Díario de um Servidor: A Arte da Batata Quente



- Bom dia. - Diz o diretor.
- Bom dia. - Responde o funcionário.
- Gostaria que resolvesse isso pra mim. - Entrega a batata-quente.

Assim começa o jogo da batata-quente no serviço público.

Lembram quando em Tropa de Elite o então Capitão Nascimento comenta sobre o sistema? Acredite, isso existe em TODA a esfera pública, em maior ou menor grau.

Não necessariamente quando digo "sistema" digo a corrupção sem limites do filme, mas falo de como o sistema cria sistemas vindos de cima para baixo que enquanto são vendidos como formas de controle na verdade são apenas mecanismos burocráticos que inventam para fazer o tempo passar e as coisas só ocorrerem, na prática, de dois em dois anos (e claro, depois dos eventos esportivos, naquela época do ano em que político é o diabo vestido de santo).

O poder no setor público é politicamente centralizado, mas a responsabilidade não.

Vou me citar como exemplo. Sou Administrador de Sede de uma unidade da UFRJ. e recebo uma FG por isso (irrisórios 80,00 reais, mais ou menos). Sou responsável por dentre outras coisas na fiscalização da conservação dos prédios da sede e outros assuntos de minha competência. Entretanto, para QUALQUER COISA necessária não tenho a autonomia de resolver ou mesmo o poder de exigir isso. Apenas solicito. E espero.

Um cano estourou, quando tem como se fazer a dispensa de licitação (em casos emergenciais em que o valor é irrisório), a solução local ocorre em uma ou duas semanas. Entretanto, quando o fato depende de terceiros, a batata esquenta. Daí nasce o jogo, que no meu setor chamamos de "batata-quente".

- O cano está vazando, resolva! - Ordena o diretor.
- Já solicitei ao departamento X o conserto.
- E até lá, o que fazemos? JÁ ERA PRA ESTAR CONSERTADO!
- Desativamos o setor, não sei o que fazer mais.
- SE VIRA! CONTRATA UMA FIRMA QUALQUER! Você é um incompetente, não sei o que faço contigo...

Daí para desvios de função ou mesmo corrupção. A corrupção porque sempre na pressa de ter a solução, o servidor simplesmente atravanca o processo de empenho, muitas vezes com a melhor das intenções, aquelas que povoam o inferno. Desvios de função porque muitas vezes alguns abaixam a cabeça e fazem, mesmo tendo capacitação para outra coisa, apenas para agradar os ouvidos.

Eu passo a solicitação para um setor, que passa para outro, que vai até um que agenda a visita do encanador para quando for possível. Com ênfase ao "quando for possível". Por uma questão burocrática e para fingir que existe qualificação no setor público (idéia de FHC e bem aproveitada por Lula) não existem mais cargos de nível de execução/operacionais.

- Setor de manutenção? Não sei porque pede isso...
- Mas...
- Só tem vagabundo, não quero setor, pede pra coordenação X que eles resolvem.
- ...
- Está entendido?

Por uma visão preconceituosa de que esses nunca trabalham (dentro da própria instituição) e a necessidade de alegrar grandes empreiteiras (posicionamento do governo federal) não tem mais concurso para pedreiro, não tem para faxineiro, não tem para eletricista, e etc. A medida que os que já existem se aposentam, em paralelo contratam firmas terceirizadas para esses serviços, pagando muito mais caro do que pagariam para um concursado. Vergonhoso? Isso é Brasil, amigo leitor.

Não tenho como solucionar isso, sou o passarinho contra o incêndio. Em minha unidade consegui mudar muita coisa, tive colaboração de muita gente e desejo por parte da diretoria. E para por aí. Quando se trata de relacionamentos extra-unidade a resistência, a truculência e a má vontade (essa resultado da insistência, pois cobrar algo é errado) imperam.

- Boa tarde, tem como enviar o encanador que solicitei no mês passado? - Solicita o funcionário pela sexta vez, via e-mail.
- Ele já não foi? - Pergunta o chefe de outro setor de manutenção, que quebra o galho do lugar sem manutenção.
- Não.
- Semana que vem ele vai.
E com isso se passam três "semanas que vem".

E para mudar isso tem que vir uma regra de cima para baixo, e apesar de ser eu a escutar as reclamações, não sou eu quem resolvo. Tudo é levado de mão em mão até a cabeça do reitor (a autoridade suprema da UFRJ). Muito fácil de imaginar a solução individualmente, mas quando a faculdade tem mais de oito mil funcionários técnicos-administrativos (sem contar alunos e professores) isso se transforma numa bola de neve de final desagradável (vide a foto abaixo, do contraste da perna-seca do HU-UFRJ com o resto).



Mas como se resolver isso? Não se resolve.

Não existe ou haverá uma política dentro do serviço público de manter o bom profissional. Geralmente o bom profissional decepciona-se com o que encontra, estuda, e por concurso migra para outras esferas ou setores até que encontra um adequado as suas necessidades pessoais (ou morais, para não citar as financeiras) e então finca raízes criando aqueles setores onde a mágica acontece e tudo funciona. É assim no setor privado onde o competente troca de emprego como troca de cueca, com a diferença que o mercado procura gente competente, enquanto o setor público segrega.

Infelizmente no serviço público o que fica para trás é o chamo de ranço. Pessoas mamando esperando a aposentadoria chegar.

Daí fica complicado querer ser profissional quando você está se matando de trabalhar, se importando com as coisas e querendo prestar um bom serviço e esbarra no jogo da batata-quente ou na morosidade de colegas que somente mamam nas tetas do Estado e colaboram com o jogo.

Mas eu consegui resolver o estigma da batata-quente de uma maneira simples: registro.

Tive e conquistei a liberdade para mudar coisas - como disse. - e a mais importante foi registrar todos os pedidos que não tenho como cobrar ou que não dependem exclusivamente da unidade, e inclusive registrar os da unidade. Nada acontece sem deixar um registro, seja eletrônico ou por papel.

Registre TUDO que fizer, e isso vale tanto para o público quanto o privado. Nunca deixe nada resolvido de boca, porque palavras o vento leva e o Alzheimer-voluntário devora. Seja e-mail, recadinho, ou mesmo um formulário impresso. Registre, e deixe claro para seu superior o que faz e o que solicitou.

E assim, o jogo da batata-quente sempre pode terminar favorável para você. Ou menos desfavorável.

- Ótimo, viu como é fácil? - Comenta o diretor, vendo que o vazamento acabou dois meses e meio depois da solicitação.
- Sim senhor.
- Nunca mais me questione. Levou apenas dois meses e meio! Antes levava um ano.
- Um ano?
- Graças a informática. Por e-mail é mais rápido...

2 comentários:

  1. Isso me lembrou um conhecido que em estági probatório como pedereiro, na prefeitura onde mora, foi solicitado no primeiro dia que ele fizesse um teste.

    Disse a ele o mestre de obras:
    -Troca o marco desta porta.

    Enquanto ele trocava o marco e ao final de três horas ia encerrando o serviço, seus companheiros quase aposentados, diziam:

    Isso é serviço para dois dias. Nós temos que te ensinar a ser funcionário público.

    Felizmente, a grande maioria dos funcionários públicos não são assim, mas tem muitos funcionários que impõem aos que estão chegando seus hábitos rançosos.

    Quanto aos registros, em se tratando de Escola temos que registrar tudo. Uma vez, uma diretora queria afastar uma professora por faltas. Se deu mal porque não tinha registrado as faltas da professora e nem fez ata de advertência.

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  2. Isso é verdade. Quem trabalha bem e é consciente dessa necessidade não cria casa no serviço público. Principalmente quando a chefia é do tipo acomodado e só sabe empurrar as batatas.

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