Olha a Fila!


Essas são as viagens (mentais) do dragão rosa Dragus, data terrestre de vinte e cinco de maio de dois mil e dez, quinze horas e quinze minutos... Indo audaciosamente onde nenhum homem jamais esteve, quis ir ou algum dia irá (a não ser que seja uma mula).

Depois de passar pelo planeta Sindicato, onde o capitão Dragus deixou mais papel para seus planos de saúde, nosso comandante precisaria obter três reconhecimentos de firma para satisfazer a Fede(ração) burocrática do planeta Fundão e fazer os comandantes de lá reconhecerem que Dragus apesar de rosa tem esposa.

Os dois habitantes da galáxia distante de Paquetá já tinham sido reconhecidos antes, mas ainda faltava reconhecer uma última firma, a do ser conhecido como Uruguaio (mas que muitos juram ser argentino quando o conhecem...). Dragus, como de praxe, confia em sua avaliação e teima que conseguirá esse feito no local conhecido como Assembléia 10, um conglomerado de pequenos mundos onde cartórios, faculdades, comércio e pessoas amontoam-se sem nenhuma ordem, mas bastante bagunça.

(o que verão a seguir é um diálogo interno da mente de Dragus... Sim, ele - eu? - precisa de medicamentos o quanto antes)
- Capitão, eu acho que estamos errando o caminho. - Diz uma pequena criatura de orelhas pontiagudas que parece ser a consciência de Dragus.
- Eu tenho certeza que é aqui. - Insiste o capitão.
- Isso é ilógico, como seu primeiro oficial...
- Quem te nomeou primeiro oficial? Ele deveria ser...
- O senhor, capitão.
- ... Promovido! Mas não se preocupe, velho amigo, eu sei o que estou fazendo.
- Lembra da fazenda tucano?
- Isso foi uma exceção.
- E daquele dia que foi num evento de blogueiros?
- Eu sei, ok?
- Que seja.

O dragão rosa chega ao seu destino. Ele imediatamente segue para o primeiro cartório que encontra.
- Bom dia, poderia reconhecer essa firma...? - Diz, entregando o papel com a certeza de quem sabe o que está fazendo.
- Sim.

Tensão. Silêncio. O atendente checa no sistema, levanta-se e checa nos arquivos. Ele retorna.
- Essa pessoa não tem firma aqui.

Dentro da mente de Dragus um "eu avisei" parece soar de todos os lados. Sem se abalar, Dragus sai do cartório e guarda o papel.
- Porque não pega o telefone e liga para o Uruguaio? - Pergunta a consciência. - É o mais lógico a se fazer, pra não dizer o mais inteli...
- Não, eu SEI que é aqui, eu TENHO CERTEZA.

Dragus avança firme e forte ignorando completamente sua consciência. Para silenciá-la por completo, coloca os fones de ouvido na última potência e cantarola ao mesmo tempo. Se Dragus tivesse acesso a um espelho veria uma cordinha descendo da orelha direita com os últimos neurônios fugindo para o Irã, em busca de segurança. Enquanto canta, vê uma placa escrito portaria.
- Vai lá e pergunta onde é o cartório! - Diz a consciência de Dragus, observando-o como se os dois fossem seres completamente separados e de outros planetas.
- Olha a placa. - Aponta Dragus, para uma placa que indica o andar que só vira naquele momento.
- Confirme.
- Não.


(registro fotográfico de Dragus no espelho)

Cinco minutos de fila, o elevador segue direto para o vigésimo andar. Ele olha para a direita, para a esquerda e tem certeza que é no vigésimo primeiro andar. Sobe. No vigésimo primeiro andar não tem nada. Nem mesmo uma placa.
- E agora? - Pergunta Dragus.
- Você sugeriu irmos no porteiro perguntar. - Diz uma terceira entidade mental, que se veste como um médico.
- Sugeri?
- Sim.
- Eu sou um gênio! Eu sei!
- Mas é ment... - Tenta argumentar a consciência, impedindo Dragus de prosseguir.
- Deixa comigo, eu sou o Dr. Inconsciente nessa nave. - Interrompe o dr. - Sua lógica não funcionou.
- Mas...


- Eu sou um gênio! - Diz o corpo de Dragus, ecoando pelo corredor enquanto pega o elevador.

Na portaria vai direto até o porteiro.
- Onde fica o cartório?
- No vigésimo andar.

Dragus vai novamente para o elevador. Dentro Consciência analisa dados de um computador velho enquanto o dr. Inconsciência examina o cérebro de Dragus procurando neurônios que ainda habitem o enorme deserto. Dragus pega o elevador para o vigésimo andar. De novo. E ao olhar em volta, vê o cartório.
- Isso não estava aqui antes. - Reclama o dragão rosa mentalmente, sem reconhecer o local.
- Apenas mudaram o design, lembra que estavam em obras? - Diz Consciência.
- Ahhhh... - Uma baba escorre do cérebro de Dragus.
- Vá logo antes que te perguntem se precisa de ajuda! - Interrompe o dr. Inconsciência, empurrando Dragus de volta.

Ele caminha, e chega até o balcão. Não existe reconhecimento de firma. Simples assim.
- Não é um cartório de reconhecimento de firma. - Diz Dragus.
- Eu sei. - Dizem Consciência e dr. Inconsciência juntos.
- O que faço?
- Entre em contato com quem pode te responder.

Dragus telefona. Dentro a mente se abala.
- Campo de força de orgulho em 13%... Ativem os phasers! - Berra o primeiro oficial. - Entrem em modo pavio curto! Pavio curto!

Dragus consegue a informação e avança novamente para o elevador.
- Horas, meu fiel amigo. - Pergunta Dragus, com as luzes vermelhas do modo pavio curto acesas.
- São dezesseis e vinte. - Anuncia Consciência.
- Vamos...

ALERTA. ALERTA. ALERTA.

- Olha a fila! - Berra um brasileiro medíocre.

Como mania de carioca, uma "fila" se formara no saguão do elevador e um simpático Neandertal de terno fazia questão de lembrar disso. Dragus se posiciona na fila.
- Armem os torpedos de "vai te a merda". - Ordena Consciência.
- Está na mira? - Pergunta Dragus, apontando na direção do homem.

Sinal sonoro. O elevador chega, mas subindo. O Neandertal que antes queria a fila organizada simplesmente se locomove para o elevador e sobe. Novo sinal em seguida. O elevador do lado chega, descendo.
- Ele se fuuu...! - Berra o Dr. Inconsciência, quase se abraçando ao Consciência, que se afasta limpando o uniforme.
- Melhor você voltar a ficar quieto. - Diz Consciência, colocando a mão na cabeça do dr.


Quando o elevador chega ao primeiro andar, Dragus é o primeiro a sair. Ele já aponta direto para o outro elevador, que está quase chegando.
- Armem toda a carga de ironia que temos!
- Armado.

Quando a porta se abre ele vê o Neandertal em meio ao elevador, bem no fundo.
- Disparar!

Sem nenhuma discrição, Dragus quase grita:
- OLHA A FILA!

Vendo o olhar fuzilante da criatura-alvo, imediatamente Consciência assume o comando, para evitar novo erro.
- Velocidade de covardia, dobra 9. - Ordena para as pernas.

Dragus dispara, enquanto escuta ecoar pelo corredor muitas gargalhadas. Apesar de não ver o resultado, sabe que pelo menos o dia não tinha sido (completamente) perdido.
- Vamos seguir para outro cartório. - Ordena.
- Claro.

E o dragão rosa segue sua missão... de procurar novas formas de se dar mal.

2 comentários:

  1. Fiquei aqui imaginando a cara do "Dragão Rosa" em dobra ... hilário.

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  2. Lendo o texto fico imaginando que deves ser "muito fechadão" na tua vida social.

    E que peregrinação. Aqui só entrei em edifícios de 10 andares e mesmo assim só fui até o oitavo.

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