Forjando Um Guerreiro - Aço e Fornalha Primeira Parte

Questionamentos


O Senhor do Tempo voltava para seu castelo após mais um dia sob seu disfarce de Oráculo, mesmo não sendo muito bem visto por alguns deuses e outros Senhores do Tempo, ele gostava do que fazia, não via como uma interferência na vida das pessoas, mas sim como uma ajuda, muito menos se sentia culpado se alguém não conseguia aproveitar da dádiva que ele proporcionava para as pessoas.

Já em seu palácio largou-se em uma confortável poltrona e se dedicou unicamente a degustar seu chá, o que era seu passatempo favorito, lamentava o fato de muitos não saberem apreciar um bom chá e não ter companhia para isso, mas há muito não se incomodava mais com essas questões.

Quando terminou sua segunda xícara se dirigiu calmamente ao seu escritório, tinha que analisar algumas anotações que havia feito nos últimos meses, algo o intrigava. Por muito tempo seu irmão Merac o alertava para o perigo de sua atividade como oráculo, principalmente para o fato de poder estar influenciando negativamente o curso da vida de Ignus, embora ele nunca tenha visto dessa forma.

Sabia que o Rei Zarrantas tinha planos para Ignus, só não sabia quais, ao certo, mesmo assim o ajudava da forma que podia. Sempre que perguntava apenas ouvia que saberia no momento oportuno, ou ouvia algum comentário irônico sobre como alguém como ele poderia não saber. Agora começava a se questionar se tudo aquilo era certo. Foi então que resolveu procurar a única pessoa que poderia ajudá-lo.


– Bem vindo, Letaran!

Não era de se surpreender que sua presença já fosse sabida antes mesmo de sua chegada, afinal, era impossível surpreender um Senhor do Tempo, ainda mais este.

– Tenho um pedido a fazer, Ragnar.

Letaran estava de pé na entrada do escritório enquanto o outro Senhor do Tempo estava analisando uma pilha de pergaminhos e
anotações, que logo organizou e deixou de lado. Chamou Letaran para outro lugar por considerar seu escritório um local impróprio para a conversa que teriam. Foram até uma sala mais confortável e ampla, era uma sala de reuniões com ar totalmente informal, ao invés de uma grande mesa e cadeiras bem adornadas, poltronas, almofadas e sofás, havia uma mesa sim, mas todos que iam até ali preferiam o conforto dos estofados macios.

– Sei que gosta de chá, que sabor prefere? – Perguntou Ragnar enquanto se largava em sua poltrona favorita.
– Algum que seja calmante seria apropriado.

Pouco tempo depois dois criados entraram na sala por uma porta lateral, um trazendo um carrinho com bule e xícaras e outro trazendo pequenos pães e frutas diversas. Ambos degustaram o chá com grande prazer, o aroma estava irresistível e o sabor ainda mais, Letaran se sentiu bem melhor após o primeiro gole.

– Então, o que quer de mim? – Perguntou Ragnar depois de terminar seu chá.

Nunca era algo confortável para Letaran conversar com Ragnar, não que ele fosse alguém intimidador muito pelo contrário, ele tinha a aparência de uma criança de no máximo doze anos, até mesmo a voz e a estatura era de uma criança. Nunca entendeu essa excentricidade por parte de Ragnar, ainda mais sendo ele quem era, mas preferia não questionar.

– Você deve saber bem que estou ajudando Rei Zarrantas em relação à Ignus. – Começou Letaran.
– Sim, sei bem o que estão fazendo.
– Mas recentemente estou me questionando se tudo isso está certo. – Disse Letaran servindo-se de mais chá.
– Você sabe bem que Zarrantas é contra a existência dos não divinos, não sabe? – Perguntou Ragnar olhando-o seriamente enquanto mordia uma maçã.
– É isso que acho mais estranho, qual é o interesse dele justo nesse humano? – Perguntou visivelmente confuso.
– Mas por que veio justo a mim pedir ajuda e quê tipo de ajuda deseja?
– Você é um dos primeiros, acho que seu conselho deve ser ouvido. – Disse com sinceridade.
– E o que espera que eu diga? – Questionou fazendo cara de criança confusa.
– Olha, eu vi o futuro...
– Você o quê? – Interrompeu elevando o tom de voz nitidamente irritado.
– Eu fui ao futuro! – Vociferou.
– Sabe que não deve fazer isso, o tempo é incerto, existem várias vertentes e você apenas deve vigiá-lo. – Repreendeu o irmão.
– Eu sei, eu sei...
– Qual linha você viu? – Perguntou Ragnar mais calmo após sorver uma xícara de chá de um só gole.
– A de Merac. – Respondeu secamente servindo-se de mais chá.
– Não deveria ter feito isso...
– Já sei o que irá dizer. – Disse interrompendo Ragnar.
– Mesmo assim vou dizer, mocinho. – Ironizou apontando-lhe o diminuto dedo indicador. – As linhas de tempo são inconstantes e praticamente caóticas, qualquer coisa pode desencadear uma série de eventos que irá alterar toda a história, até mesmo sua ida as linhas de tempo de Merac podem desencadear eventos catastróficos a elas.
– Mas para isso existimos, para manter tudo como deve ser.
– Então me diga, como tudo deve ser? – Questionou irritado.

Letaran nada respondeu.

De um salto Ragnar saiu de sua poltrona e foi a uma estante de livros e pegou um volume muito maior do que qualquer outro e jogou-o em uma mesa próxima, Letaran se assustou ao ver que se tratava do Livro do Tempo.

– Passado, presente e futuro. Tudo junto em um só volume, basta pensar no que se quer saber e de onde, e ele mostrará. – Disse Ragnar mostrando o livro e voltando a sua poltrona.
– Eu também vi a minha linha. – Disse Letaran.
– Eu sei. Agora abra o livro.
– Não é necessário...
– Abra! – Vociferou ordenando.

Lentamente Letaran apanhou o livro a abriu aleatoriamente, as páginas estavam em branco e repentinamente palavras começaram a surgir como um turbilhão, as páginas foram folhando-se sozinhas rapidamente até que pararam bruscamente. O trecho narrava uma imensa guerra, havia muito caos, destruição e mortes, mas não se tratava de uma guerra normal, era uma guerra entre deuses, eram deuses lutando uns contra os outros, se destruindo mutuamente e destruindo a tudo por onde passavam. Porém o que lhe era mais chocante é que por trás de tudo isso surgia a face de Ignus, como se ele fosse o real causador de tudo aquilo.

Enquanto Letaran lia absorto, Ragnar narrava com exatidão os fatos descritos no livro, aquilo não era surpresa para ele, sabia que o irmão fosse talvez o único com total conhecimento do tempo.

– Foi isso o que viu? – Questionou Ragnar interrompendo a leitura do irmão.
– Exato. E acho que Ignus tem grande ligação com isso.
– E quer minha ajuda para impedir que aconteça?
– De certa forma... – Disse timidamente.
– E por que? – Perguntou olhando profundamente nos olhos do irmão.
– Não desejo ver meus irmãos se destruírem mutuamente, muito menos ver tanta destruição! – Falou com certo ar de revolta.
– Mas e se esse for o curso natural das coisas? E se tudo isso realmente tiver de acontecer? – Questionou Ragnar.
– Não! – Vociferou levantando-se de um salto da poltrona. – Não é certo que algo assim aconteça! Não pode ser. – Letaran estava visivelmente transtornado.
– Esquecesse, irmão, de que o futuro é incerto? – Comentou ironicamente enquanto degustava uma uva.
– Então deve haver uma forma de alterar os fatos? – Perguntou Letaran.
– Talvez, mas não cabe a nós esse tipo de coisa.


Enquanto bebia mais uma xícara de chá Letaran ponderava seus atos até então, sabia que havia cometido erros e agora começava a se arrepender, ter ajudado Zarrantas em relação a Ignus não tinha sido uma decisão acertada. Sabia que o grande causador da guerra que havia visto era Ignus, só não sabia como. A única coisa que queria saber agora é se haveria alguma forma de reverter isso.


– Você não é um “oráculo”? – Perguntou Ragnar.
– Por que a pergunta? – Questionou surpreso.
– Como Senhor do Tempo você não pode interferir na vida das pessoas, muito menos no curso natural dos fatos. Porém como oráculo se alguém lhe procurar você pode aconselhá-lo.
– Não esperava ouvir isso, ainda mais vindo de você! – Disse com sinceridade. – Mas que tipo de conselho poderia ser útil?
– O problema dele é que até hoje tudo o levou em direção a dor e ao sofrimento, Ignus só conhece o lado ruim das coisas, nunca teve alguém que lhe amparasse e lhe desse um bom conselho.
– Mas ele tem seu mestre, Haldar.
– Haldar só deu a Ignus tudo o que ele quis por sentir pena dele. Ignus queria ser forte, ele o mostrou como, Ignus queria vingança, ele lhe deu a oportunidade, nada disso o ajudou realmente.
– Acho que entendo o que quer dizer.
– Se Ignus for mesmo o monstro causador desse desastre que viu, então não há muito o que se fazer, a não ser pô-lo no caminho de alguém que possa aconselhá-lo de verdade e mudar sua forma de pensar.


Letaran partiu agradecendo o conselho do irmão, mas Ragnar não estava satisfeito consigo mesmo. Tentou ajudar o irmão da melhor forma que podia, mas nem mesmo ele conseguia acreditar no que disse.

Largou-se mais uma vez em sua poltrona e contemplou o horizonte através de uma janela. Em seu íntimo queria o êxito do irmão, mas não tinha muita esperança.

Um comentário:

  1. Bom ver um desses contos novamente.

    Houve um bom pulo no tempo entre esse e os anteriores, não?

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