Forjando Um Guerreiro - Aço e Fornalha - Segunda Parte

Brasa Ardente - Parte 1


Fazia dois meses que Ignus se apoderara de Yurian, a espada maldita, como era chamada, entretanto, ele sentia que não sabia usá-la direito, não da forma como deveria, e isso o intrigava. Aquela era uma arma magnífica demais para ser usada da forma simplória como ele a utilizava atualmente. Seu mestre não conseguia auxiliá-lo muito, e mesmo se quisesse seria impedido. Desde o incidente frente a seus asseclas, o deus Paia começou a retirar privilégios de Ignus, tratava-o com muito mais hostilidade que o normal e proibiu que Haldar o auxiliasse com o pretexto que agora ele deveria caminhar por suas próprias pernas.

As poucas missões que agora recebia eram sempre as mais tediosas a serem feitas, ou para serem cumpridas nos locais mais distantes e remotos. Quase sempre o objetivo era observar algo, ou simplesmente entregar alguma mensagem, o que o deixava muito frustrado e irritado, mas ainda assim era melhor do que o completo ócio.


Após entregar uma mensagem cujo conteúdo desconhecia, mas suspeitava não ser nada importante, tão menos urgente como enfatizou raivoso o Deus da Guerra, Ignus resolveu conhecer o local onde estava. Era uma cidade pequena regida por uma sociedade de agricultores, o que só deixava Ignus ainda mais curioso para saber o que um deus tinha a tratar com agricultores.

A cidade estava em polvorosa, pois naquele mesmo dia o Oráculo estava de passagem por ela e resolveu ficar um tempo e atender aos anseios da população. De longe o guerreiro viu a imensa fila de pessoas ansiosas por ouvir o conselho do famoso Oráculo que tinha fama de nunca ter errado uma de suas previsões.

Os prodígios do Oráculo não eram novidade para Ignus, sua fama o precedia e muito, quando criança o viu na casa de Izac Vandorf, lembrava bem do dia, mas não das feições do vidente. Seu mestre também lhe disse que o Oráculo havia previsto seu nascimento, o que deixou Ignus surpreso, e mais ainda quando soube, também, que o Oráculo foi uma das últimas pessoas a ver sua mãe ainda com vida.

Ignorando toda a turba em volta da improvisada tenda armada próxima a uma praça, Ignus caminhava distraído observando a paisagem, não que houvesse muita coisa de diferente para se observar, já que todas as construções eram muito semelhantes, apenas uma ou outra se destacava, mas nada que fugisse muito do padrão.

Após observar por um tempo viu que a fila andava relativamente rápido, foi então que decidiu ir falar com o famoso oráculo e ver se sua fama era realmente justificável. Mal se acomodou em seu lugar no fim da fila e logo fora reconhecido como Emissário do Deus da Guerra e alguns por respeito, outros por medo, permitiram-lhe a passagem. Não tardou muito e sua vez chegou. Adentrando na pequena tenda viu que nela não havia nada além de uma pequena mesa onde estava apoiada uma bandeja com um belíssimo aparelho de chá e duas cadeiras.

– Entre e sente-se, meu caro! – Anunciou o Oráculo de cabeça baixa pegando o bule. – Posso lhe oferecer uma xícara de chá? – Ofereceu agora olhando seu mais recente convidado e demonstrando grande surpresa.
– Seria uma imensa honra. – Respondeu Ignus em sinal de aceitação e fazendo uma respeitosa reverencia.
– Se não é Ignus, o Emissário do Deus da Guerra! A honra é toda minha! – Disse o Oráculo fazendo uma reverencia ainda mais profunda. – A que devo tão ilustre visita.
– Fico surpreso e imensamente honrado que alguém com tamanha fama saiba de minha pessoa. – Disse com sinceridade.
– Sua fama o precede, guerreiro, hoje teu nome é reconhecido e temido, diferente de anos atrás quando era nada mais do que um mero escravo.

A surpresa e a irritação no rosto de Ignus eram visíveis, mas este nada disse.

– Perdão se a lembrança de tal fato causa-lhe tanto incomodo, mas teu nome nunca me foi desconhecido, antes mesmo de nascer sabia de ti. Conheci tua mãe, previ teu nascimento, só não previ a prematura morte de tão bela jovem. Auxiliei no teu caso quando servia a família Vandorf, também. Logo, como podes ver, de alguma forma estamos sempre nos cruzando, hoje finalmente o destino nos põe frente a frente.

– Não creio em destino. – Disse Ignus secamente. – Prefiro eu mesmo traçar meu caminho, não deixar ser governado pelo mero acaso.
– Mas deveria crer! – Respondeu o Oráculo em tom de alerta. – Foi o destino que fez sua mãe vir até mim, foi o destino que me colocou em seu caminho antes e, também, agora. De alguma forma nossas existências estão interligadas.
– Se esse destino de que tanto fala, esse acaso que nos governa de forma arbitraria é real, por que ele escolheu justo a mim para passar por tantas mazelas? – Tanto a voz quanto a expressão de Ignus eram de pura revolta.
– Gostaria de ter uma palavra de consolo para ti agora, minha criança, mas a única coisa que te posso dizer é que o destino é incerto, e não há quem possa dizê-lo com exatidão, nem mesmo este que vos fala. Mas uma coisa posso te dizer com certeza, e este conselho guarda em tua mente e alma como a um tesouro valioso, tudo na vida depende de nossas escolhas, se escolhermos andar em direção as sombras, tudo em nosso caminho serão trevas e desolação, enquanto aquele que escolhe a luz sempre encontrará tudo o que quer.
– O que quer dizer com isso? – Questionou Ignus.
– Nem sempre o que é mais fácil é o correto a se seguir. Vejo que em teu caminho há muito caos, ódio e rancor, tudo isso só lhe trará conseqüências ruins no futuro. O perdão não um sinal de fraqueza, muito pelo contrário, o caminho daquele que busca perdoar aqueles que o feriram é muito mais árduo do que a trilha da vingança, e está nunca gera bons frutos, pois sempre haverá alguém que tenha ferido sem saber e que há de querer se vingar de ti, também, pelo que a causou mesmo que indiretamente.
– Falas sempre assim por meio de parábolas complexas? – Ironizou Ignus, mesmo havendo entendido, em parte, o que o Oráculo queria dizer.
– Apenas com aqueles que têm plenas condições de me compreender. – Falou sinceramente e isso deixou Ignus orgulhoso de si mesmo.
– Sinto que o que disse faz realmente sentido. Mas antes que parta me diga, onde poderei encontrar alguém que seja conhecedor de armas como esta? – Perguntou mostrando a espada.

O Oráculo ao ver de que arma se tratava não pode esconder a surpresa. Mesmo Letaran sendo um deus poucas vezes havia visto uma arma tão magnífica e poderosa, ainda mais feita por alguém que não fosse um deus.

– Apenas duas pessoas podem te dizer exatamente o que é essa espada e como usá-la de forma devida, se é isso que deseja... O fabricante dela e seu antigo dono. Mas lhe indico que procure em um pequeno vilarejo não muito distante, a leste daqui. Há um ferreiro de grande renome, ele talvez seja a pessoa que procura.
– Poderia jurar que me indicaria o meu deus ou meu mestre. – Disse Ignus dando um sorriso de ironia.
– Muitas vezes o conselho de quem nos é próximo não são indicados para nós mesmos, pois estes costumam dizer apenas aquilo que queremos ouvir, não o que devemos fazer.


Seguindo a indicação do Oráculo Ignus seguiu em direção ao vilarejo, não foi difícil encontrá-lo, já que ficava bem próximo da cidade onde estava. Aquele lugar lembrava-lhe muito o local onde nasceu e viveu parte de sua infância, o que lhe causou uma onde repentina de rancor, mas que logo conseguiu domar.

Ali a vida seguia pacata e os problemas reais do mundo pareciam não afetar seus habitantes que iam e viam despreocupados. A chegada de Ignus não causou a menor perturbação, a não ser os olhares curiosos devido ao fato de ele ser um forasteiro, nada mais. Pela primeira vez sentiu alívio por não o reconhecerem como um servo do deus da Guerra. Ali ele era apenas um mero estranho. Não mais que isso.

Tão simples quanto encontrar o vilarejo foi encontrar o tal ferreiro, a primeira pessoa a quem Ignus perguntou respondeu-lhe prontamente e indicou onde ficava sua oficina. Era a casa mais afastada do vilarejo e provavelmente a última e também a maior, mas de longe parecia um lugar simples e seu tamanho se devia apenas pelo fato de abrigar um local de trabalho.

De não muito longe era possível ouvir o som repetitivo das marteladas insistentes no metal, a cadência dos golpes era incrivelmente perfeita. A medida que se aproximava o som se amplificava, com apenas curtas pausas que Ignus só compreendeu assim que parou na entrada da oficina e pode ver o velho homem trabalhando arduamente. Várias marteladas eram dadas de um lado do metal incandescente, virava-se o metal e novas marteladas eram dadas até que ele começasse a tomar forma.

Observando atentamente o homem que trabalhava sem notar seu mais novo visitante, Ignus estudou-o o mais atentamente que pode. O ferreiro tinha o rosto marcado por rugas e algumas cicatrizes, tinha expressões fortes e duras, e sua longa barba mesclada com alguns fios grisalhos lhe dava uma aparência carrancuda, mas Ignus encarou aquilo como marcas de alguém que passou por muitos momentos difíceis em sua vida. Seu longo cabelo também exibia muitos fios grisalhos e estava preso para trás, em duas partes para não causar acidentes.

A cada nova martelada Ignus via a tensão sobre os músculos de velho homem que parecia ainda estar em boa forma para alguém de sua idade, que provavelmente era bem avançada. Ele usa grossas luvas para evitar o calor, provavelmente feitas de couro cru, igualmente a seu avental.

Após mais uma sessão de marteladas apanhou o metal que começava a tomar forma e com o auxilio de uma enorme pinça mergulhou-o na fornalha, em seguida retirou as grossas luvas, apanhou um cachimbo que estava apoiado numa mesa próxima e deu uma profunda tragada.

– Entre meu rapaz. – Disse o ferreiro com sua voz imperiosa após sentar-se e soltar a fumaça. – Vai demorar ainda até aquele pedaço de metal aquecer novamente para eu poder dar-lhe forma mais uma vez, até lá posso atendê-lo. – Finalizou dando um estranho sorriso.

– Uma bela oficina que tem aqui. – Disse Ignus enquanto adentrava e olhava atentamente cada item que via.

As paredes estavam repletas de espadas, escudos, lanças, machados e até mesmo algumas parte de armaduras, todas muito bem acabadas e de estilos variados. Nunca antes ele havia visto uma coleção de armas tão refinadas como aquelas.

– Por um punhado de moedas qualquer coisa que vê aqui pode ser sua. – Disse o ferreiro vendo o interesse de Ignus por algumas espadas.
– Estas espadas foi o senhor quem fez?

Eram espadas de lâmina fina e levemente curvadas, Ignus lembrava bem desse tipo de arma, pois a única vez que as havia visto antes daquele dia foi quando lutou contra Schneider.

– Tudo o que vê aqui fui eu que fiz sem nenhum tipo de auxilio.
– São belas armas, diferentes, mas belas. – Disse Ignus com sinceridade.
– E difíceis de manusear para quem está acostumado com espadas comuns.

O ferreiro se levantou e retirou uma das espadas do expositor e desembainhou-a mostrando sua lâmina para Ignus, que admirou-se ainda mais da perfeição da lâmina.

– Embora não seja uma espada de grande porte, é tão ou mais letal quanto as outras. E devido ao seu peso ela se torna uma arma rápida, seus ataques tornam-se difíceis de bloquear. – Disse enquanto fazia malabarismos com a espada para logo depois reimbainhá-la e oferecê-la a Ignus que recusou a oferta de experimentar a arma.
– Pelo visto também tem grande habilidade com espadas...
– Faço apenas o trivial, tenho que saber como manusear minhas criações para saber se elas estão de acordo com o que me pedem. – Rebateu o ferreiro interrompendo Ignus.

Enquanto terminava sua frase o ferreiro se dirigiu novamente a fornalha onde a brasa ardia furiosa aquecendo o metal, com o auxílio de um fole ele atiçou ainda mais as chamas. Ignus sentia o calor mesmo estando relativamente distante da fornalha, e por um instante sentiu como se fosse capaz de domá-lo, mas nada fez, apenas observou o velho ferreiro bombear o fole e soprar mais ar para intensificar o fogo.

– Diga-me, rapaz, o que te trouxe até aqui? – Questionou o ferreiro olhando seriamente para Ignus.
– Venho seguindo um conselho, disseram-me que provavelmente o senhor poderia me ajudar.
– Isso dependerá de que forma irá querer minha ajuda. – Respondeu após dar uma nova tragada no cachimbo.
– Preciso que me ensine como manusear uma espada. – Disse Ignus secamente.
– E como alguém que carrega uma não sabe como manuseá-la? – Ironizou o ferreiro rindo sonoramente.
– Mas não se trata de uma espada qualquer...

Se aproximando de uma mesa e afastando seu conteúdo para o lado, Ignus pôs Yurian sobre a mesma. A simples visão da arma, mesmo ainda embainhada fez um ar de surpresa e assombro surgir no semblante do velho homem. Não havia como não ter notado, e Ignus percebeu que de alguma forma aquele ferreiro conhecia aquela espada.

– Onde conseguiu isso? – Perguntou o ferreiro, seu tom de voz agora era completamente diferente de antes, parecia a voz de alguém muito mais imponente do que um simples ferreiro.
– Digamos que eu a tenha ganhado. – Respondeu Ignus, o que não era de todo mentira.
– Quer mesmo que acredite nisso? – Questionou o velho homem em tom de quem exige uma resposta sincera.
– Certa vez quando fui realizar uma missão para meu deus cai em uma armadilha, porém, tal armadilha me levou até essa magnífica arma. – Disse Ignus que se sentiu inclinado a falar a verdade, ao menos uma parte dela.
– Realmente é um trabalho magnífico, mas infelizmente não posso ajudá-lo. Tenha um bom dia. – Respondeu o ferreiro voltando-se para a fornalha e verificando o estado do metal.

Algo estava errado, o ferreiro sabia de algo, sua atitude comprovava isso, mas Ignus não se daria por satisfeito, não até ter a resposta que queria.

– Sei que esta espada é chamada de “Espada Maldita” e conheço a lenda que a precede. Sei também o quanto ela é perigosa, pois passei por uma dura provação para obtê-la.

O velho ferreiro olhou para Ignus e sentiu que ele falava a verdade, pois aquela não era a forma como um mentiroso se expressava.

– Sou apenas um ferreiro, o que tenho a ver com isso? – Questionou demonstrando exagerada irritação pela insistência do forasteiro.
– Nem meu mestre, tão menos o Deus da guerra puderam me orientar a forma correta de usá-la, sei que ela não um mero pedaço de metal moldado com dois gumes...
– E...? – Interrompeu irritado.
– O Oráculo me disse que você seria a pessoa certa para me ensinar como usá-la. Disse enfim.
– O “Oráculo”! – Repetiu de forma sarcástica.

Visivelmente desapontado o ferreiro mais uma vez se dirigiu a sua fornalha, apanhou o metal incandescente com a enorme pinça, em seguida mergulhou em um barril cheio d`água. A fumaça subiu rápida e repentinamente, nublando aquela parte da oficina. Inclinando-se habilidosamente para trás o ferreiro escapou dos vapores e retirou o metal após um rápido mergulho. Um novo mergulho e o metal já não estava mais tão quente, mas ainda não estava na temperatura ideal, só quando o metal chegou a uma temperatura que se pudesse tocá-lo sem muitos problemas ele foi devolvido a fornalha, que teve seu calor abrandado.

Calmamente o ferreiro começou a se desvencilhar de suas luvas e seu avental, Ignus apenas o observava confuso, mas sem nada dizer. Assim que guardou sua última ferramenta o velho homem andou até o fundo de sua oficina e abriu a porta que dava para o jardim de sua casa.

– Vai me acompanhar ou quer que eu o carregue no colo? – Perguntou o ferreiro voltando-se para Ignus.


O jardim interno da casa era belíssimo, a grama baixa, algumas árvores que providenciavam agradável sombra, um pequeno lago onde algum peixes nadavam tranqüilos e uma pedra localizada no centro do local.

A casa parecia pequena e modesta, vista de fora, mas ao menos a sala, que estava aberta, era bem espaçosa.

– Quer beber algo? – Perguntou o ferreiro.
– Água. – Respondeu Ignus distraidamente enquanto ainda contemplava a beleza do jardim.

Não demorou muito e o ferreiro voltou com uma jarra de água, Ignus bebeu seu primeiro copo quase todo de um único gole.

– O “Oráculo” por acaso lhe disse quem eu era? – Perguntou o ferreiro após Ignus beber seu segundo copo
– Apenas me disse onde encontrá-lo e que era um ferreiro renomado.
– Apenas isso? – Questionou o ferreiro.
– Apenas isso. – Confirmou Ignus.
– E por que acha, que um ferreiro por mais renomado seja, seria útil para você? – Perguntou esboçando um malicioso sorriso.
– Por dois motivos: se é um ferreiro assim tão renomado, é porque deve conhecer muito bem o seu ofício e, além do mais, deve saber mais do que fabricar armas. E segundo porque foi um conselho do Oráculo. – Explicou Ignus retribuindo o sorriso.
– As pessoas ainda acreditam no que um “oráculo” diz... – Disse balançando a cabeça negativamente.
– Nunca ouvi falar de nenhum erro por parte dele. – Respondeu Ignus a afirmação do ferreiro.
– Esse é o problema, ele nunca erra... Eles nunca erram... – Sua voz parecia cheia de pesar. – Então, rapaz, quer aprender a lidar com essa espada? Então vamos começar pelo trivial.


Em uma parte mais isolada do jardim havia uma área destinada a testes, um velho e grosso tronco mostrava as marcas de tantas outras armas que tiveram seus fios ali testados. Ao lado do tronco um rocha do tamanho de um homem também exibia algumas marcas frutos de outros testes.

O ferreiro explicou que a primeira coisa a ser feita era voltar aos ensinamentos básicos, cada espada tinha peculiaridades diferentes uma da outra e isso fazia com que se devesse conhecê-la bem antes de utilizá-la.
De frente para o tronco Ignus começou uma série de movimentos básicos, que segundo o ferreiro, serviriam para que ele conhecesse o peso e a velocidade da espada.

Após alguns minutos de várias repetições o ferreiro se deu por satisfeito, concluiu que a habilidade de Ignus era boa e que ele já tinha capacidade de executar movimentos simples com sua espada.

– Agora você que já conhece o peso e velocidade de sua espada está na hora de saber do que ela é capaz. – Disse o ferreiro depois de um breve descanso.

Ignus levantou e ia retirando a espada da bainha novamente quando o ferreiro a solicitou, um pouco receoso e sem entender o que viria, ele a entregou. Após fazer alguns movimentos aleatórios no ar, o ferreiro pediu que Ignus ficasse em posição de defesa, mas que não esquivasse muito e não defendesse nenhum dos golpes. E antes que pudesse protestar o ferreiro iniciou uma série de ataques rápidos e certeiros, no início levado pelo instinto Ignus tentava desviar, porém os golpes eram muito rápidos e precisos.

Pouco tempo depois o ferreiro cessou os ataques, Ignus tinha o corpo tomado por diversos cortes de variados tamanhos e profundidades, mas nenhum muito grave, todos foram feitos com precisão, evitando pontos vitais.

– Como um ferreiro consegue manusear tão bem uma espada, ainda mais essa espada? – Questionou Ignus em meio a sua perplexidade.
– Engraçado alguém que nem se deu ao trabalho de perguntar meu nome me questionar sobre minha habilidade – Respondeu ironicamente. – Mas antes que pergunte outra vez, isso faz parte do meu ofício, que bom ferreiro eu seria se não tivesse plena capacidade de testar minhas criações?
– Desde que cheguei estou tão preocupado em conseguir extrair o máximo dessa espada que me esqueci de muita coisa. – Disse Ignus sentindo-se um pouco envergonhado – Então, qual é o seu nome, para que não fique te chamando o tempo inteiro apenas de “ferreiro”.
– Hatsu. E você é Ignus, Emissário do Deus da Guerra.
– Como sabe? – Questionou Ignus surpreso.
– Sua fama o precede, você tem um título importante de mais para se manter desconhecido.
– Poderia me explicar exatamente qual o intuito desses sucessivos ataques? – Perguntou Ignus olhando novamente para seu corpo que agora estava coberto de sangue.
– Em minha concepção a melhor forma de alguém conhecer sua arma é saber do que ela é capaz, e que melhor forma do que ser golpeado pela própria arma! – Disse Hatsu com um meio sorriso.
– Golpear-se com a própria arma não parece algo sensato. – Respondeu Ignus franzindo o rosto.
– Pode não parecer, mas é, entretanto, como saber o sabor de um alimento sem antes prová-lo?
Ignus apenas concordou. E agora novamente olhando para o ferreiro entendeu o porquê de tantas cicatrizes em seu braço.
– Agora que sabe da dor que ela causa, seu peso e sua velocidade, você poderá saber o que ela pode ter oferecer. – Falou

Hatsu enquanto devolvia a espada ao seu dono. – Agora me mostre o que sabe fazer com ela.
Pondo-se em uma posição mais relaxada e respirando fundo Ignus concentrou seu shii na espada e ela pareceu responder ao emanar uma intensa aura escura. Após outro breve momento de concentração a aura deu lugar a chamas também escuras, Hatsu mesmo não muito próximo sentia o calor como se este estivesse queimando seu próprio corpo.

Após alguns poucos minutos Ignus desfez sua concentração, ainda assim sabia que aquilo não era o suficiente, sabia que poderia extrair mais tanto de si quanto da espada, mas ainda não sabia como.

– Todos que conseguem uma arma como essa cometem o mesmo erro, sempre. – Disse Hatsu visivelmente decepcionado, mas não surpreso.

Ignus não compreendeu.

– Você não tem que concentrar a energia que está em você, mas a que está na arma, para só então entrar em comunhão com ela.

Mais uma vez Ignus tentou, desta vez seguindo a orientação de Hatsu e concentrando-se na energia da espada e não na dele. Sentia uma energia imensa presa dentro da arma, uma energia que parecia capaz de consumi-los em poucos instantes assim que fosse liberta, quanto mais se concentrava nela maior ela parecia.

Agora concentrando-se em si mesmo viu que a energia que agora emanava de ambos era maior do que antes, mas ainda assim sabia que era pouco.

– Você assim como a maioria se bloqueia, impede que seu real potencial saia.
– Que tipo de bloqueio é esse?
– Depende, pode ser alguma fobia, um trauma, as causas podem ser várias, não é fácil dizer.
– Mas não há nada que me impeça de fazer o que quero, não tenho traumas, muito menos temores. Além do mais, segundo a Skalgar, a serpente que me deu esta arma, a espada libertou meu verdadeiro potencial.
– Isso é o que você diz. – Interrompeu Hatsu. – Ninguém conhece sua mente de forma plena para afirmar que não possui nenhum temor ou trauma, todos temos, por menor que seja. O medo ao mesmo tempo em que nos limita, também é o que nos impulsiona. E mesmo que a espada tenha realmente libertado tudo aquilo que guarda dentro de si, você tem que saber como aflorar isso à hora em que bem entender.

Ignus refletiu durante alguns instantes, mas não achou nenhuma resposta ou argumento apropriado para aquele momento, a única coisa que consegui dizer foi perguntar qual era a próxima lição.

– Degustar um gole alguma bebida!

Um comentário:

  1. Muito legal seu blog, vou passarmais vezes agora.....

    dá uma passada no meu
    http://otaviomsilva.blogspot.com/
    e/ou nesse q participo
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    Forte abraço.

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