Forjando Um Guerreiro - Aço e Fornalha - Terceira Parte

Brasa Ardente - Parte 2


Enquanto aguardava Hatsu terminar seus afazeres como ferreiro Ignus aproveitava para esvaziar a mente e relaxar a tensão contemplando o céu, mas as reflexões sobre seus temores e traumas não permitiam que descansasse completamente. Por mais que tentasse não conseguia pensar em nada que temesse, desde que conseguiu sua vingança contra seu pai sentia-se plenamente livre e desde então nada o limitava.

Seu único trauma era ter sido rejeitado por tudo e por todos e ser tratado como um inferior sempre, mas isso também havia superado quando matou seu pai. Ignus não sabia o que poderia ser essa limitação que Hatsu disse, entretanto, não conseguia encontrar sequer uma pista do que poderia ser.


Mesmo absorto em seus pensamentos um som vindo de dentro da casa do ferreiro lhe chamou a atenção, pois esta estava vazia, já que seu dono estava na oficina. Assim que pôs o primeiro pé dentro da casa se deparou com uma figura conhecida, trajando uma calça de boca extremamente larga e folgada e uma camisa de mangas largas, além do estranho chapéu cônico, era Schneider.

– O que faz aqui? – Questionou Schneider visivelmente surpreso pelo seu tom de voz.

Ignus mal teve tempo de responder ou mesmo reagir, com a típica velocidade Schneider o golpeou jogando-o para o meio do quintal e saltando em direção a ele logo em seguida, mas Ignus prontamente rolou para fora do seu alcance assim que viu a investida de seu oponente.

Agora de pé novamente e olhando rapidamente seu adversário viu que Schneider, ao contrário dele, estava desarmado. Aproveitando-se dessa desvantagem Ignus rapidamente começou a desembainhar sua espada para golpeá-lo, mas Schneider era muito mais veloz do que Ignus e com um chute impediu-o de desferir o golpe, atingindo a mão que segurava a arma.

Perplexo com a rapidez e a força de Schneider Ignus não conseguiu esquivar do chute que Schneider desferiu usando a própria mão de Ignus como apoio e tomando impulso com a outra perna, a mesma que usou para golpeá-lo.

Quando preparava o próximo golpe e Ignus tentava um contra-ataque, ambos foram impedidos por Hatsu que com sua potente voz ordenou que parassem.

– O que pensam que estão fazendo? – Vociferou Hatsu.
– Ele estava... – Começou Ignus.
– Sabe quem é... – Disse Schneider quase ao mesmo tempo.
– Calem-se! – Ordenou o ferreiro interrompendo ambos. – Onde estão seus modos, Schneider, ele é um convidado meu. E quanto a você – disse olhando para Ignus – Ataca todo aquele em que vê pela frente assim?
– Sua casa estava vazia, então ouvi um ruído e quando fui ver lá estava ele, pensei que fosse um invasor...
– Pensou errado. – Interrompeu Hatsu visivelmente irritado. – E quanto a você? – Perguntou a Schneider.
– Sabe quem ele é, mestre? – Questionou Schneider.
– Ignus, Emissário do Deus da Guerra. E só por isso atacou-o deliberadamente?

Mestre? Aquele ferreiro era mestre de Schneider, Ignus se questionava, mas em meio a confusão daquela afirmação tudo se clareou em sua mente. Agora entendia como aquele velho ferreiro podia ser tão habilidoso, ele na verdade era o lendário mestre Hatsunei, do qual já ouvirá falar tantas vezes.

A perplexidade daquela revelação era visível em seu semblante, Ignus ainda parecia não acreditar que estava perante Hatsunei, já que muitos rumores sobre o mesmo diziam que estava morto.


Quando os ânimos se acalmaram os três estavam sentados a volta da pequena mesa na varanda, degustando mais uma xícara de um chá calmante preparado por Hatsunei, para que seus visitantes se acalmassem um pouco.

Questionado por Ignus pela sua identidade real, ele confessou ser Hatsunei, mas preferia não alardear quem era para não chamar a atenção, pois segundo ele eram muitos os que o procuravam buscando ensinamentos e mesmo o desafiando para tentarem se mostrar mais fortes que ele.

A identidade de um velho e habilidoso ferreiro, apesar de um pouco óbvia não lhe chamava nenhuma atenção e garantia seu anonimato, mesmo usando parte de seu nome, muitos não faziam idéia de que isso não passava de um mero embuste. Até aqueles que de alguma forma desconfiavam eram logos encorajados a não crer em tal coisa pelo próprio, dizendo que se ele fosse o famoso e lendário mestre, o que fazia em um pequeno vilarejo trabalhando como um simples ferreiro.

Após revelar seu disfarce, Hatsunei quis saber como seu antigo pupilo e seu novo e temporário aluno se conheciam. Ignus contou-lhe da vez em que montava guarda e se deparou com Schneider que se preparava para fugir do castelo, falou também seu segundo encontro pouco tempo depois, quando também foi derrotado por ele. Schneider apenas confirmou, mas disse embora tivesse saído vitorioso das duas vezes Ignus era um oponente valoroso e honrado, diferente de muitos que já havia enfrentado antes.


– Pelo que entendi você também não usou seu shii contra meu antigo discípulo.
– Não seria justo, ele estava apenas lutando com a espada. – Afirmou Ignus.
– Acho que descobri onde está o seu bloqueio. – Disse Hatsunei.
– Não entendo. – Disse Ignus visivelmente confuso.
– Você se prende muito a esse seu senso de “justiça”, não que seja errado, muito pelo contrário, mas é isso que o limita.

Minha doutrina prega: “supere seu oponente onde ele é mais forte”, mas certas vezes temos que transgredir algumas regras para obtermos uma vitória. – Está última frase Hatsunei disse repleto de pesar.

– Mas isso seria desonroso! – Disse Ignus com certa indignação.
– A vida não é justa nem honrada com muitas pessoas, diversas pessoas também não são, mas cabe a você decidir o que é certo de acordo com o momento. Como poderia saber se Schneider tinha capacidade ou não de controlar o shii se apenas viu sua habilidade com uma espada? Entenda, Ignus, não disse que o que fez foi errado, mas a decisão que tomou pesou para a sua derrota, enquanto continuar a agir assim nunca conseguirá dar tudo de si, muito menos de sua arma.

– Então o que devo fazer? – Perguntou Ignus.
– Saber o momento certo onde se deve transgredir suas próprias regras morais.


– Quando quiser.

O ferreiro, ou melhor Hatsunei olhava atentamente para Ignus que estava parado a sua frente, Schneider apenas observava de longe. Ambos estavam imóveis, nem mesmo seus olhos se moviam.

Ao perceber um mínimo movimento na mão do oponente Hatsunei investiu contra ele de forma violenta, Ignus só o notou quando este já estava a meia distância dele, não teve tempo de evitar o golpe dado com o punho da espada dado na altura de seu fígado. Mesmo o golpe sendo muito forte ele conseguiu resistir e revidou em seguida com o soco, mas Hatsunei percebeu o movimento antes dele ser completamente executado, foi para trás de Ignus e antes que este pudesse fazer algo fora arremessado para frente, devido a força de um golpe recebido pelas costas.

Rapidamente o guerreiro conseguiu se recuperar e assim que tocou o chão usou toda a força de suas pernas se impulsionou na direção de seu oponente, Hatsunei bloqueou o golpe dado com a espada no último instante, mas sem muitas dificuldades, apenas expondo uma parte da lâmina de sua arma. Agora estava cara a cara com o guerreiro, ambos medindo forças.

– Quando irá lutar a sério? – Perguntou Hatsunei.
– Sempre dou o máximo de mim. – Respondeu Ignus, afastando o ferreiro.
– Se esse é o seu máximo, fico muito decepcionado.

Após dizer isso o velho mestre olhou nos olhos de Ignus por um instante, como se tentasse ler seus pensamentos através do olhar, pode apenas captar toda a determinação que aquele olhar severo e atento carregava e atacou sem piedade. Com um movimento repentino arremessou a bainha de sua espada contra o guerreiro que rebateu-a para o lado sem muito dificuldade, mas isso era apenas um embuste para distraí-lo, quando percebeu já era tarde demais e Hatsunei já estava desferindo um ataque diagonal perfeito em seu corpo. A força do golpe foi tamanha que além do corte profundo, Ignus fora arremessado alguns metros.

Sem dar tempo de seu pretenso oponente se recuperar o mestre saltou tomando um impulso extraordinário. Assim que atingiu a altura máxima ergueu a espada e desceu violentamente em direção ao guerreiro que ainda se recuperava do golpe anterior. Ignus notou a investida furiosa do velho mestre e pulou para trás evitando ser atingido em cheio pelo ataque, mas a força do mesmo foi tamanha que ao tocar o solo o impacto gerou uma onda de choque que atingiu-o em cheio jogando ainda mais longe.

– Não se surpreenda apenas com isso. – Disse Hatsunei olhando a face incrédula de Ignus que se levantava rapidamente olhando para ele. – Se não usar seu shii, nunca me vencerá.

O Emissário do Deus da Guerra ouviu aquelas palavras como um desafio e mesmo tentado decidiu que não usaria seu shii contra Hatsunei, já que este estava apenas atacando usando técnicas comuns. Tentaria superá-lo também usando apenas técnicas de espada, embora soubesse que seria algo muito mais difícil do que imaginara inicialmente.

Vendo que seu oponente estava hesitando Hatsunei preparou o próximo golpe, pôs a espada para trás como se ela ainda estivesse embainhada, e contorceu todo seu corpo para usar toda a força de impulso que pudesse gerar. Ignus reconheceu a pose e lembrou-se de quando enfrentara Schneider, desta vez não seria surpreendido pelo mesmo golpe. Ele elevou seu shii para que com isso tentasse ver algo de diferente, mas nada viu nem mesmo quando o golpe foi desferido e ao invés de tentar bloqueá-lo apenas saltou para evitar ser atingido. Porém enquanto ainda ascendia sentiu sua perna ser atingida violentamente e foi derrubado, quando olhou para a perna viu o talho na calça e o sangue escorrendo do corte.

– Pelo visto já viu esse ataque antes, provavelmente executado por meu ex pupilo, Schneider, mas como viu, minha velocidade não é a mesma que a dele. – Disse Hatsunei olhando severamente para Ignus.
– Apesar de poder estar muito tempo parado a sombra da identidade de um velho ferreiro, sua habilidade é impressionante. – Elogiou Ignus com sinceridade.
– Se acha que palavras doces me farão poupá-lo, está engano, rapaz.
– Ótimo!

Mesmo sendo derrotado Ignus parecia estar ficando mais empolgado, havia tempo não encontrava algum adversário ou desafio que não tinha certeza se conseguiria superar.

Levantando-se de um salto pôs-se em posição ataque e correu velozmente em direção a Hatsunei, o velho mestre imediatamente armou a posição de defesa, satisfeito em ver que seu oponente estava decidido a continuar o combate em pé de igualdade. Quando estava frente a frente com o ferreiro Ignus saltou para o lado, repetiu o salto outra vez logo que seu pé de apoio tocou o solo, com esses dois simples e rápidos movimentos ele já estava atrás do ferreiro e golpeou-o com toda a força que foi capaz de reunir naquele momento. Porém mais rápida foi a reação de Hatsunei que logo notou a ação de Ignus, girou na direção oposta rápido o suficiente para bloquear o golpe.

Impressionado com a força e a velocidade do velho mestre, Ignus permaneceu imóvel por alguns instantes, mas assim que recobrou sua atenção seus olhos se voltaram para as espadas que estavam igualmente imóveis. Viu claramente que havia uma fissura na espada de seu oponente, isso o animou, então fez um movimento rápido forçando Hatsunei a girar sua espada e empurrou-a com força para tentar desarmá-lo, mas a última parte da ação não foi bem sucedida.

Agindo rapidamente Ignus atacou novamente, desta vez com um corte frontal, não muito veloz, porém forte o suficiente para aumentar a ferida na lâmina, assim que se chocasse contra ela. O plano dera certo, Hatsunei defendeu o golpe sem muita dificuldade, mas o que Ignus não fora capaz de prever é que ao mesmo tempo em que defendia o golpe de seu oponente, o ferreiro preparava um contra golpe e assim que as lâmina se chocaram o guerreiro foi atingido por dois chutes seguidos, um atingindo suas genitálias e o outro em sua abdome empurrando-o para trás e fazendo-o cair de forma cômica.

Até mesmo Schneider que observava seriamente o combate não segurou o riso ao ver a cena.

– Dificilmente um homem suporta a dor de um golpe em sua virilha. – disse Hatsunei olhando para Ignus que se levantava aos poucos visivelmente furioso. – Estou impressionado que não esteja se contorcendo como uma lagartixa nem chorando como uma menina.
– Realmente, por isso eu não esperava. – Respondeu Ignus, seu tom de voz demonstrava bem sua profunda irritação.
– Que bom, ao menos não veio choramingar que isso foi desonesto ou covarde da minha parte. O fato de usar uma espada não significa que a usarei sempre. Aprenda isso, todo seu corpo deve trabalhar como uma arma de múltiplas faces, se lutar sempre com as mãos será derrotado por quem sabe usar as pernas, se só usar as pernas perderá para quem usa os braços melhor do que você. Mas se souber usar ambos de forma satisfatória, você será um oponente difícil de ser superado.

Mais uma vez o ferreiro pôs-se em posição de ataque, e pela postura Ignus presumiu que seria uma estocada. Assim que o golpe veio ele apenas se esquivou o suficiente para poder contra atacar. Primeiro golpeou a espada fazendo com que a arma de seu oponente ficasse fora de seu alcance, ao menos por alguns instantes, em seguida, usou o punho da espada para acertar a cabeça de Hatsunei, que contra golpeou com a mesma como uma forma de defesa, já que até mesmo para ele esquivar seria muito difícil. Porém o ataque de Ignus foi mais bem sucedido, fazendo com que o mestre recuasse alguns passos.

– Muito bem, fico feliz quer esteja raciocinando, ao menos um pouco e sendo mais criativo. – Elogiou Hatsunei com sinceridade.

Vendo que seu oponente estava levando o combate mais a sério Hatsunei decidiu testar os limites de Ignus e forçá-lo a usar seu shii. Agora que estava novamente um pouco mais distante dele relaxou seus músculos, para aliviar-lhes a tensão e respirou fundo. O guerreiro vendo a oportunidade aproveitou-a, valendo-se do fato que se aquele fosse um combate entre dois verdadeiros inimigos, seu oponente não o pouparia caso ele fizesse o mesmo.

O ataque desta vez foi visando as pernas do velho mestre, mas Ignus manteve-se atento ao seu rosto e braços, estranhamente Hatsunei permaneceu imóvel até que Ignus estava a pouco centímetros de distância deles, mas no último instante ele hesitou e parou o golpe, isso exigiu-lhe um grande esforço. Assim que olhou para baixo novamente viu que seus instintos haviam lhe ajudado, pois o punho de Hatsunei havia se movido discretamente pondo a lâmina em sua direção. Se tivesse continuado o ataque agora, certamente, estaria com a espada atravessada em seu abdome.

– Velha raposa astuta! – Disse rindo para o ferreiro que esboçou um sorriso cínico em resposta.

Ambos se olharam por mais um breve momento, então Hatsunei saltou por cima de Ignus e tentou golpeá-lo pelas costas enquanto
ainda estava no ar, mas o guerreiro se jogou para frente rolando no chão assim que viu o ferreiro saltar, temendo não ter velocidade suficiente para contra atacar ou defender o golpe. Mas logo que se voltou para seu oponente enquanto levantava, viu que sua espada vinha descrevendo uma trajetória mortal no ar enquanto vinha em sua direção, após ser atirada por Hatsunei. Com habilidade de um mestre Ignus rebateu a espada de seu oponente com a sua, jogando-a no chão, mas tardiamente notou que Hatsunei havia se lançado contra ele, logo atrás da espada, o golpe inicial não passava de um embuste.

Atingido por um poderoso soco em seu tórax Ignus foi arremessado violentamente para trás, só parou quando se chocou contra uma das árvores do jardim, fazendo a mesma chacoalhar bastante derrubando diversas folhas. Sem dar tempo do guerreiro se recuperar Hatsunei correu em direção a ele novamente, pronto para acabar com o combate de um vez, mas rapidamente Ignus conseguiu se recuperar, apesar da forte dor no peito. Com o braço direito bloqueou o primeiro ataque, que veio por cima, o segundo ataque veio por baixo e conseguiu bloqueá-lo com a mesma destreza com o outro braço.

Vendo a oportunidade o guerreiro não hesitou, enquanto o ferreiro estava com a guarda aberta Ignus concentrou rapidamente seu shii e golpeou-o rapidamente, sem dar-lhe chance de esquiva.

– Finalmente decidiu lutar a sério... Bom! – Disse Hatsunei visivelmente satisfeito enquanto se levantava a metros de distância de Ignus.
– Não era exagero quando diziam que era impossível vencer Hatsunei e seus discípulos em combate justo de espadas. Logo, se eu quiser te vencer, não posso me prender ao orgulho e a vaidade e usar tudo que tenho.

Ele sabia que Hatsunei mesmo lutando a sério não estava dando tudo de si, sabia que se quisesse poderia ter acabado o combate com apenas um golpe. Sabia também que quando começasse a dar o máximo de si, o velho ferreiro também elevaria seu nível e o combate se tornaria ainda mais difícil. E isso o dava ainda mais animo para continuar, mesmo sabendo que sua derrota era uma possibilidade bem provável.

Pondo-se novamente em posição de combate Ignus começou a concentrar todo o seu shii para atacar Hatsunei e desarmá-lo, pois acreditava que seria mais fácil enfrentá-lo dessa forma, além de distraí-lo e ter tempo de recuperar sua arma que havia caído no chão depois de ser arremessado pelo golpe de Hatsunei.

O mestre recuperou a espada e a colocou embainhada em sua cintura enquanto aguardava a ação de seu oponente, que não tardou a vir. Ignus disparou contra ele uma pequena quantidade de shii que assumiu um formato oval pouco maior que seu próprio braço, o ataque veio rápido e violento, porém Hatsunei rebateu-o para o lado usando apenas suas mãos.

– Você veio aqui para aprender sobre sua espada, então use-a! – vociferou Hatsunei em tom de comando.
– Preciso consegui-la antes. – Disse Ignus sem tirar desviar o olhar de Hatsunei por um instante sequer.
– Então pegue-a! – Rebateu Hatsunei indicando a espada com a mão, mas sustentando o olhar de Ignus.

Sem pensar duas vezes Ignus saltou em direção a espada estendendo uma das mãos para pegá-la, mas Hatsunei assim que viu seu movimento, sacou a espada e desferiu o corte no ar. Ignus que estava extremamente atento ao ferreiro pode ver o arco mortal desenhado no ar pela espada e viu, também, o ar se deslocando até ele. Sabia que teria poucas chances de não ser atingido, mas mesmo assim não hesitou, muito menos tentou se defender.

Quando estava quase atingindo o solo e tocando em sua espada sentiu seu abdome ser cortado de um lado ao outro de forma quase instantânea e caiu no chão contorcendo-se de dor, mas com sua espada novamente em mãos.

Imediatamente levantou-se e viu que Hatsunei não estava mais a sua frente, olhou para o alto e viu-o descendo violentamente em sua direção com a espada erguida acima da cabeça. Ignus decidiu que não esquivaria do golpe, sabia que a força do impacto o atingiria, então decidiu bloqueá-lo, segurou a espada com as duas mãos, virando a lâmina, para deixar o lado largo e sem fio bloquear o ataque.

O velho mestre mesmo vendo que seu ataque seria parado, continuou sua trajetória e golpeou a espada de Ignus furiosamente, o impacto foi tal que fez o Emissário do Deus da Guerra se ajoelhar, mas ainda assim resistindo bravamente. Mesmo agora que Hatsunei estava no solo, a pressão que exercia ainda era imensa, entretanto Ignus ainda resistia e segurava sua espada evitando que a lâmina inimiga corresse livremente para dilacerar seu peito.

Em um ato repentino Ignus concentrou-se em sua espada e evocou as chamas que ela produzia, só que desta vez, elas surgiram com muito mais intensidade do que antes. Aproveitando de um momento de hesitação de Hatsunei, ele se levantou, girou o braço que segurava a espada, fazendo que seu oponente abrisse a guarda e em seguida golpeou seu abdome com um corte lateral bem sucedido.

O ferreiro agora sentia sua barriga queimar de forma dolorosa, com a mão livre tocou o ferimento e pode sentir a profundidade do corte, se não houvesse recuado a tempo estaria no chão com o ventre aberto. Também não havia sangue, graças as chamas que cauterizaram o ferimento imediatamente, porém a dor causada por elas adicionadas a dor corte era imensa, mas ele conseguia suportar de forma extraordinária.

Vendo que agora tinha uma vantagem, por menor que fosse, Ignus continuou atacando, desta vez usou sua espada para conduzir sue shii, mas o que deveria ser um simples ataque veio em forma de uma onda flamejante. Ao ver o arco de chamas negras vindo rapidamente em sua direção Hatsunei saltou para o lado, em seguida aproveitando-se da força do impulso inicial deu um segundo assim que tocou o solo, pondo a espada a sua frente. Ignus defendeu o ataque com sua espada por puro reflexo.

Agora ambos se olhavam nos olhos tentando quebrar em vão a concentração do outro, tentando fazer com que cedesse por um instante. Porém nenhum conseguiu suplantar a vontade do outro.

– Sua persistência é louvável. – Elogiou Hatsunei.
– Sua força e habilidade são impressionantes, mesmo para um velho. – Disse Ignus retribuindo de forma irônica o elogio.

Ambos gargalharam sonoramente, mas nenhum cedeu um momento sequer. Ignus expandiu seu shii abruptamente fazendo com que o mesmo golpeasse Hatsunei e o jogasse para longe. Aproveitando-se do instante em que o velho mestre estaria vulnerável ele reuniu seu shii de volta, concentrou-o todo em sua espada e golpeou o ferreiro impiedosamente.

As espadas se chocaram no ar produzindo algumas faíscas, mas ambos conseguiram sustentar a arma do outro. A tensão nos músculos de ambos era tamanha que parecia que explodiriam a qualquer momento. Schneider não lembrava de ninguém que fora capaz de medir forças com seu mestre de tal maneira.

Mais uma vez as chamas escuras de surgiram na espada, Hatsunei sem esperar o que viria deu um pequeno passo na direção oposta a qual Ignus forçava sua arma, fazendo com que ele se deslocasse para frente devido a pressão feita. Agora podendo-se lado a lado passou sua perna por trás de Ignus, entrelaçando-as, finalizou a manobra com um soco, fazendo com que Ignus caísse no chão. No momento em que pensava em revidar o ataque Ignus teve que rolar par o lado e por pouco não foi atravessado pela espada do ferreiro que afundou no chão alguns centímetros.

Novamente de pé Ignus iniciou uma seqüência de ataques elevando ainda mais a intensidade das chamas de sua espada, Hatsunei defendia cada ataque com maestria e contra atacava a cada chance que vislumbrava, porém diferente do experiente mestre Ignus não conseguia evitar todos os golpes, mas sabia que suas chamas o estavam ferindo de alguma forma devido a sua potência.

Em meio a frustração da derrota vindoura Ignus soltou um urro enquanto erguia sua espada e enviava todo o shii que podia para ele, em seguida golpeou Hatsunei com toda a força que fora capaz de reunir. O ferreiro escapou do golpe, mas não da coluna de fogo que se formou após a espada tocar o chão, que impressionou até mesmo o próprio Ignus. Instantes depois Hatsunei surgiu rolando no chão tentando evitar que sua roupa continuasse a ser consumida pelas chamas.

Vendo a oportunidade Ignus se lançou contra o oponente caído, notando a investida, Hatsunei ajoelho-se, desviou a espada com a mão esquerda e com a direita golpeou fortemente o rosto de Ignus que foi ao chão no mesmo instante. O ferreiro ainda golpeou o guerreiro na linha de cintura antes de saltar em direção a sua espada que ficara no chão. Ignus levantou em seguida e novamente se atirou contra hatsunei valendo-se da vantagem de seu oponente ainda estar de costas para ele.

O que o servo do Deus da Guerra não contava era que Hatsunei tivesse habilidade suficiente para apanhar sua espada e mesmo agachado, se virasse contra ele e defendesse magistralmente seu ataque. Os dois começaram novamente a medir forças e Ignus viu que a espada de Hatsunei estava ainda mais danificada, mas ela ainda resistia a tudo que era submetida, um verdadeiro trabalho de um mestre, reconheceu para si mesmo.

Ambos continuaram a medir forças, os músculos dos dois parecia que explodiriam a qualquer momento, o guerreiro começou a elevar seu shii instintivamente, mas a medida que sua energia se elevava sentia como se a força do velho mestre aumentava na mesma proporção.

Até que Ignus finalmente relaxou a tensão em seus braços, jogou sua espada longe e dispersou seu shii. Schneider que só observava de longe teria estranhado a rendição caso não tivesse visto seu antigo mestre sacar a outra espada que ainda estava embainhada e colocá-la perigosamente no ventre de Ignus.

– Você poderia ter me esmagado com seu shii, porque não o fez? – Questionou Hatsunei enquanto guardava suas espadas.
– Mesmo que tentasse, no instante que meu shii se elevasse de forma mais ameaçadora, você me dividiria em dois. – Reconheceu Ignus.
– Minha espada não é capaz de romper uma barreira energética criada pelo shii, ainda mais um shii tão grande e intenso como o seu.
– Não minta pra mim, velho, você teve todas as oportunidades para me matar e mesmo que sua espada seja comum, com a habilidade que tem romperia meu shii facilmente, mesmo com a mais comum e simples das armas. Sei também que só consegui resistir a um de seus ataques graças a minha espada, se ela fosse uma arma comum , você a teria destruído com facilidade logo no primeiro impacto.
– No entanto foi você que por pouco não destruiu a minha, terei de reformá-la o quanto antes.


Satisfeito consigo mesmo, ainda que derrotado Ignus agradeceu os ensinamentos do mestre e partiu, prometeu que não revelaria ao mundo que o lendário Hatsunei estava vivo, nem sua localização. Compreendeu que a única coisa que o velho mestre desejava era seguir sua vida em paz, não a sombra de uma lenda do mestre invencível, nem ser desafiado a todo o momento por aventureiros em busca de fama instantânea.

Agora sabia como conseguiria dominar melhor sua espada, sentia que poderia ir muito além daquilo que havia imaginado inicialmente e de alguma forma, os breves ensinamentos de Hatsunei lhe deram uma segurança que poucas vezes sentira antes.


No caminho de volta foi abordado por um mensageiro de sua ordem, este tinha um comunicado urgente de seu deus que convocava todos os membros que pudessem ser localizados em tempo.

A mensagem que fora redigida há um dia, dizia que ele teria mais um dia para chegar a um reino que ficava a algumas horas dali. Segundo informações seguras um contingente significativo de seguidores de um novo deus estava indo em direção a este reino com o objetivo de tomá-lo para provar sua força. Era justamente o maior reino sobre a proteção de Paia.
Assim que terminou de ler a mensagem e confirmar a direção que deveria seguir, Ignus partiu em disparada. Era tarde, o sol começava a se por, mas ele não poderia esperar pelo dia seguinte.

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