Manifestações no Egito, Europa e Brasil: a Supremacia da Desinformação.


Em 05 de Maio de 1799, na França, a plebe revoltosa tomou ruas e queimou nobres em praça pública. Apesar dos questionamentos de historiadores sobre a nobreza das motivações na época, o povo até então submisso aos mandos e desmandos da nobreza (cujas regras eram moldadas por interesses pessoais, nem sempre “nobres”) levantou-se e marchou contra o antigo regime, iniciando uma das maiores mudanças sociais do que se entendia por raça humana até então. O problema foi a controvérsia, que explico mais abaixo.

Hoje, enquanto posto essas palavras, no Egito, massas de pessoas insatisfeitas tomam as ruas do país furiosas contra um regime ditatorial até então apoiado pelos EUA. Como forma de evitar que o mundo saiba do que acontece nas fronteiras, as redes de comunicação foram interrompidas (internet, telefonia e outras formas) para evitar que manifestantes se organizem e tentem derrubar o governo. E aí pousa a controvérsia mais uma vez.

Porque disse controvérsia?

Primeiro o lado ruim da coisa. Quando você aprende sobre revolução francesa, o primeiro contato que tem leva a crer que foi um movimento popular lícito. Quando se analisa, não é bem assim. Na França a classe burguesa (o que hoje em dia chamamos de patrões) estava insatisfeita com os espaços que possuíam na política. Não participavam das decisões da nobreza e nem da parte mais importante – o usufruto das riquezas e outras meiguices. Então, instigaram o povo contra as cabeças mandantes para que fizessem o trabalho sujo. Cortaram-se cabeças e colocaram as deles no lugar.

Agora o lado bom da coisa. Quando o povo se levanta, acontece uma necessidade de quem detém o poder de acalmar ânimos. Em Roma, cito por exemplo o “Panis Et Circenses”, que mantinha o povo entretido e (diferente do futebol atual) inimigos populares eram executados em praça pública em forma de espetáculo, o que ajudava a descarregar qualquer ímpeto revolucionário na população (sem contar o próprio modelo legal, que até hoje utilizamos). A solução dada na revolução francesa foi uma assembléia constituinte (constituição), resgatando justamente esses preceitos romanos.

Onde se encaixa o Egito? Ao que aparenta – dado que faltam informações devido a censura. – uma organização religiosa extremista chamada Irmandade Mulçumana está organizando os protestos porque o governo do Egito – ainda que ditatorial. – é muito light em relação a temas como liberdade civil e sua relação com Israel (e outras religiões, diga-se de passagem). Logo, manipulados por motivos nada justos o povo se levanta contra a ditadura, ao melhor estilo Maquiavel de estilos justificarem os fins. Ainda que no final substitua-se uma ditadura por outra ainda pior.

Mas o cerne da questão é relação cruel entre a mobilização popular e o modo como a mídia age. Mídia brasileira (moro aqui, afinal de contas). Por luta popular não ser um tema que interesse aos barões da comunicação o assunto é ignorado, quando não mais desmoralizado. Ano passado quando o povo grego manifestou-se contra as imposições do FMI (que não resolveram os problemas) a visão passada pelos jornais televisivos e impressos era de que bandos de baderneiros estavam destruindo a cidade por motivos fúteis.

Por sinal, esse é sempre o posicionamento de parte significativa da imprensa brasileira, em que movimentação popular só é boa quando é pra derrubar políticos que eles querem fora do baralho (como manipularam os Caras Pintadas, para derrubar o Collor, mas ignoraram os movimentos pró-liberdade civil do Diretas Já). Vivemos em grande parte como participantes de uma novela das 8 que não acaba e sem final feliz.

Fora desse modelo cachorrinho adestrado, qualquer esboço local de reação quando não é errada é amoral, ilegal e prejudica outras pessoas. Se nossa nação fosse formada por pessoas que questionam, afrontam ordenamentos injustificados, exigem punições exemplares a transgressores e cobram aqueles que devem punir, definitivamente isso não seria um problema. O que não conseguem impedir, denigrem ou distorcem. Exemplo é a Passeata Gay já perdeu seu viés político/social e hoje em dia é apresentada pela mídia como mais um evento turístico de algumas capitais. E a luta? Essa ficou no passado... E bem enterrada por anunciantes.

Apesar dos avanços (causados sobretudo pela máscara do anonimato da internet, que permite a muitos ter coragem para falar o que pensa – não necessariamente que seja algo certo ou que preste), ainda somos uma nação de cordeiros, com nossa maioria seguindo opiniões de jornalistas formadores de opinião que não emitem opinião (na verdade seguem pautas) e conseqüentemente elegendo (ainda, mas pelo menos isso tem diminuído) os mesmos canalhas de antigamente. Talvez mude, talvez não mude, mas até lá continuaremos isolados em nossa zona de conforto.

E sem precisar que ditadores fechem nossa internet: nossa mídia faz isso sem pestanejar. A censura sem face do capital. Pior até que a do Egito, que pelo menos tem um rosto.

Só não admitimos.

Até quando?

3 comentários:

  1. A questão do Oriente Médio é problemática. Lá é uma região em que apenas monarquias seculares e governos de longa duração parecem funcionar no controle dos fanáticos. É assim desde os primórdios do Islamismo.

    Infelizmente, ver um levante popular como os que acontecem na Europa, nos EUA (questões raciais eminentemente) e em outro países é quase impossível porque o brasileiro é treinado desde criança para ser escravo. Um mal implantado pela ditadura e transformado em "estado da arte" pela classe política nacional.

    Afinal de contas, é muito mais fácil guiar um rebanho de cordeiros do que de touros furiosos.

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  2. Draguz, como disse lá no Visão, venho para me despedir, não das pessoas e nem da leitura. Despeço-me do debate polêmico e dos diários que escrevi. Três anos de blog pessoal é muito tempo. Não se pode repetir as mesmas coisas sempre. Encerrei os diários e guardo-os apenas como recordação de um tempo bom.

    Estou realmente fazendo uma grande pausa da caixa de comentários dos blogs. Não me despeço da leitura, pois seria imposssível.

    No mais continuo por aí. Quando voltar e se voltar não será mais para blogs com nome diário(ou será?)Ainda não sei. O futuro a deus pertence ou pertence aos deuses.

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  3. Meu Deus do Céu!!!!!!!!

    Relendo meu próprio comentário vejo o quanto mudo de idéia. Este comentário foi feito em um dia que eu estava com um baita baixo astral. Necessariamente eu preciso ficar longe do teclado em dias assim.:(

    Dragus e Arthurius, perdoem essa bipolar aqui.:)

    E para comentar o texto. Ainda bem que o homem desistiu. O povo de lá é fera. Mas, não se deve subestimar um povo aparentemente tranquilo como os brasileiros. Pois gigante quando acorda faz estrago grande. E o Brasil é apenas um gigante adormecido.

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