Burocracia: o bom e o mau.


Completei duas semanas como servidor na UFRJ.

Passei no concurso como administrador de edifícios e estou quase completamente feliz. Aprendi a lidar em parte com a máquina burocrática e estou aos poucos compreendendo como as coisas funcionam e como é dura a vida no serviço público, ainda mais quando se quer ir contra a maré.

Pra começar, deixo claro, o preconceito.

Obviamente existem exemplos de pessoas/funcionários que servem de exemplo para toda e qualquer matéria de jornal que faz do servidor motivo de chacota, mas a verdade é que pelo menos na UFRJ algumas coisas são verdades:
- Quem trabalha, trabalha muito.
- Existem muitos funcionários que ficaram perdidos no espaço-tempo, e que não tem o que fazer hoje em dia. A idade não permite (pois velhice torna as pessoas resistentes a mudança, não tem jeito ou eles fazem o que dá ou são encostados e se tornam peso-mortos, o que é no mínimo maldoso) e a lei não os deixa se aposentar.
- Existem, SIM, muito trabalho a ser feito.

Como por origem já sou extremamente burocrático, e gosto de deixar tudo e qualquer combinação pro escrito, uma das melhores coisas que utilizo a meu favor é a máquina burocrática.

E o lado bom é: tudo tem que ser registrado.

Na ordem, o mais usado é nesse momento onde estou são os seguintes: malote (correspondência interna), fax, e-mail.

Obviamente, desde que entrei adotei a seguinte postura: tudo que me pedem, tem que ser enviado por e-mail. E o que passam para mim, passo para ciência da diretora da sede, de modo que:
1- Eu tenha respaldo de que fiz porque alguém pediu;
2- Que fique claro que se não fizer, é porque alguém na cadeia falhou, quando não depender de minha pessoa;
3- Tenho registrado para o futuro;
4- Não tem disse-me-disse, está lá.

Não me interessa se em sede X, Y ou Z a pessoa de lá não costuma abrir sua caixa de e-mail. Pedidos feitos pessoalmente tem para mim o mesmo peso mental que axé-music, vem e vai. E some da minha mente.

Apesar de burocrático, qualquer pessoa que entenda duas linhas de direito ou já tenha se dado muito mal com a seguinte frase "eu nunca pedi isso" sabe muito bem o quanto pesa em nossas bolsas escrotais na hora que dá tudo errado. Ter um e-mail e uma prova da incompetência alheia é melhor do que ter que ouvir sem ter culpa.

Basicamente, é:

Recebo um pedido, se for de minha alçada, realizo. Caso não seja, repasso a pessoa com o poder para tal até ter a solução para o pedido. Tendo a solução resolvo dentro das minhas limitações a que sou imposto pelo cargo e do qual não é bom fugir para evitar ser tragado pelos servidores-mochila (que se acoplam nas costas de quem trabalha e deles retiram forças, boa vontade e quando não o mérito). O que não posso fazer no mesmo dia, jogo na agenda online e confiro em casa. Nesse momento enquanto digito esse artigo, estou ajeitando minha agenda.

Entendam, na iniciativa privada o reconhecimento é direto, salvo quando seu chefe é um canalha. No serviço público seu chefe não pode te dar nada a mais por qualquer coisa que faça a mais. Exceto trabalho. Fazer a mais pode tornar a vida mais feliz para quem pede, até lavar sua alma com boa vontade. Mas vai fazer da vida um inferno porque você vai, sim, se indispor em algum momento com isso por não se sentir reconhecido e por descobrir que o que ontem era favor hoje se tornou obrigação única e exclusivamente porque lá atrás, quando te desviaram de sua função, você aceitou.
Logo, esse é o lado bom da burocracia. A segurança que o registro dá não tem igual.

Por e-mail sei exatamente o que tenho que fazer, e se não julgar procedente que eu faça, passo adiante até alguém que possa. Livre iniciativa no serviço público se restringe, infelizmente, ao que você faz, e não ao que você faz a mais. Esse é o lado ruim da burocracia, que acaba tolhendo o espiríto da maioria, que acaba cedendo ao marasmo de outros que foram castrados.

O poder executivo não se interessa se você acumula funções e faz o trabalho de três pessoas, você não será reconhecido por isso, ao menos não em seu cargo ou na forma de bônus. Não digo que você não seja elogiado, muito pelo contrário, se for esforçado, assíduo e demonstrar interesse em trabalhar, será. Por sinal, só de desempenhar bem a sua função já está ajudando enormemente o serviço público a fazer aquilo para o que foi criado: servir.

Mas o elogio será apenas verbal. Se você espera alguma gratificação ou bonificação, pode esquecer. No máximo, sai mais cedo.

Outra coisa, apesar de você fazer concurso público para determinado cargo o que conta MESMO é seu nível (médio, superior, etc), seus talentos e sua capacidade de lutar pelo que quer. Isso deixo para um outro artigo.

Logo, ficam as dicas para você, se deseja ser servidor, é um novo concursado ou quer ser:
1- Registre tudo que fizer, T-U-D-O.
2- Seja sempre cordial, você não está lidando com pessoas com quem vai trabalhar por dois meses, mas sim eventualmente por toda sua vida profissional;
3- Limite-se a sua função, e somente a ela. "Macaco que que quebra galho não ganha banana";
4- Deixe bem claro a seu superior o que você sabe fazer e o que gosta de fazer profissionalmente, suas aptidões e planos profissionais;
5- Seja pró-ativo dentro de sua função. Fazendo bem aquilo a que foi designado já ajuda MUITO;
6- Saber usar computador separa o joio do trigo, tenha certeza disso;
7- Todo e qualquer pedido enviado deve e tem que ser por escrito. Telefonemas sempre tem a tendência de serem esquecidos, e-mails nunca.

E lembre-se do mais importante, meu mantra, é:
Ser servidor público é mais do que ter um salário acima da média para algumas funções ou mesmo gozar de estabilidade, é servir a nação e desempenhar um papel que por mais que alguém lhe diga que pode ser ridículo, você estudou, você batalhou e, acima de tudo, é importante para nosso país, para fazê-lo crescer.

Soa piegas, mas se eu não fizer disso e pensar assim vou acabar indo junto com a onda e com o preconceito e eu não quero isso de forma alguma.

Se eu quisesse ganhar dinheiro, teria continuado na Cyber, mas eu queria e sempre quis me sentir útil a nação fazendo algo por ela. Não posso ser ativista, sigo por outro caminho, dando o melhor de mim no que fizer no serviço público. Sou o passarinho contra o incêndio, mas quem sabe outros pássaros não podem ajudar?

E não quero que sigam meu exemplo, quero que façam melhor.

E vamos que vamos.

10 comentários:

  1. Boa Draguz! queria eu ter pego esses "macetes" dois anos atras! talves eu não estivesse sobrecarregado na pm! =P
    é foda o preconceito contra funcionario público... cansei de ouvir coisas como:
    "FP é tudo vagabundo";
    "tudo braço curto";
    "só mama nas tetas do governo".

    e o pior é que as vezes nem dá pra retrucar pq realmente tem muiito nego encostado! e sempre tem um folgado querendo entrar só por causa da estabilidade.
    a exemplo de um ex-camarada meu! eu comentando dos concurso que eu estava interessadom falando da porrada de trampo que eu tinha que fazer no quartel dai ele virou na minha cara e falou "velho, quero prestar um concurso trabalho 3 anos de boa... e depois só coço! se bobear nem vou no trampo!" dá nojo de uma situação dessas!!!

    anyway... parabéns rapa!!!!
    felicidades na sua caminhada! o/

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  2. Através de ti, que sabe contar muito melhor as coisas, as pessoas irão saber que o funcionário público, em muitos casos, trabalha pela nação e se fizer horas extras sabe que não ganhará nada. Ganhará apenas a sensação de que algo fez em nome do bem comum.

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  3. E digo mais, essas dicas valem não apenas para servidores e concursados, mas também para o setor privado.
    É muito importante registrar tudo, mas tudo mesmo... Já trabalhei em bancos privados (de investimento) e a maior cagada que se faz é quebrar galhos e atender pedido feitos por telefone....
    Ótimo blog! Parabéns!

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  4. Desde que comecei já fiz muitas horas extras.

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  5. E tens computador no trabalho! Fiquei com inveja. Eu até tenho mas, na escola a sala está sempre fechada.:(

    Meu perfil acima foi desativado mas, mantenho o que disse.

    Eu quero aparecer nesta lista de blogs. Estou com inveja desses blogs A Nômade Virtual e Izaberum que estão aparecendo aí.

    Tira eles e coloca o meu. Prometo que vou me comportar. Pelo menos, estou tentando. :)

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  6. É camarada, eu que passei boa parte da minha vida em contato com os serviços da UFRJ, confesso: tem gente que trabalha (e trabalha muito porque tem de carregar tudo nas costas pelos que não estão nem aí), e tem aqueles que não querem saber de nada.

    Desses, o que mais me enojam são aqueles que fazem um trabalho porco, intencionalmente, para que você nunca mais peça nada, pois sabe que o resultado vai ser ruim.

    Ou seja, o (a) cara prefere ser conhecido como um merda que não faz nada direito, do que trabalhar um pouco.

    É muita falta de amor próprio.

    Enfim, mudando de assunto, agora somos praticamente vizinhos, já que trabalho no Fundão também.

    Precisamos nos falar, mas não tenho mais te visto no Messenger e quando escrevo para aquele endereço IG, a mensagem sempre volta.

    O meu e-mail pessoal é o mesmo que eu uso no MSN. Tente escrever para mim.

    Abraço.

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  7. É verdade. Você tem que estar sempre "calçado" para se livrar de pepinos. Afinal, "a corda sempre arrebenta do lado mais fraco" e, quando menos se imagina, aparece como laranja em alguma maracutaia (rs).

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  8. tô louca atras de um carguinho publico pra mim tbm xD

    ___________________________
    Equipe @Zumblorg
    zumblorg.beyond-obvious.net

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  9. Terceiro comentário no mesmo texto.
    Sei como deve ser difícil para quem produz textos de qualidade como os de vocês, trabalhar e blogar ao mesmo tempo mas, o que vou fazer se sinto saudades de ler o que vocês publicam

    Só para lembrar http://diariodeizaberum.blogspost.com/

    Voltem meninos!

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  10. Olá dragus

    Descobri seu blog nem lembro mais como, mas o nome me chamou bem atenção e quando vi esse tópico: diário de um servidor e este post logo vi que tinha algo ali que podia me interessar porque sou FP também.

    Concordo com o que foi dito e aprendi a duras penas a lidar com todo tipo de situação no serviço público, já vi muitos caso e tantas coisas que eu pensei até em postar no meu blog, mas ainda não tive paciência pra me dedicar nesse tema.

    Lembrei de um concurso que está tendo sobre concursos, caso queira participar com algum texto seu, entra ai nesse site e se informe: http://concurseirosolitario.blogspot.com/

    é isso, um abraço :)

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