Análise da (re)Tomada dos Complexos.


Salvo se você mora em outro planeta, em um lugar sem nenhuma comunicação com o mundo ou optou pelo isolamento esse final de semana em algum momento você acompanhou com aflição o evento que a imprensa transformou em espetáculo. Junto com milhares torceu como se fosse final de jogo de futebol e vibrou quando fincaram a bandeira no alto do objetivo conquistado. É humano. Entretanto, convém sempre depois que a poeira começa a abaixar levar em consideração alguns questionamentos que estão surgindo e que a falta de memória tradicional de algumas conveniências já querem distorcer fatos.

Em 2007/2008 já poderia ter sido feito.
Não, não poderia. Em 2007 o estado do RJ estava partido. Depois de anos de um governo mafioso (inclusive com envolvidos nos quais se basearam muitos personagens de Tropa de Elite) que sucateou por anos a polícia física e, principal, moralmente não tinha cenário para isso. O PAN2007 precisava ocorrer e os atrasos de obras devido as patéticas crises causadas pelas disputas de poder político no Rio de Janeiro (conflito PFL, PMBD e PT, para dar nomes aos partidos) fez com que tudo fosse realizado nas coxas. Não tinha efetivo, não tinha condições de ocorrer mais do que ocorreu: massacres.

O mais próximo disso foi a colocação do Batalhão da Maré, um batalhão com viés político-eleitoral-chinfrim, literalmente e tão somente para ser visto por estrangeiros enquanto trafegam em seus táxis/ônibus no caminho do Galeão para a Zona Sul pela Linha Vermelha virado de costas para a comunidade que deveria proteger. Um claro recado das políticas de segurança adotadas até então, o PPP (Paulada no Preto Pobre).

Com o passar dos anos, surgiram outras idéias. Dessas importaram da colômbia o modelo de segurança pública que funcionou no primeiro momento, um modelo ocupação das áreas menos favorecidas com políticas de controle policial que vinham acompanhadas de forte amparo social.

Entretanto, a política de implementação de UPPs e de ocupação social do Rio de Janeiro seguiu dois rumos distintos. Por ser um projeto importado, e pelas características aristocráticas da nossa sociedade foram adotados da seguinte forma (o que pode ser visto, se você leu jornais ou tem como se preocupar em notar essas coisas): o modelo de instalação de UPP com posterior implementação de políticas sociais seria adotado nas favelas em zonas ricas e o de inserção de políticas sociais com posterior implantação da UPP seria aplicado no resto.

Deu no que deu. Enquanto comunidades como a do Dona Marta, Pavão-Pavãozinho recebiam suas unidades de policiais pacificadoras e funcionavam, do outro lado eram implementadas em comunidades como a do Alemão projetos como o teleférico e demais obras do PAC. Diversas ocorrências de violência (e abusos) contra operários e colaboradores foram relatadas em jornais de grande circulação enquanto no lado "caviar" da cidade projetos sociais eram implementados após ocupações pacíficas em cada vez mais favelas.

Como vento que venta aqui, não venta lá. O sucesso do projeto UPP (que elege governantes) fez com que pessoas de outras comunidades desejassem o mesmo. Mas um projeto como esse - e como bem diz o Secretário de Segurança. - demanda tempo (e dinheiro). Tempo porque concursos para soldados demoram. Dinheiro porque sem esse não se pagam os salários, vergonhosos, da corporação. Tendo ambos, instala-se a unidade. Não tendo, lamenta-se. Claro que se for para instalar algo na zona

Daí vamos pros dias atuais.

O golpe do estado.
Existe algo na vida pública que aprendi sobre verbas: O dinheiro só sai quando o mundo está acabando. Qualquer outra forma de tentar atingir um objetivo esbarra na miríade da burocracia (aquela que cria pilhas de papel e inúmeras margens para corrupção). Logo, para que algo aconteça há a necessidade da emergência.

Fato é que a polícia (das três esferas) sabia dos ataques. O problema é que no Brasil por causa dos vícios causados pelo "medo" da ditadura não é crime planejar (do mesmo jeito que câmera de segurança não gera prova), logo, somente pode ser combatido quando a merda está feita. Cabe a autoridade policial assistir a tudo ou fechar os olhos e fingir que não sabia. Mas nada foi dito a respeito das autoridades se prepararem pro pior.

Daí cabe o papel fundamental que a imprensa teve nisso tudo. Ao contrário de outras situações parecidas (em que bandidos faziam atentados) e Imprensa ao invés de abafar casos ou jogar panos quentes sobre as notícias fez um caminho inverso: noticiou tudo. Isso só fez a sensação de revolta da população de bem se acentuar e exigir das autoridades competentes fizessem algo.

Esse foi o pulo do gato.

Não foi por acaso que até a Rede Globo, que até então NUNCA altera sua grade de horários, fez cobertura completa dos eventos como se fosse final de copa do mundo (pelo menos aqui no Rio de Janeiro). Não foi. E foi dito diversas vezes em todas as coletivas.

Ficou nítido que havia um planejamento que culminava nos eventos desse final de semana. O poder público não podia agir sem a aprovação popular, e para isso a imprensa ajudou dentro de suas limitações. Óbvio, a imprensa não poderia ajudar sem um comprometimento ético por parte do poder público e hoje a população não é mais aquela de dez anos atrás que vê verdade só porque fez "plim plim" sem sequer questionar (graças a internet).

Isso motivou o povo a favor e não contra, como ocorrera antes. Por isso tudo até o momento dá certo. A polícia está motivada porque ao invés de serem os vilões dessa vez são os heróis e os bandidos estão desmotivados porque não apenas se tornaram vilões como a cena da vexação pública ocorrida na retomada da Vila Cruzeiro fez deles o que sempre se disse: bando de covardes.



O golpe moral sofrido pela bandidagem com a filmagem deles fugindo como baratas de inseticida é muito mais eficaz no combate ao crime do que um helicóptero militar metralhando todos. Por uma razão muito simples: viraram motivo de piada. Chacota. Se até então virar traficante em comunidades era virar herói ou ser o gostosão com colar de granadas, a partir desse vídeo era virar barata (ou outros termos pejorativos).

De qualquer jeito muitos fugiram, alguns pela porta da frente por serem bandidos não fichados (e sem flagrante não tem como prender), bastando para isso roupas limpas e um sabonete. Se voltarão para o tráfico, pouco pode-se ter certeza. Muitos desses vão aproveitar a oportunidade para desaparecer da vida do crime até porque esse tipo de criminoso está em decadência. Ganha a sociedade e a família do jovem, que terá finalmente paz e não um "descanse em paz" das valas comuns que é o destino de quem se profissionaliza no crime.

O mais importante é que pela primeira vez houve por parte do poder (público e privado) uma união jamais vista de forças visando o combate ao crime. Só falta agora, e espero isso, que não se limite apenas a áreas pobres.

Que venha a Retomada do Congresso.

E para falar sobre isso seria necessário artigos a parte. E esse aqui está longo.


Leia o Restante.

Liberdade de Imprensar


Cena: um jornal qualquer de qualquer posição política e cuja nomenclatura não acrescentaria nada à interpretação do texto. De móveis uma velha mesa de cedro com inúmeras marcas do tempo. Duas cadeiras uma defronte a outra. Uma para aquele que manda, outra para aquele que obedece. O cheiro da fumaça de cigarro é forte, apesar de não haver nenhum fumante na sala.

Entra o primeiro personagem. Um homem gordo e vestindo calça marrom presa por suspensórios que larga um paletó preto sobre a cadeira de quem obedece. Ele senta na cadeira de quem manda e apoia os pés sobre a mesa. Pega um charuto em uma das gavetas da mesa e começa a fumá-lo. A luz do palco diminui enquanto escutam-se sons de prensas trabalhando.

Entra o segundo personagem. Veste uma camisa surrada e marcada no suvaco por suor. Ele tem os cabelos embaraçados como se estivesse coçando-os por horas. Usa um óculos de descanso e carrega uma pequena pasta preta. Caminha trôpego até a cadeira de quem obedece, mas antes de sentar-se a luz se acende.
- Boa tarde, seu Almeida. - Diz o segundo personagem.
- Ia amassar meu paletó, energúmeno! - Responde o Sr. Almeida, dando uma longa tragada com seu charuto e jogando a fumaça no ar, mas bem próximo do segundo personagem. - O que deseja Moacir?
- Vim conversar com o senhor... É sobre a matéria que o Jonas está fazendo para...
- De novo esse assunto? - Interrompe brusco. Uma luz se acende atrás de uma cortina, iluminando um vulto que parece observar a cena, um terceiro personagem.
- Mas é uma matéria muito boa o senhor...
- Moacir, meu caro Moacir... O senhor está em nossa firma há quantos anos?
- Oito anos, Almeida.
- Oito anos, nossa firma pertence a um dos maiores conglomerados de comunicação do Brasil! Quiçá da América Latina! Moacir! MOACIR!

Silêncio no palco. A iluminação fica apenas no vulto. Efeitos especiais mostram dois pontos vermelhos iluminados onde deveriam ser os olhos do vulto. Um leve cheiro de enxofre sai do palco para a platéia.
- E nesses cem anos sabe quem lhe pagou seu salário? - Continua Almeida, com a luz aos poucos voltando para todo o cenário.
- O senhor?
- NÃO MOACIR. - Berra Almeida, com uma carga de ironia na voz que parecem cativar o público, enquanto força um choro. - Vocês jornalistas não entendem...
- Mas aprendi na faculdade...
- Faculdade é teoria, você tem oito anos aqui, deveria saber disso Moacir! Oito anos e não aprendeu vida real?
- Mas...
- São nossos anunciantes! Eles BANCAM meu emprego, o seu e o do Jonas, sem eles a gente vai ter que fazer o que? Vender jornal?
- Mas eles usam carne humana nas lingüiças... Mas...
- Deixa de romantismo, Moacir! Vai, sem "mas" ou "marromenos", me passa a papelada... Passa.

Moacir pega a pasta preta e coloca sobre a mesa. Novamente a luz se apaga e ficam apenas dois spots luminosos. Um na pasta e outro no vulto, cujos olhos vermelhos brilham ainda mais. Música de tom fúnebre começa a tocar.
- É isso tudo? - Pergunta Almeida, enquanto pega um penico embaixo de sua mesa.
- Tem o que está nos computadores do Jonas.
- Apague tudo.
- Mas.
- Olhe isso aqui.

Almeida pega uma garrafa de bebida do bolso e mistura com o conteúdo da pasta, coloca tudo junto no penico. E depois ele joga seu charuto na papelada, que imediatamente queima. Luzes se apagam, apenas fica a iluminação das chamas consumindo a notícia.
- Mas isso é censura. - Reclama Moacir.
- Não é, é apenas um favor. Ao meu e ao seu salário e ao de todos nós.
- Mas.
- Moacir, para de lamento e passa essa pauta para o Jonas.
- Qual?
- Falar sobre as qualidades da lingüiça de nosso anunciante! Vai que é uma enorme campanha! VAI!

Fecha a luz. Encerra-se a apresentação com a luz focada no vulto e uma gargalhada cruel ecoa pelo palco que só é interrompida quando o cai o pano.
- Eu amo liberdade de imprensar. - Diz uma terceira voz, cadavérica.

O público, atônito, não aplaude.
Leia o Restante.

Apenas um cafézinho.

Olhou para o copo de café sobre a mesa.

Não conseguia tocá-lo. Seu corpo implorava por aquelas gotas de energia e em algum lugar tenebroso em sua mente o café parecia transmutar-se em uma lata de espinafre e a voz de Olívia Palito ecoava em sua mente pedindo socorro.

Não queria tomar o café. Não era certo em sua mente que toda sua produtividade naquele dia oneroso de trabalho estive ligada intimamente àquele coquetel de cafeína proveniente da sempre amiga cafeteira automática. Aliás, olhava para a máquina de café colocada estrategicamente a dez passos de sua mesa e se indagava quando ela chegara.

Naqueles tempos árduos a máquina de café tinha uma participação em sua vida maior que sua própria cama. Conseguia perder a conta de quantos copos tomara, mas sabia exatamente quantas horas dormira. Uma proporção inversa de sono e litros. Tão pouco dormia que as mãos de quatro dedos do Popeye conseguiriam contar em uma apenas. E sobrariam dedos.

Popeye. Café. Espinafre. Forças.

Voltara a pensar no Popeye. Seu lábio sentia o cachimbo do velho marinheiro e o copo do café estava mais verde do que nunca. Tinha que se manter forte, resistir. Ele era mais forte que o café. Era.

Sempre mais forte.

Sempre.

Sempre bebendo café.

Café era vida e morte, severina e matutina. Mais que tudo, mais que si próprio. E menos. E...

Opa!

Que tolice invadira sua mente? Onde imaginara que cederia? É o décimo primeiro mandamento: café antes do cigarro. Se deixasse de tomar café, deixaria de fumar. "Já não trepo por causa do trabalho, se largo o vício para que vivo?", questiona-se em voz tão alta que alguém duas baias distante pergunta se é com ele. E é ignorado.

Ele reluta, um pouco de sobriedade sobrepõe-se ao vício. Ele fecha os olhos e respira fundo. Quando os abre o copo desaparecera. Mágica. E desespero. Apenas escuta o som de alguém sugando a última gota na baia ao lado.

"O que foi? Vi que não queria e eu não ia desperdiçar o último café... A máquina quebrou há pouco. Soube?"

O que aconteceu depois?


Leia o Restante.

Coisas que aprendi trabalhando em um Cyber Café

A imagem pode não ter muito a ver com o texto, mas representam bem  das expressões que mais faço aqui no trabalho.


Não importa em que ramo você trabalhe sempre irá aprender coisas novas, algumas das quais fará proveito, outras... Nem tanto. Se você trabalha dentro de algum local que mais parece uma masmorra e lida sempre cm as mesmas pessoas, suas chances de vivenciar uma experiência nova a cada dia é baixa depois que já está habituado ao local. Mas se você trabalha lidando com o público, seja ele qual for, suas chances de ver coisas absurdas é bem grande.

Ai vai uma pequena lista de coisas que aprendi (segundo os usuários):
  1. Muitas pessoas não sabem contar;
  2. Também não sabem ler;
  3. A maioria das pessoas são surdas;
  4. O único navegador que exite é o "Internet Explorer";
  5. Algumas pessoas nem sabem o que significa a palavra "navegador";
  6. Navegação por abas ainda é algo desconhecido, mesmo existindo desde 2002;
  7. "Internet Explorer" e "Windows Explorer" são a mesma coisa;
  8. Um monitor desligado significa que seu respectivo computador também está desligado;
  9. "Digitalizar" é uma palavra que a maioria das pessoas desconhece, inclusive as que buscam esses serviço;
  10. Um seleto grupo de pessoas não sabe acessar a página do google;
  11. Outro seleto grupo de pessoas desconhece o uso da ferramenta de busca existente na maioria dos navegadores hoje em dia;
  12. Para imprimir um arquivo basta querer, não há necessidade de se dar o comando e depois confirmá-lo;
  13. Da mesma forma que o computador tem que saber exatamente que você quer imprimir a página 32 daquilo documento com mais de 60 páginas;
  14. Educação e idade não tem nenhuma relação um com o outro;
  15. O fato de você saber utilizar bem alguns programas obrigatoriamente te faz ter de saber usar todos os outros programas existentes;
  16. Em caso de negação do item anterior você ouvirá a seguinte frase: "Mas você não sabe mexer em computador? Como não sabe mexer nisso?" Ou variantes da mesma;
  17. É possível mandar um e-mail para o Capitão Kirk;
  18. Algumas vezes terá de mandar um e-mail, também, para a Tenente Uhura;
  19. Mesmo falando em linguagem simples e direta as pessoas insistem em não entendê-lo;
  20. É quase obrigatório saber fluentemente alguma língua estrangeira, de preferência duas;
  21. O cliente nem sempre tem razão, apenas deixe-o pensar que tem;
  22. Não tente dar explicações ao telefone, além de perder tempo perderá a paciência;
  23. Muitas vezes é melhor perder um cliente do que ter de aturar um tipo chato;
  24. É uma pena não haver um filtro que bloqueie a execução de vídeos e áudios de funk;
  25. Não importa como o clima está do lado de fora, você está preso em sua masmorra e sempre vai se surpreender quando sair dela no fim do expediente;
  26. Se tem vontade, a oportunidade e os meios de se fazer algo, faça, não espere;
  27. As pessoas sempre têm urgências mais urgentes que as de outros;
  28. Muitas vezes você pode dar uma de psicólogo, prepare-se.
  29. A quantidade de casas de baixo meretrício (vulgos puteiros) existentes no Centro do Rio de Janeiro é absurdamente grande;
  30. Alguns deles se disfarçam de "Casas de Massagem" outros de "Whiskerias";
  31. Sabe aquele famoso edifício comercial que tem aqui no Centro do Rio de Janeiro? Ele não abriga só uma grande quantidade de lojas de produtos de informática;

Bom é apenas um pequeno resumo das coisas que vejo por aqui. Lembrando que essa lista foi feita de acordo com o modo de pensar e agir dos usuários que freqüentam o Cyber Café em que trabalho. Se acharam isso engraçado ou absurdo, acreditem, isso não é nem metade.

Até a próxima!
Leia o Restante.