava sem aula - de novo - naquele dia.

Isso quando ela não começava a aula e de repente dizia que estava com dor de cabeça e ia embora. É. Sumia e partia, muitas vezes sem dar nem "tchau" deixando os alunos a ver navios, aliás, sem ver, porque a aula dela se resumia a alguns slides e uma apostila de 150 páginas na Xerox que recentemente encontrei e joguei no lixo, porque não tinha nada que prestasse ali - como vi anos depois.

E para piorar a qualidade do serviço prestado, ela tinha um cargo de confiança. Sim, ela era coordenadora de algum setor da faculdade - ela falou, mas nem lembro mais. - e por ser sua própria fiscal nada podia ser reclamado em relação a ela. Lindo não? Por sinal, ela ainda exerce esse cargo até hoje.

Solução? Tinha um amigo que recebia aulas de Engenharia Química em um prédio "próximo" e caminhava até lá para assistir (leia-se: dormir) aulas de Cálculo I. Eu odeio química, diga-se de passagem.

O lado bom: Desenho I e Desenho Técnico I
Se Doença era a manifestação da incompetência pública tive dois professores que foram a mostra de que funciona. Um foi meu o professor de desenho I, Gerson Conforti, que me disse uma das maiores verdades que escutei em toda minha vida e que tomo como mote sempre: "Antes de fugir da técnica, você tem que dominar a técnica.". Eu tenho um estilo de desenho mais moderno, ele seguia e adotava o clássico. No primeiro período que ele me deu aula bati de frente muitas, mas muitas vezes, porque ele achava minha técnica - voltada para arte final em nanquim. - e só quando ele me disse isso, no final do primeiro período que entendi. Ainda assim fui reprovado, e tive que fazer tudo de novo no meu segundo período.

Mas ele é o exemplo de bom professor. Estava SEMPRE na sala de aula antes que os alunos, tinha uma dedicação ABSURDA ao que fazia e era sincero a ponto de incomodar os mais sensíveis (acho que muito de meu estilo de escrever seco e direto se deve a ele). E ensinava muito bem. Com ele aprendi mais sobre perspectiva e proporção do que aprendi em qualquer curso de desenho que fizera antes (tinha feito 2). Como resultado, fui reprovado no primeiro período e na segunda tentativa, já dominando a técnica - e estudei muito para isso. - retornei e ele me fez MONITOR DE SALA.

Para quem fez faculdade, ser monitor de sala é basicamente ser professor na ausência desse. Tive que ensinar pessoas a desenhar e a pensar na técnica em detrimento do estilo. E com a experiência do período anterior, foi uma ótima experiência.

A segunda pessoa foi a professora Gláucia (acho que não errei o nome, se errei e alguém souber de quem falo, me corrija), que deu aulas de Desenho Técnico I e II. Ela odiava a prof. Doença, diga-se de passagem, porque uma vez precisou de alguma coisa do setor dela e, bem, só porque foi pedir a Doença em sala de aula recebeu um fora que foi mais ou menos essa frase "Não estou no meu setor, faça lá o requerimento", desde então sempre que podia reclamava da professora da sala da frente (a sala da Prof. Gláucia era em frente a da Prof. Doença). E assim como o Prof. Gerson, ela era extremamente dedicada ao que fazia e era exímia em explicar as coisas. Quase fui monitor dela também, não fui porque já era do Gerson.

Minha despedida da UFRJ - O abandono.
Só que não bastam apenas bons professores para um bom curso. A UFRJ em 2000, pelo menos nos andares do EBA na Reitoria e em parte do CLA o aspecto em muitos momentos era o de estar em um filma do Mad Max. Muitas salas do 7º andar estavam lacradas porque o teto tinha caído e não tinha previsão de reformas por falta de verbas federais.

Ou seja, não tinha professor e não tinha salas de aula porque o ministro da educação na época, Paulo Renato, estava mais preocupado dar entrevistas a jornais e revistas para difundir o Provão do que em fiscalizar as condições físicas de ensino das faculdades federais, e como o reitor imposto pelo governo federal (Henrique Vilhena) era alinhado com os interesses do poder executivo e não com a faculdade, não fazia mais do que a obrigação.

Entre 2000 e 2001 ocorreu uma enorme greve geral do ensino público federal, alegando os motivos acima e o tradicional reajuste de salários, que só foi ocorrer quando Lula assumiu e também teve greve. Claro, UMA SEMANA antes da greve, Doença já tinha mais uma das muitas licenças e sumira, e desapareceu durante todo o período que durou a greve. Quase um período. Poucos da área de humanas quebraram a greve, logo, eu ia para a faculdade e voltava todo dia sem aula, ou sem informação. Lembram do que falei acima de faltar aula?

Depois de simplesmente deixar de ir, passar quase um mês em Paquetá - na época, morava no Rio. - e deixando as barbas de molho, perdi o vínculo com a faculdade. Quando a greve terminou eu não soube a tempo e já tinha perdido um período. Daí para não ir mais foi apenas um passo. E no final de 2001 já tinha abandonado a faculdade e me decidido a fazer outra coisa.


Claro, 2001 também foi o ano em que perdi meu pai de criação, e, portanto, um dos piores anos da minha vida.

11 comentários:

  1. É por esses motivos, e outras coisas que sei de outras pessoas, e tb até pelo próprio mercado e pelo que leio e vejo, que não penso em faculdade.
    Pra quê me matar 4, 5 anos no mínimo, para não ter garantia de emprego, se com um técnico, posso conseguir um bom emprego e que tem futuro a médio prazo ?
    SE eu fizer faculdade, só depois de um bom tempo empregado.

    ABraço ae, e até sexta em Paquetá.

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  2. O problema nem é garantia de emprego, mas dependendo da instituição não tem garantia de ter o diploma.

    Isso sim é ruim, pior do que qualquer coisa.

    Diploma é fundamental porque o mercado exige, ainda que filosoficamente eu CAGUE pra diploma, e dê preferência ao conhecimento profissional, ainda assim é parte do processo de filtragem profissional e se quero o sucesso, ele faz parte do processo.

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  3. São oito e trinta da manhã e venho meio por acaso a esse blog,o caminho foi o seguinte:não me pergunte como,fui mandado para um texto d rob gordon chamado "carata aberta aos blogueiros d merda" li achei foda,mas deu preguiça d comentar,lá em um link q eu cliquei,cheguei em um texto teu chamado "se não vai ler,porque comenta?" achei foda também e fiz justamente o contrário,lí e não comentei,o motivo é q tô viradão não durmi essa noite,passei toda ela navegando por lugares q não me lembro mas consultarei depois no histórico,enfim...sobre o texto,acho q o jovem encontra muita burocracia em tudo no brasil,querem experiência,especialização nisso ou naquilo,o próprio diploma q num vai vir a servir pra poha nenhuma no trabalho,querem q vc domine o inglês,francês,espanhol,mandarim e o caralho mas no trabalho tú só cruza com gente q num fala nem o português direito,bem,entre outros,enfim,belo texto e belo blog,me desculpa qualquer erro d portuga,mas já tô em stand by.
    abraço !

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  4. É, a situação não é das melhores e , muitas vezes, vemos que algumas instituições públicas vivem de passado.

    Mas minha experiência pessoal não seja, nem de perto, tão drástica quanto a sua. Também estudei no Fundão (Biologia), embora dez anos antes de você, e, alguns percalços à parte, meu curso foi bom.

    E também morava no Méier na época e, embora tenha tido minha cota de 696, por boa parte do curso eu ia de carro, ou de carona, ou com o carro dos meus pais, que quase não saia da garagem até eu começar a dirigir.

    E só aproveitando, a frase a seguir ficou sem sentido. Acho que como ela acabou ficando grande, você se perdeu e esqueceu de terminar:

    "No primeiro período que ele me deu aula bati de frente muitas, mas muitas vezes, porque ele achava minha técnica - voltada para arte final em nanquim (falta algo aqui). - e só quando ele me disse isso, no final do primeiro período que entendi."

    Abraço!

    PS: Seu Cyber Cafe é no Centro?

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  5. Quando passei na faculdade pública tive a impressão que minha vida ia melhorar, mas o contrário ocorreu.

    Posso dizer que o começo é para poucos e coragem e persistência fazem muita diferença.

    Quero dizer que você tem razão ao dizer que praticar preços baixos para serviços é um diferencial, mas creio que isto deve ser só uma fase. A partir do momento que começam a enxergar sua qualidade o preço deve ser aumentado e você começa selecionar seus clientes.

    Pode demorar, pode, mas vejo dessa forma a subida profissional...

    Eu mesmo tenho um caminho dificil, mas creio que a cada dia estou mais próximo de conseguir minhas metas....

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  6. Quando a gente é novo, conhece pouco da vida e quer fazer uma faculdade, ilude-se muito achando que tudo são flores, que você vai fazer cadeiras maravilhosas, com professores maravilhosos, aprender muito, conseguir o diploma para depois ter um emprego maravilhoso... é tão decepcionante quando a gente acorda e percebe que caiu da cama...

    Eu também cursei uma universidade pública, e dentro da área da saúde o grande problema dos professores é que eles odeiam dar aula. Estão ali para trabalhar com pesquisa, mas para isso são obrigados a lecionar. Não há nada pior do que um professor sem vocação.

    Eu quase desisti da minha no meio do caminho, mas acabei concluindo. Yes! Não mudou a minha vida em absolutamente nada. Pelo menos até agora.

    E pra encerrar, só um comentário: "Faltar/Matar aula é que nem matar barata, dá medo da primeira vez, mas depois da terceira vicia." Tu tá doido, é? Quem é o louco capaz de se viciar em matar barata? Cruz credo!!! Figa pé de pato mangalô três vezes!!!

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  7. P.S. Também caí na conversa de ganhar o tal do carro. Que ingênuos somos nós, não?

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  8. Larissa,

    Eu tinha medo de matar barata até que um dia matei a primeira, depois a segunda e enfim, a terceira.

    E viciei. =p

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  9. depois de matar DEZ baratas de domingo pra cá, a última coisa que eu poderia ter medo é disso.

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  10. Li este e vou comentar lá no número II. Só para constar. Estou bisbilhotando aqui. o_O

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  11. necessario verificar:)

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