Diário de um Servidor: Quebrando o paradigma da mídia.



Um certo programa de televisão termina essa semana e junto com ele o meu período de exílio.

Já dei murro nas pontas de faca por anos para aprender que não adianta gritar sozinho, o melhor é tirar alguns períodos para ficar calado e recuperar o fôlego. Foi o que fiz.

Parei, pensei e repensei. Nesse período tornei-me de fato servidor público e passei a ser o passarinho da fábula do incêndio, mas feliz por saber que existem muitos mais que nem eu. Mais até do que imaginava minha mente.

Para começo de conversa, não é completamente verdade que os servidores são vagabundos (como prega a imprensa) e do mesmo modo não é completamente verdade que são super-trabalhadores (como pregam os sindicatos). Isso é lenda urbana. Na verdade existem exemplos que se destacam em ambos os lados dentro da engrenagem pública.

Na verdade, como dizem algumas músicas de caráter duvidoso, o bagulho é lento porque a lei é morosa.

Vamos a organização prática de onde trabalho, a UFRJ. A força de trabalho aqui se divide em três, sendo duas delas formada por servidores.

A primeira força de trabalho é a terceirizada, que são funções para as quais não existe mais concurso (ou o que era antes de 1988 a verdadeira fonte dos cabides de emprego), falo de faxineiros, seguranças, zeladores, etc.

A segunda é formada pelo corpo administrativo. É onde estou. É o pessoal que faz a coisa toda funcionar no sentido burocrático da coisa. Para ter uma idéia, para um aluno pegar o pedaço de papel de seus sonhos (o diploma), há um enorme processo burocrático por trás que é necessária uma enorme e suntuosa paciência (para não dizer saco) para providenciar tudo de acordo com os prazos. Se um professor precisa ir a Taubaté para lecionar ou outro vir do Chuí para uma defesa de tese, é o corpo administrativo que providencia.

A terceira força é formada pelos professores. Eles são o maior cliente do corpo administrativo. Eles na sua maioria são os que geram os pedidos de serviço e as providências. Os cargos de direção e chefia são todos deles, salvo raras exceções do corpo administrativo que consegue isso. E os cargos de direção não são fixos, são eletivos, escolhidos a cada período fixo (não me falha a memória 4 anos).

Isso porque só falo da UFRJ.

Vamos falar de quem trabalha, mas você pensa que não.

A máquina burocrática, para evitar vícios da ilegalidade, criou meios e modos de realizar processos que deixam sim a coisa morosa. Morosa demais. Como os caras lá de cima ROUBAM, acaba que nós, os de baixo, somos pegos sem poder trabalhar muitas vezes simplesmente porque não funciona.

Claro, isso faz com que aquilo que pareça simples se torne complexo. A compra de uma memória para um pc, por exemplo, que aos seus olhos parece simples, nos olhos da máquina pública é basicamente um martírio, afinal de contas, o dinheiro não existe. Ele está na conta, os funcionários responsáveis até podem dizer quanto tem... MAAAAAS só pode ser usado após um processo chamado empenho.

E empenho é um nome bonito para fiado. A lei de licitação exige que você compre do mais barato e sem nenhuma contrapartida o fornecedor de bens e/ou serviços só vai receber quando der. O dinheiro, ainda que ele exista, só pode ser liberado sobre processo de compra, e ainda que não tenha a licitação clássica (com pregão, etc), precisa de um processo sempre. Coisa de pelo menos 50 páginas entre pesquisas de preço, autorizações e relatórios.

(mas melhorou, antes além de fazer fiado, o governo federal não pagava, vide o calote do FHC quando saiu do governo e que quem lembra sabe o quanto doeu)

Empresas também se recusam a vender sem uma quantidade em valor que justifique o preço. Nunca vendem uma única memória, porque o valor além de ridículo, é ridículo que será pago apenas "um dia desses". Logo, tem que acumular.

Então essa memória será comprada apenas quando tiver muitos outros itens similares que serão comprados se e somente se o orçamento estiver ok (leia-se, dinheiro na tal conta).

Lembra quando falei do dinheiro? Bem, ele vem em períodos do ano, não mensalmente, chega em outubro a fonte seca e se por ventura sua unidade não usou o governo pega de volta, na mão grande. Não guarda pro ano seguinte.

Mas alguém entende isso? Alguém se importa com isso? Sim, mas quem se importa nada pode fazer além de chupar o dedo. É grão de areia do deserto.

Claro, existem milhares de forma de simplificar isso, que além de encarecer ainda cria situações como uma que trarei aqui quando se concluir. Bancos vendem sistemas de gerenciamento financeiro, o Banco do Brasil tem esse sistema e usa. Ser burocrático não diminui a corrupção, muito pelo contrário, acaba criando cartéis.

E, obviamente, estimula aqueles que gostam de serem vagabundos e de mamarem nas tetas da nação a continuarem com seu círculo vicioso, pois num mundo burocrático é muito fácil culpar o sistema por sua própria incompetência, ele dá essas brechas.

O que no final endossa o pensamento de que todo servidor é vagabundo.

Mas para que isso mude, não depende apenas de mim, depende também de você, o eleitor. De além de exercer seu papel burocrático de teclar no verde de também ser o fiscal daquele em quem vota e principalmente, saber que é quando não estamos olhando que os ratos fazem a festa.

A propósito, se tiver alguma experiência no serviço público (ou privado mesmo) e que acha legal compartilhar, envienos um e-mail para contato@pensamentosequivocados.com e nós publicaremos (com devidos créditos, se for de seu interesse ou anonimamente se for o caso).

4 comentários:

  1. Olá Dragus

    essa questão da imagem do servidor público perante a sociedade acaba sendo além de uma simples questão cultural do meio ou uma distorção da mídia. Há vários aspectos que colaboram pra firmação dessa imagem o que colabora para o descrédito dos funcionários públicos, como você bem citou exemplos, são tantas váriavéis que dá até um livro só de estudos sobre isso.
    quanto a questão da tercerização de mão-de-obra no serviço público,até onde sei existe uma questão legal aí envolvida. Na realidade o governo não pode tercerizar serviços essenciais ligados a ativida-fim da administração pública e somente pode terceirizar para atividades-meio como segurança, higiene e etc. Como as universidades tem como atividade-fim: o ensino,pesquisa e extensão. os funcionários que atendem a estas atividades devem obrigatoriamente ser servidores fixos concursados e um ou outro cargo comissionado, mas terceirizado não pode para estas atividades. Assim também ocorre na esfera privada, mas nem sempre isso acontece, infelizmente, mas enfim, é o que a lei diz, pelo menos foi isso que eu estudei.
    Quanto ao texto sobre a realidade do serviço público, eu produzi dois artigos e quero fazer mais, mas me inscrevi naquele concurso que te passei antes no comentário anterior, caso eu não passe eu entro em contato com você pra ver se é possivel publicar aqui ou quem sabe outro tipo de colaboração.
    estou gostando desses artigos, é minha realidade também, então acabo me identificando.
    um abraço :)

    ResponderExcluir
  2. Essa coisa da atividade meio-fim até pensei em explicar, mas você fez muito bem.

    Se autorizar em um dos próximos artigos vou me apropriar de seu comentário.

    Que bom que está gostando dos artigos.

    ResponderExcluir
  3. O servidor público no Brasil, infelizmente, dorme em sua própria cama. É claro que, como todas as outras profissões, há bons e maus trabalhadores.

    O melhor raio X do servidor foi feito pela pesquisa do ministério do planejamento no ano passado, implementada pela UNB.

    75% dos servidores se diziam inaptos mal treinados ou simplesmente admitiram trabalhar mal por que não ligavam. Os 25% restantes se dividiram entre os que amavam a profissão e estavam satisfeitos ou os que desejavam melhorar ainda mais.

    É uma triste verdade. Ainda mais quando sabemos que é a própria máquina que contribui para que assim seja.

    ResponderExcluir
  4. No mercado privado não muda muito, Arthurius.

    Recentemente saiu uma pesquisa no Extra falando a mesma coisa, mas em relação ao mercado privado.

    Na verdade o problema não está em ser público ou privado, é que o Brasileiro é relapso por natureza, vide o reflexo de nossa nação nos políticos.

    E até no hino estamos deitados eternamente em berço esplêndido. =/

    ResponderExcluir

Cuidado com sua postura ao comentar:
A responsabilidade pelas opiniões expostas nessa área é de de seus respectivos comentaristas, não necessariamente expressando a opinião da equipe do Pensamentos Equivocados.