O Vendedor

Todos os dias Haroldo passava em frente ao coreto indo e voltando do trabalho via todo o tipo de gente: jovens, velhos, moças, estudantes, casais de namorados, mendigos... Mas o que mais lhe chamava a atenção era um senhor de meia idade, nordestino, falador e sempre animado. Todos os dias sua pequena banquinha tinha alguém comprando algo com ele, algumas vezes tinha até fila, mas Haroldo nunca via a bendita mercadoria.

Dia após dia lá estava o nordestino bem humorado fazendo suas graças para encantar o público e vender sabe-se deus o quê, mesmo em dias que não tinha um cliente sequer, lá estava o nordestino com um sorriso no rosto pronto para atender quem quer que fosse.

Mas um belo dia Haroldo viu que o coreto estava calmo e tranqüilo, sem ninguém, a não ser o nordestino, mas não havia clientes para ele, no fim da tarde a mesma coisa, as pessoas passavam e lá estava o nordestino quietinho em seu canto, sem ninguém para comprar. E foi assim no outro dia, e no outro, e no outro... Uma semana se passou e ninguém comprava mais nada com o nordestino, que fizesse chuva ou sol estava lá com sua barraquinha, seu chapéu de couro e gibão, com seu inconfundível sorriso no rosto.

Tomado pela curiosidade Haroldo resolveu ir até a barraca do nordestino e se surpreendeu ao chegar lá, pois não havia nada em cima da banquinha.

- Quer comprar? - Perguntou o animado nordestino com seu forte sotaque.
- Mas o que tem pra vender? 

Haroldo coçou a cabeça, não havia um mísero produto que fosse ali.

- Como posso lhe vender algo sem saber antes se vossa excelência quer comprar? - Gracejou o animado homem.
- E como posso comprar algo sem saber antes do que se trata? - Irritou-se Haroldo.
- Ora meu bom homem! O que tenho aqui é um produto excepcional, magnífico, uma verdadeira autarquia em matéria de comércio

O nordestino dançava em volta de Haroldo enquanto respondia, fazendo graça para quem passava.

- Mas se é tão bom assim, por que não o mostra? - Questionou Haroldo.
- Ai é que está, eminência! Uma mercadoria de tamanha qualidade, não pode ficar assim exposta ao deus dará de qualquer jeito!
- E do que se trata, homem?
- De um "próduto" "révolucionário", emblemático, de suma importância para o homem!
- É mesmo? É tão bom assim? 

Repentinamente a irritação de Haroldo deu lugar a uma deliciosa curiosidade.

- É excelente! Meus clientes gostam tanto que sempre me pedem mais!
- E quem são seus clientes?
- Gente da mais alta sociedade, a mais fina nata brasileira! Estudantes, advogados, doutores, juízes, médicos! Todo o tipo de gente compra comigo e sempre pedem mais!
- Então isso deve ser bom mesmo! - Animou-se Haroldo.
- Mas é claro, minha autarquia! Com toda a certeza! - Disse o vendedor ainda mais animado.
- No entanto, algo me intriga, se é tão bom assim, por que ultimamente vejo o senhor com tão poucos clientes? - Perguntou Haroldo.
- É assim mesmo, de tempos em tempos as pessoas perdem o interesse. Uma hora querem demais, outra hora querem de menos. 

O vendedor, o velho nordestino brincalhão parecia não perder a empolgação, mesmo quando o assunto ficava mais sério.

- Mas então, antes que minha conversa de vendedor lhe causa uma gastura, perguntou eu sem nenhuma cordura: quer comprar?
- Já que é algo assim tão bom, vou querer, sim. Quanto é?
- Depende de quanto quer pagar!
- Ora deixe disso, me vê logo isso ai, e pago o que me pedir!
- O justo cobrarei e lhe garanto, minha autarquia, se sentirá como um rei!
- Então, onda está o que acabo de comprar?

O nordestino fez mais uns gracejos e uns floreios e de dentro de seu gibão de couro tirou um pequeno livro, Haroldo logo estranhou e de pronto perguntou:

- O que é isso? E o que é isso? E o que tem de tão valioso?
- Isso, é algo que carregará para sempre contigo, é a única coisa que ninguém poderá te tirar. Isso é o bem mais valioso de um homem. Conhecimento!

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