Liberdade de Imprensar


Cena: um jornal qualquer de qualquer posição política e cuja nomenclatura não acrescentaria nada à interpretação do texto. De móveis uma velha mesa de cedro com inúmeras marcas do tempo. Duas cadeiras uma defronte a outra. Uma para aquele que manda, outra para aquele que obedece. O cheiro da fumaça de cigarro é forte, apesar de não haver nenhum fumante na sala.

Entra o primeiro personagem. Um homem gordo e vestindo calça marrom presa por suspensórios que larga um paletó preto sobre a cadeira de quem obedece. Ele senta na cadeira de quem manda e apoia os pés sobre a mesa. Pega um charuto em uma das gavetas da mesa e começa a fumá-lo. A luz do palco diminui enquanto escutam-se sons de prensas trabalhando.

Entra o segundo personagem. Veste uma camisa surrada e marcada no suvaco por suor. Ele tem os cabelos embaraçados como se estivesse coçando-os por horas. Usa um óculos de descanso e carrega uma pequena pasta preta. Caminha trôpego até a cadeira de quem obedece, mas antes de sentar-se a luz se acende.
- Boa tarde, seu Almeida. - Diz o segundo personagem.
- Ia amassar meu paletó, energúmeno! - Responde o Sr. Almeida, dando uma longa tragada com seu charuto e jogando a fumaça no ar, mas bem próximo do segundo personagem. - O que deseja Moacir?
- Vim conversar com o senhor... É sobre a matéria que o Jonas está fazendo para...
- De novo esse assunto? - Interrompe brusco. Uma luz se acende atrás de uma cortina, iluminando um vulto que parece observar a cena, um terceiro personagem.
- Mas é uma matéria muito boa o senhor...
- Moacir, meu caro Moacir... O senhor está em nossa firma há quantos anos?
- Oito anos, Almeida.
- Oito anos, nossa firma pertence a um dos maiores conglomerados de comunicação do Brasil! Quiçá da América Latina! Moacir! MOACIR!

Silêncio no palco. A iluminação fica apenas no vulto. Efeitos especiais mostram dois pontos vermelhos iluminados onde deveriam ser os olhos do vulto. Um leve cheiro de enxofre sai do palco para a platéia.
- E nesses cem anos sabe quem lhe pagou seu salário? - Continua Almeida, com a luz aos poucos voltando para todo o cenário.
- O senhor?
- NÃO MOACIR. - Berra Almeida, com uma carga de ironia na voz que parecem cativar o público, enquanto força um choro. - Vocês jornalistas não entendem...
- Mas aprendi na faculdade...
- Faculdade é teoria, você tem oito anos aqui, deveria saber disso Moacir! Oito anos e não aprendeu vida real?
- Mas...
- São nossos anunciantes! Eles BANCAM meu emprego, o seu e o do Jonas, sem eles a gente vai ter que fazer o que? Vender jornal?
- Mas eles usam carne humana nas lingüiças... Mas...
- Deixa de romantismo, Moacir! Vai, sem "mas" ou "marromenos", me passa a papelada... Passa.

Moacir pega a pasta preta e coloca sobre a mesa. Novamente a luz se apaga e ficam apenas dois spots luminosos. Um na pasta e outro no vulto, cujos olhos vermelhos brilham ainda mais. Música de tom fúnebre começa a tocar.
- É isso tudo? - Pergunta Almeida, enquanto pega um penico embaixo de sua mesa.
- Tem o que está nos computadores do Jonas.
- Apague tudo.
- Mas.
- Olhe isso aqui.

Almeida pega uma garrafa de bebida do bolso e mistura com o conteúdo da pasta, coloca tudo junto no penico. E depois ele joga seu charuto na papelada, que imediatamente queima. Luzes se apagam, apenas fica a iluminação das chamas consumindo a notícia.
- Mas isso é censura. - Reclama Moacir.
- Não é, é apenas um favor. Ao meu e ao seu salário e ao de todos nós.
- Mas.
- Moacir, para de lamento e passa essa pauta para o Jonas.
- Qual?
- Falar sobre as qualidades da lingüiça de nosso anunciante! Vai que é uma enorme campanha! VAI!

Fecha a luz. Encerra-se a apresentação com a luz focada no vulto e uma gargalhada cruel ecoa pelo palco que só é interrompida quando o cai o pano.
- Eu amo liberdade de imprensar. - Diz uma terceira voz, cadavérica.

O público, atônito, não aplaude.

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