Forjando Um Guerreiro - Martelo e Bigorna Última Parte

Yurian


À medida que Ignus se adaptava a nova rotina no culto ao Deus da Guerra, mais ele evoluía como guerreiro e conhecia mais de si mesmo, seu domínio do shii podia quase ser considerado como pleno, ele ainda possuía algumas limitações, claro, mas levando-se em consideração o pouco tempo que tinha de aprendizado no culto, já dominava o shii muito bem, inclusive já havia superado muitos de seus companheiros veteranos. Agora não era mais um mero aprendiz, ocupava um cargo importante, era "O Emissário", como era chamado e tinha como obrigação levar as mensagens do Deus da Guerra, tanto em forma de palavras, como em forma de atos.

Sua ascensão tão rápida despertou a inveja de alguns de seus companheiros, nada que causasse muito incomodo, não para ele, mas os outros já o olhavam com grande desconfiança. Já seu atual senhor o via com bons olhos. Ignus era um lacaio leal, cumpria exatamente tudo aquilo que lhe era demando sem pestanejar. Sua dedicação e sua facilidade de aprendizado também eram notáveis, o que causava a admiração de uns e aumentava a inveja de outros.

Cumprira muitas missões sempre bem sucedidas em nome de seu senhor e decido a sua postura na liderança alcançou renome nunca antes imaginado, embora parecesse não se importar muito com esse tipo de coisa

Seu eterno mestre, Haldar, era seu constante companheiro, sempre iam juntos em todas as missões possíveis, e juntos, também, eram dos guerreiros mais temidos por sua ferocidade e por serem impiedosos para com seus inimigos.

O Deus da Guerra não era um deus piedoso, muito menos tolerante, seus discípulos eram os emissários de sua ira, que sempre era algo terrível, e desta vez não seria diferente. As guerras por território pareciam estar aumentando cada dia mais, nenhum reino estava a salvo de uma invasão repentina, nem mesmo os territórios sobre proteção de algum deus.

O Rei Mulgor invadiu terras que pertenciam ao Deus da Guerra, este enviou-lhe uma viso para que se retirasse imediatamente, o aviso não foi cumprido e a força teve de ser usada para expulsá-lo de lá. Não foi uma batalha difícil, já que o intuito era apenas de retirar os invasores dali, mas para o Deus da Guerra aquilo não era suficiente, Mulgor deveria comparecer a sua presença e pedir perdão em público, caso contrário as conseqüências seriam desastrosas para seu reino.

Um emissário foi enviado, Ignus, apenas ele. Seu nome já era conhecido e temido o suficiente para que pensassem duas vezes antes de não recebê-lo ou ouvir o que tinha a dizer. Assim que soube o que seu deus queria partiu cedo, apanhou sua espada, suas vestes com o emblema do deus, selou o cavalo e partiu. A flâmula do Deus tremulava ao vento presa a traseira do cavalo que trotava rapidamente, o símbolo fora visto pelos guardas de Mulgor assim que Ignus se aproximou da cidadela que fazia parte de seus domínios. Seu castelo era pequeno, mas estava em ponto privilegiado no alto de uma colina com arredores bem guardados. Os portões da cidadela foram fechados rapidamente para impedir a livre passagem do Emissário.

- Quem vem lá? - Perguntou o guarda do alto de sua guarida.
- Ignus, Emissário do Deus da Guerra.
- E o que desejas aqui, Emissário? - Questionou o guarda.
- Venho trazer uma mensagem de meu senhor e Deus ao seu Rei. - Anunciou com ar pomposo.
- É uma lastima, mas meu Rei não se encontra, então deverá entregar sua mensagem a mim. - Disse em tom calmo.
- Infelizmente deverei negar a oferta, pois me foi ordenado que entregasse a mensagem ao próprio Rei Mulgor.
- Então deverá entregá-la a um de seus representantes legais...
- Também não poderei fazer isso - Disse Ignus interrompendo o guarda, já esperava que não fosse aceito nos domínios de Mulgor - Se seu Rei não está então devo esperar por ele, conceda-me passagem e um abrigo até que seu Rei retorne.
- Perdão nobre emissário, mas temos ordens de não deixar que ninguém, seja ele estrangeiro, ou não, entre ou saia desses portões, a não ser a própria comitiva real. - Anunciou o guarda tentando por um fim na questão e espantar a presença de Ignus.

Com um leve aceno e fingido desapontamento Ignus partiu para alívio do guarda. Mas ele não se deu por vencido, sabia que o Rei estava presente em seus domínios, também sabia muito bem que não seria recebido, cumpriu o ritual na tentativa de adentrar nos domínios inimigos apenas por desencargo de consciência. Agora que fora solenemente e oficialmente impedido de entrar, usaria a força para chegar até o Rei.

Seu cavalo ficou amarrado a uma árvore não muito distante enquanto retornava sozinho, a espada pendia em sua cintura, logo ela sairia da clausura de sua bainha, logo sangue seria derramado.

Um estrondo e um leve tremor chamaram a atenção do guarda que já havia deixado sua mente vagar após a partida do Emissário do Deus da Guerra. Onde havia o portão de entrada agora havia pedaços de madeira espalhados por todas as partes e muitas farpas. Pouco a frente o Ignus caminhava com certa tranqüilidade sob o olhar atônito dos habitantes locais. O sino de alerta tocou com urgência, logo o Emissário estava cercado por vários guardas que apontavam suas lanças para ele.

- Recue agora invasor, ou faremos com que se arrependa de ter acordado no dia de hoje! - Bradou o que parecia o líder dos guardas.
- Disse que tinha que entregar uma mensagem a seu Rei e o farei. - Disse Ignus em tom seco e decidido.
- Já lhe foi dito que nosso Rei não se encontra, agora saia! - Repetiu a ordem com mais ênfase.
- Se insistirem na mentira e em me deter, serei obrigado a entrar...
- Experimente e...

O líder dos guardas não teve tempo de completar sua frase. Para Ignus bastou que o desafio fosse meramente anunciado através de sua interrupção, apenas aquilo lhe bastou para que ele destruísse a cabeça do guarda apenas com um golpe de sua espada ainda embainhada. Os outros guardas se afastaram com medo ao verem os pedaços da cabeça cair sobre si totalmente ensopados de sangue. O corpo tombou para frente tendo pequenos espasmos, mas logo se tornou imóvel, enquanto Ignus continuava a sua caminhada em direção ao castelo. Poucos instantes depois os guardas se recuperaram do susto repentino e se deram conta que o invasor voltara a avançar, rapidamente se atiraram contra ele em esforço inútil. O primeiro que chegou foi desarmado com um golpe da espada embainhada depois teve seu corpo dividido violentamente em dois. O seguinte Ignus matou com uma estocada no peito, o terceiro morreu pela lança de um companheiro que na ânsia de atingir o inimigo não percebeu que um companheiro havia sido feito de escudo, morrendo em seguida com um profundo corte que quase o fez perder a cabeça. Outro guarda teve o ventre rasgado sem piedade, sua lança ainda foi instrumento de morte de mais dois de seus companheiros pelas mãos de Ignus.

Sobrara apenas um, este está paralisado de estupefação enquanto presenciava a carnificina feita pelo invasor. Tentou correr enquanto o guerreiro se mantinha ocupado trucidando seus companheiros, mas não conseguiu, suas pernas não obedeciam mais. Observou com grande pavor enquanto Ignus calmamente vinha em sua direção, mas a única reação que teve foi apontar-lhe uma tremula lança.

- Pelo visto está me disposto a me deixar passar. - Falou Ignus com olhar malicioso enquanto afastava a lança de seu caminho.
- Se... Se o deixar passar...
- Pouparei sua inútil vida - Completou a frase do gaguejante e temeroso guarda.
- O Rei está no palácio. - Disse imediatamente.
- Ótimo, eu já sabia disso. Agora me diga, qual é o meio mais rápido para chegar até lá?
- É só seguir a pequena a rua subindo até o palácio.
- Não há nenhum atalho ou entrada secreta? - Questionou Ignus se aproximando mais do guarda e engrossando o tom de voz.
- Te... Tem a caverna... - Respondeu tomado de pavor.
- Que caverna? - Perguntou curioso.
- É perigoso, até mesmo para você.
- Isso não é um truque para me enganar, é? - Perguntou demonstrando profunda irritação.
- Não, não! - Respondeu enfaticamente balançando a cabeça, ainda mais apavorado que antes, temendo uma reação violenta do invasor. - A caverna é amaldiçoada, tem uma criatura maligna lá, um demônio, quem vai lá é devorado por ela...

A estória era absurdamente fantástica demais, Ignus não acreditou em nada do que o guarda disse, mas mesmo assim poupou-lhe a vida como havia prometido, mas quebrou ambas as pernas para garantir que não seria seguido nem que alertaria seus companheiros de algum modo, além de desmaiá-lo em seguida para não sofrer muito, por enquanto.

À medida que avançava pela cidade via as pessoas vigiando por entre as frestas das portas e janelas fechadas, não imaginara que causaria tanto temor na população local. Parou um pouco e observou o palácio, não estava muito distante, poderia correr para chegar mais rápido, mas preferia poupar forças e ir pela tal caverna, imaginava que aquilo poderia ter sido um artifício para ludibriá-lo. Provavelmente o rei deve estar escondido no interior da caverna com alguns guardas pessoais, e assim que tomasse o rumo normal para o castelo, outros soldados ocultos no caminho o avisariam para que fugisse em segurança. Ao menos assim era o que imaginava.

Chegou até a bifurcação que levava direto ao palácio e um caminho intermediário que segui na direção no pequeno morro, e seguiu aquele lado, a caverna deveria ficar para lá. Não demorou muito e encontro a entrada da tal caverna, não era uma entrada muito grande tão menos intimidadora quanto fez parecer o guarda, apenas uma caverna comum. A única coisa diferente era uma pessoa sentada próxima a entrada trajando manto e capuz acinzentados, parecia mais uma aparição do que uma pessoa, sua imagem destoava completamente do ambiente ao seu redor e Ignus sentia uma estranha energia fluindo do tal ser.

- Quem é você? - Perguntou ao ser.
- Quem sou não importa, mas sim o que tenho a lhe dizer - Respondeu em tom grave, a voz era de homem.
- Então diga.
- Aquele desafortunado guarda não mentiu, afaste-se dessa caverna, é perigosa até para alguém como você, Ignus.
- Como sabe meu nome? - Questionou visivelmente surpreso.
- A alcunha do Emissário do Deus da Guerra não é um mistério para muitos. A fama de teu cargo o precede e teu nome já carrega este fardo.
- E por que devo acreditar em ti, ser sem nome?
- Acreditar ou não é uma escolha unicamente tua, não posso forçá-lo a nada...
- Muito menos conseguiria - Interrompeu rebatendo.

Algo distraiu a atenção de Ignus e quando olhou de volta no instante seguinte o ser já não estava mais lá, sequer havia qualquer traço de sua recente presença no local. Resolveu que de nada adiantaria se importar com aquilo entrou na caverna.

Para seu tamanho até que era bem iluminada no início, o túnel interno era mais largo do que a entrada. O cheiro de podridão era muito incomodo, mas era algo que Ignus se dispunha a suportar. Algumas vezes esbarrou em restos de ossos, não soube dizer se de gente ou de animal, mas viu muitos quanto mais penetrava. O caminho começa a se elevar, traçando uma discreta subida e uma leve curva para a esquerda.

Nessa altura o ambiente já deveria estar completamente escuro, mas pelo contrário, parecia mais luminoso à medida que seguia, até que viu que havia tochas acesas pelo caminho, sinal de que a passagem estava em uso, o que o deixou animado. Aumentou o ritmo dos passos mantendo a cautela de pisar mais leve possível para amenizar o máximo que podia o som de seus passos. O túnel começou a se alargar e finalmente terminou em uma espécie de salão. Não era natural, uma olhadela rápida fez com que Ignus notasse que aquele lugar havia sido cuidadosamente preparado. A iluminação do salão era um pouco melhor do que a do túnel, mas não boa o suficiente para que Ignus pudesse enxergar detalhes mais precisos. Um altar se encontrava montado bem ao centro do salão, não havia nada de mais em cima dele, a não ser dois pequenos candelabros com velas acesas e um pote de barro.

Logo abaixo do altar havia uma espécie de poço flamejante a chama era fraca, tinha um tom avermelhado e havia algo dentro dele, mas não soube dizer o quê. Finalmente após examiná-lo o máximo que pode por fora resolveu entrar. O salão era muito maior do que havia visualizado, a fraca luz das tochas e a pintura vermelha interna não davam uma boa noção de espaço. O salão era bem alto também, parecia havia uma espécie de abertura em seu ponto mais alto, provavelmente para que a fumaça não ficasse acumulada no local ou não escapasse pelos túneis.

Se aproximando do altar, viu que o pote de barro tinha um líquido escuro dentro, sangue talvez, mas não se importou em conferir. Agora via o que havia dentro do poço, era uma urna de pedra retangular e bem grande, havia algo nela, mas era impossível ver o quê. Assim que se aproximou da chama ela se intensificou repentinamente, Ignus recuou instintivamente. Agora percebia que provavelmente havia caído em uma armadilha, o guarda não mentira, apenas disse aquilo para instigá-lo a ir pelo caminho errado, e provavelmente a pessoa na frente da caverna havia sido posta lá com o mesmo propósito. Agora ria consigo mesmo de sua tolice.

- Há tempos um tolo não adentrava em minha morada. - Disse uma voz aguda e distante.

Rapidamente Ignus pôs-se em posição de defesa, todos os seus sentidos estavam em alerta, seu shii pulsa intensa e amplamente na tentativa de localizar alguma energia hostil.

- Não precisa ficar tão assustado, guerreiro. - Falou novamente a misteriosa voz.
- Covardes sempre ficam ocultos nas trevas e atacam a traição.
- Pelo que vejo não é um humano comum... O que quer aqui?
- Venho pelo teu rei.
- Rei? Rei? - Questionou a voz como se aquilo fosse um insulto - Ser algum manda em mim, guerreiro. Não tenho um senhor, muito menos um rei.
- Se diz a verdade então deixe-me passar...
- Passar? - Interrompeu - Ninguém passa por mim, não sem pagar algum tributo.
- E por que devo pagar tributo há alguém que nem a face vejo? Desafiou Ignus.
- Se é o que desejas...

Alguma coisa se aproximava algo forte, Ignus podia sentir. Enquanto esperava, ouviu com clareza o som grave e ecoante de algo muito grande e pesado sendo arrastado. Havia outros três túneis além do que Ignus veio, e de que estava a sua direita Ignus via um par de grandes esferas flamejantes surgir repentinamente e rapidamente aumentarem de tamanho. Sua cautela aumentou, não fazia idéia do que viria, e a incerteza o deixa ainda mais animado.

Uma serpente, uma imensa serpente surgiu do túnel. Tudo nela parecia ter um tamanho fora do comum, seu comprimento era tamanho que circundou a sala completamente deixando Ignus sem nenhuma saída.

Acuado a única coisa que o guerreiro pode fazer foi se por em posição defensiva enquanto a imensa cabeça angular vinha em sua direção para observá-lo mais de perto. A imensa língua bifurcada estava inquieta, parecia farejar a tensão que transbordava de Ignus, não era medo, apenas apreensão do que estaria por vir. Isso não agradava.

- E então guerreiro, o que realmente veio fazer aqui? - Perguntou a serpente.
- Já disse, venho pelo rei destas terras. - Falou com sinceridade.
- Mentira! Você veio aqui pela espada, assim como todos os outros.
- Espada? - Questionou Ignus confuso, pois realmente não sabia do que a serpente falava.
- Não importa, assim como os outros você também irá perecer.

Após dizer isso a serpente com um movimento rápido lançou-se contra Ignus para dar-lhe o bote, mas investida foi frustrada, porém não totalmente, pois ainda conseguiu golpeá-lo com a cabeça jogando-o do outro lado do salão. Ignus se refez rapidamente e pôs-se de pé, mas não foi rápido o suficiente para evitar que a serpente o circundasse por completo, bastando um mínimo movimento para esmagá-lo. Antecipando esse possível ataque Ignus pulou por sobre a serpente, estando agora em uma posição mais segura.

- Vejo que minhas palavras não vão te convencer. - Disse Ignus.
- Se ao menos fossem sinceras. Mas todos que vem aqui vêm cobiçando a espada.
- Nem sei de quê espada você está falando? - Disse sinceramente, pois realmente não sabia do que a serpente falava.
- Mentira!

A serpente se lançou contra Ignus tomada de ira, o movimento foi tão violento e repentino que Ignus não conseguiu se esquivar do golpe. Agora ele estava encontra a parede e desarmado, não conseguiu segurar a espada devido à intensidade do golpe. Com um pulso intenso de seu shii o guerreiro conseguiu afastar o suficiente a serpente para poder respirar e saltar para mais distante dela. Mas o imenso ser ainda o fitava atentamente, seu olhar era intenso e penetrante e esquadrinhava cada mínimo movimento do invasor.

- Você ao menos é melhor do que os outros. - Disse a serpente.
- Posso tomar isso por um elogio? - Ironizou Ignus.
- Serei piedoso contigo e farei um teste, se passar por ele poderá seguir em paz. - Disse a Serpente se afastando e aparentemente mais calma.

Mesmo sem compreender o porquê daquela mudança repentina de postura Ignus relaxou, mas ainda se manteve em alerta. A serpente foi em direção ao altar e lá novamente olhou para Ignus.

- O que tanto quer, mentiroso guerreiro, está dentro desse poço flamejante. - Disse indicando o poço com a cabeça. - Se conseguir pegá-la, será sua.

Agora ele estava mais confuso do que antes, mas mesmo assim foi em direção a serpente e ela nada fez a não ser observá-lo. Olhando o poço novamente viu a urna outra vez e agora imaginava se era tal espada que a serpente tanto falou que se encontrava dentro da urna de pedra. Resolveu pegá-la, afinal, pensou, se conseguisse, teria uma espada nova, caso contrário, enfrentaria a serpente e seguiria em frente.

O poço parecia ser raso o suficiente para que não tivesse de mergulhar todo o braço, mas mesmo assim era profundo o suficiente para causar uma boa queimadura. Resolveu tentar usar seu shii para que o fogo não lhe afetasse. Uma das coisas que aprenderá junto ao séquito do Deus da Guerra é que poderia manipular seu shii para torná-lo praticamente invulnerável a qualquer coisa, tudo dependia apenas de sua força de vontade e da intensidade de seu shii.

Concentrando-se tentando deixar seu shii com a mesma intensidade do fogo Ignus mergulhou seu braço no poço, a chama não o feriu, mas era quente, intensa, parecia viva. Teve de mergulhar todo o braço no poço para chegar até a urna, o calor ficou mais intenso, seu braço parecia que começaria a ser dominado pelo fogo e seria consumido por ele, ele intensificou mais seu shii, manteve sua concentração para se igualar ao calor da chama. Não teve grande dificuldade para abrir a urna, o que o surpreendeu, então viu a espada.

A espada era longa, sua lâmina parecia reluzir mesmo imersa em fogo e estava perfeita como se tivesse acabado de ser forjada. Com cuidado ele a retirou do fogo e contemplou sua beleza imponente, nunca em sua vida Ignus havia visto um trabalho tão magnífico, ela era perfeita, não havia uma imperfeição em sua superfície, sua simetria era impressionante.

Mesmo com seu tamanho e largura ela parecia não pesar tanto, e Ignus conseguiu manejá-la sem nenhum problema. A guarda parecia um par de asas de dragão abertas e a empunhadura um corpo de uma serpente que terminava com a boca aberta como se estivesse pronta para o ataque. Os detalhes eram tão minuciosos que até olhos possuía, sendo representados por duas pequenas pedras vermelhas.

Mas ainda restava testar seu fio, olhou-o atentamente por um momento, parecia perfeito, talvez nunca tivesse sido usada, passou-a levemente pelo seu braço e logo o sangue brotou. O corte havia sido profundo, mesmo Ignus não tendo empregado nenhuma forma para tal quando passou a lâmina. Quando foi limpar o sangue da espada a lâmina estava limpa, não havia sequer uma mancha.

Repentinamente Ignus sentiu uma forte dor no braço que segurava a espada, como se duas agulhas ardentes tivessem sido fincadas nele. Quando olhou viu o cabo da espada preso em seu pulso, era como se tivesse tomado vida e a pequena serpente entalhada o tivesse mordido. As duas pequeninas pedras brilhavam fortes como o fogo, a dor só aumentava e Ignus caiu de joelhos urrando.

Os olhos da grande serpente se inflaram de prazer ao ver que o tolo guerreiro havia caído sem eu embuste, agora ela jazia de joelhos e urrando de dor como uma criança. Lentamente ela o envolveu em seu imenso corpo e da mesma forma começou a apertá-lo até sentir que os ossos de sua presa começaram a estalar. Porém Ignus parecia não notar que estava sendo esmagado pela serpente gigante, a dor causada pela espada era tão intensa que havia dominado todos os seus sentidos, nem mesmo o seu próprio shii sentia mais.

Em meio à imensa dor que sentia Ignus começou a sentir seu braço queimar. Todo seu corpo agora parecia em chamas, sentia como se ao invés de sangue um rio de fogo corresse por suas veias tomando conta de todo o seu corpo. O calor era intenso e cada vez mais aumentava, nunca antes havia sentido algo desse jeito, seu sofrimento era algo que jamais imaginara passar.

A serpente se deleitava enquanto via o nítido sofrimento sua desafortunada vítima, se fosse um ser comum certamente estaria abalado com os gritos do pobre homem, entretanto aquilo só lhe trazia prazer. Cansada de apenas observar e esmagar a serpente fincou suas imensas presas em Ignus, poria um fim na vida daquele homem e se deliciaria com sua carne. Ignus sentiu a as imensas presas da serpente sendo fincadas em seu corpo, também pode sentir o veneno penetrando lentamente em sua carne. Queimava, o veneno parecia queimá-lo não como o fogo que parecia estar sendo injetado pela espada, mas queimava muito, feria-o também.


Em meio ao turbilhão de dor e sofrimento Ignus notou que seu corpo estava sendo esmagado, começou a sentir melhor as presas da serpente em seu corpo, sentia a espada presa em sua mão... Estava desperto. Seus olhos se inflaram repentinamente, parecia ter saído de um transe profundo, ouviu o próprio grito de dor e pareceu-lhe que a tortura tinha dobrado, agora sentia ainda mais dor e o calor parecia ainda mais intenso. Sentia que seu fim estava próximo, sua visão se tornou turva, não sabia se pela grande intensidade da dor ou por qualquer outro motivo.

Mesmo imerso no caos de sua tortura ele tentou concentrar-se, mas não conseguia, a dor que sentia dominava sua mente, se quisesse ao menos resistir àquilo teria de ser mais forte, sua vontade deveria sobrepujar a dor. Com esse pensamento Ignus mergulhou no mais profundo de sua mente que pode, tentando trazer do âmago de seu ser toda a energia que conseguisse para dominar o sofrimento. Sentia como se algo estivesse tentando tomá-lo impedindo-o de agir, porém ele não deixaria, tinha que resistir, tinha que superar aquilo. Tinha não, iria superar aquilo.

Seu grito de dor pareceu ainda mais intenso do que antes e até mesmo a grande serpente se sentiu atordoada por aquilo, acabou por soltar o guerreiro devido ao que acabara de sentir. Repentinamente tudo começou a tremer a sua volta, as chamas do local se intensificaram, pareciam responder ao urro daquele homem que agora se contorcia no chão.

Pouco a pouco Ignus começou a se levantar, vagarosamente, como se cada movimento lhe custasse todas as forças de seu ser. Os gritos diminuíram, e sua expressão de dor agora dava lugar a uma expressão de profundo ódio. Ele arrancou a espada de seu braço com forço fazendo-o sangrar, mas o ferimento desapareceu assim como surgiu. Ignus agora segurava a espada com sua mão esquerda e uma chama escura e azulada começou a surgir a sua volta.

A imensa serpente não acreditava no que via, era impossível que um reles humano fosse capaz de dominar aquela espada. Mas ali estava Ignus, de pé com a espada em punho, vivo. As chamas do local se intensificaram ainda mais, pareciam responder ao sentimento de Ignus que estava tomado de ódio, o sentimento era tão forte que até mesmo a serpente podia senti-lo, e sentiu-se acuada pela imensa energia que o guerreiro liberava.

Lentamente Ignus começou a ir em direção a serpente, seus passos eram pesados, carregados. Suas pegadas deixavam um rastro fumegante como se seu corpo estivesse tão quente a ponto de queimar o que tocava. Porém isso não foi o suficiente para intimidar a serpente, comprimindo seu pescoço e erguendo sua cabeça ela disparou uma rajada de um fogo azulado contra o invasor, que não tempo de espaçar e foi completamente tomado pelas violentas chamas.

Não durou muito e as chamas foram dispersas como que por um sopro, Ignus permanecia intacto, parecia que nem mesmo suas roupas haviam sido chamuscadas. Mas antes que as chamas se desfizessem no ar elas se reuniram envolta do punho de Ignus que pareceu convocá-las com um gesto, para em seguida dispará-las contra a serpente que foi atingida em cheio e jogada contra a parede.

Ela não entendia como aquilo era possível, além de ter sobrevivido ao ataque mortal da espada o invasor havia conseguido dominá-la. Mais do que isso ele parecia ter renascido das chamas, estava ainda mais poderoso e parecia altivo e invencível. Agora ele estava bem a sua frente e lhe apontava a espada para o centro de sua cabeça, seu olhar parecia envolto de fogo.

- Quem é você? - Perguntou a serpente.
- Não, me diga quem é você? - Questionou como se sua voz fosse um rugido trovejante.
- Sou Scalgar, guardião de Yurian, a espada maldita.
- Espada maldita? - Perguntou contemplando a espada.

Segundo o que a serpente contou a Ignus, há muito tempo ele tinha sido criado através do poder da espada e deixado lá para guardá-la e impedir que ela fosse utilizada novamente, pois segundo seu criador a espada carregava uma energia incomensurável e poderia até mesmo destruir seu possuidor. E assim ele fez por anos incontáveis Scalgar, como fora chamado pelos habitantes locais que passaram a cultuá-lo, permaneceu ali guardando a espada. Certa vez deixou que um aventureiro em busca de tesouros tocasse na espada, apenas por diversão, quando viu o mesmo ser devorado pelas chamas geradas pela espada, até então nunca havia visto do que a espada realmente era capaz.

- Então você não passa de um espectro da espada? - Concluiu Ignus.
- Não deixa de ser verdade, mas tenho vontade própria, não sou um escravo dela. - Disse com nítida revolta.
- Mesmo assim permaneceu aqui todo esse tempo obedecendo à vontade de quem o criou para esse fim. No fim, não passou de um capacho.
- Meça suas palavras, guerreiro, ainda posso...
- O quê? - Interrompeu furioso. - Víbora mentirosa, tentou me matar, mas a única coisa que conseguiu foi me fortalecer, o que fará agora? - Desafiou.
- Tenho que deixar-te ir. Mas se engana se acha que ficou mais forte.

Ignus nada disse, estava confuso, como não havia ficado mais forte? Sentiasse muito mais poderoso agora do que antes.

- A espada não torna ninguém mais forte, ela apenas liberta tudo que o que há de mais intenso de dentro do ser, entretanto se não for forte o suficiente será consumido por ela antes mesmo de ter que resistir ao que quer que seja que possa estar guardado dentro de si. - Explicou Scalgar.
- Então...
- No início a espada o atacou para testá-lo, depois liberou você de si mesmo.

A energia que transbordava de Ignus era algo imenso e magnífico, nunca imaginara que sentir uma energia tão intensa, mesmo quando se deparou com deuses sentiu o mesmo que agora. Estava maravilhado consigo mesmo, sentia que com apenas um pouco de seu shii seria capaz de esmagar toda uma cidade, talvez mais, poderia estar exagerando, claro, mas era exatamente assim que se sentia.

- Não se iluda, a espada tem vida, não é apenas um simples objeto e sozinha carrega um imenso poder, se não controlá-la de forma adequada ela irá destruí-lo um dia.
- E quanto a você? - Perguntou.
- Meu criador disse que se um dia alguém conseguisse empunhar essa espada que não ele eu estaria livre, mas creio que alguém como você não vá querer me libertar.
- Então posso tomá-lo como meu vassalo? - Perguntou com um sorriso malicioso no rosto.
- E você acha que somente por isso me submeteria a sua vontade? - Desafiou Scalgar.
Então Ignus partiu. Scalgar entregou a Ignus a bainha da espada e indicou-lhe o caminho mais rápido para chegar ao palácio seguindo pelos túneis subterrâneos, mas Ignus garantiu que voltaria e cobraria a lealdade de Scalgar.


Havia tensão dentro do castelo, todos estavam alertas esperando por algo. Há alguns minutos todos sentiram um forte tremor e logo em seguida todas as velas e tochas acesas ficaram repentinamente muito mais intensas, mas logo voltaram ao normal. Tudo isso junto não poderia ser nenhum bom sinal. O Rei Mulgor estava no salão principal reunido com alguns guardas pessoais e seus conselheiros, três necromantes que disseram ter sentido uma forte e ameaçadora presença surgir, o que deixou o Rei ainda mais apreensivo.

O rei foi avisado da chegada de Ignus e de sua entrada na caverna, o que era perfeito, já que nenhum invasor conseguira sobreviver ao encontro da serpente que lá habitava, mas a nova ameaça que seus necromantes sentiram o deixou muito mais preocupado do que antes.

Longos minutos se passaram e nada acontecia, nem mesmo uma notícia sequer chegava ao salão. Quando estava para mandar um de seus guardas em busca de notícia dois gritos de agonia foram ouvidos do outro lado da grade porta de madeira que isolava o salão do resto do palácio. Enquanto os soldados montavam uma formação de defesa em volta do rei, uma grande explosão que destruiu a imensa porta, fez com que todos fossem jogados para trás com violência.

Assim que se recuperaram do susto todos observaram atônitos enquanto o Emissário do deus da Guerra entrava calmamente pelo salão, caminhando por sobre os escombros do pouco que sobrou da porta.

- Rei Mulgor, é um prazer vê-lo. - Saudou fazendo uma reverência, a voz de Ignus soava extremamente zombeteira.
- Morra! - Gritou um guarda que acabara de levantar e correu em direção a Ignus com sua lança.

Seus companheiros não tiveram tempo de detê-lo, muito menos o Rei teve tempo de ordenar que parasse, o soldado simplesmente lançou-se contra o pretenso invasor com toda a força que reuniu. O inútil esforço apenas resultou em corpo que foi praticamente transformado em cinzas pelas chamas escuras que saíram do braço de Ignus. O terror quase que instantâneo tomou conta dos soldados e de um dos necromantes, o mais jovem, que fugiram pelo mesmo lugar que Ignus veio, deixando apenas o Rei e mais dois necromantes sozinhos com o terrível invasor.

- O que quer aqui, Emissário? - Questionou o Rei Mulgor enquanto se levantava tentando não demonstrar medo na voz.
- Trago um recado de meu senhor. - Disse Ignus entregando o pergaminho.

Após ler atentamente o rei aceitou, a contra gosto, claro, mas era isso ou ser morto brutamente pelo guerreiro que estava perante ele naquele momento. Ignus partiu dando-se por satisfeito após ouvir de próprio Mulgor que em dois dias ele se retrataria com o Deus da Guerra.


Sentado em seu trono e cercado por seus seguidores o Deus saudou a volta de seu Emissário, após ler a resposta de Mulgor parabenizou o servo pelo dever bem cumprido.

Enquanto se reerguia para partir o Deus notou que seu seguidor usava uma espada muito diferente da que tinha levado consigo, não apenas a bainha e o cabo, mas a espada em si era totalmente diferente de tudo que já tinha visto e sentido. Rapidamente levantou-se do trono e exigiu que o mostrasse, seu fascínio foi imediato, ele conhecia bem a lendo em torno da espada, mas achava que seria apenas mais das muitas estórias que os humanos contavam. Mesmo distante podia sentir o imenso poder que dela emanava, era algo esplendido, poderia esmagar qualquer um de seus servos presentes naquele momento sem nenhum esforço.

Paia pediu que Ignus contasse como havia conseguido tal relíquia e ele assim o fez, não ocultou sequer um detalhe, mas o Deus parecia não dar muita atenção ao relato, estava fascinado pela espada. Tanta beleza, tamanho poder... A cobiça e a inveja tomaram conta de seu ser e ele exigiu que Ignus lhe desse a espada em sinal de devoção a ele, mas Ignus hesitou e não respondeu. Um segundo pedido ainda mais enérgico foi feito e desta vez foi negado, todos os presentes olharam assustados para Ignus, nunca ninguém havia negado nada para o seu Deus, não até aquele momento.

A ira foi visível tanto na expressão quanto na energia que transbordava do Deus, todos se sentiram oprimidos e acuados, menos Ignus, que parecia como se nada estivesse acontecendo. O guerreiro embainhou a espada, porém o gesto só fez com que o Deus ficasse ainda mais furioso.

Usando de seus poderes divinos ele tentou convocara espada para sua mão, mas nada aconteceu, o que só o deixou ainda mais irritado. Mesmo não sabendo como seria possível alguém conseguir bloquear seu poder ele não se importou com aquilo, apenas deixou o pensamento de lado e pôs-se bem a frente de Ignus e uma última vez ele exigiu a espada. Seu tom de voz era imperativo e tomado de ódio e arrogância, todos os seus seguidores sentiram-se temerosos pelo que poderia vir.

Não vendo outra saída entregou hesitante a espada, por dentro estava ultrajado, aquela espada o pertencia, conquistou por mérito, não era justo que mesmo seu Deus a tomasse dele, mesmo assim ele a entregou.

Mas Paia não teve muito tempo para admirar sua nova posse, assim que ela saiu das mãos de Ignus a espada reluziu forte fazendo com que até mesmo o Deus ficasse ofuscado. No momento seguinte ela ficou envolta em escuras chamas azuladas, o calor era tão tenso que queimou instantaneamente a mão do Deus, porém mesmo aquela chama o ferindo ele não conseguia soltar a espada, era como se ela o prendesse apenas para torturá-lo.

Em meio ao desespero de seu senhor muitos tentaram ajudá-lo inutilmente, o que só serviu para que a ira das chamas da espada se intensificassem ainda mais e mais ficassem feridos. Finalmente não suportando mais mandou que Ignus pegasse a espada e ele assim o fez, mas sem nenhuma pressa, estava se deleitando vendo o Deus sofrer.

Todos olharam atônitos enquanto Ignus calmamente socorria o Deus, as chamas pareciam não afetá-lo em nada e assim que a espada saiu das mãos de Paia as chamas sumiram por completo.

Aquilo foi degradante para o Deus da Guerra, ter sua mão quase destruída por uma arma e ainda por cima ter de ser socorrido por um de seus adoradores, não poderia haver humilhação pior do que aquela. Imediatamente após se ver livre da espada dispensou todos com um grito enfurecido, não queria que todos o observassem ali jogado ao chão e humilhado por mais tempo. O salão ficou vazio rápido e ele ficou sozinho com sua raiva crescente enquanto contemplava a mão quase inutilizada pelas chamas, aquele ato não ficaria impune, Ignus iria pagar, pois ele havia sido o culpado pela sua humilhação e teria de pagar um preço alto.

2 comentários:

  1. Agora que a minha curiosidade sobre como Ignus começou a conquistar tudo você acaba? Como Haldar morre? Quais os segmentos dos Planos de Terion, Zarrantas....

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  2. Magnus, apenas a parte "Martelo e Bigorna" terminou, o restante da estória ainda via render alguns capítulos.

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