Assédio Moral no Serviço Público (UFRJ)



O mundo do serviço público transformou-se nos últimos anos em uma utopia trabalhista.

Se antes ser um servidor público era sinônimo de "vagabundear-se" ou se transformar em "mamador", hoje torna-se destino certo de vários profissionais dentre alguns grupos posso destacar:
a) Jovens que buscam muitas vezes um lugar onde começar sua vida profissional e não conseguem oportunidades porque estão fora da zona de conforto do Qi (quem indica);
b) Pessoas mais experientes, ansiosas por saírem do modelo cruel de gestão das empresas de hoje em dia e do fantasma do desemprego, ou que por causa da idade se tornaram "pesos mortos" e não conseguem realocação no mercado de trabalho;
c) Aqueles que vivem do passado e ainda acreditam que serviço público continua a mesma farra e se comportam como um câncer nas repartições;

Salvo os terceiros, que serão mal quistos em qualquer lugar (e terão comportamento execrível inclusive no mercado privado), os grupos A e B nutrem sempre esperanças e esperam encontrar um mundo perfeito para suas capacidades no serviço público.

Não é bem assim.

Antes de 1988 não existia concurso público. As pessoas ingressavam no serviço através dos chamados "conchavos" ou porque tinham um forte Qi. Muitos sequer sabiam ler e escrever, sendo utilizados em serviços braçais e sempre associados a "vagabundagem" ou fazendo as vezes de empregados domésticos daqueles que os convidavam.. 

O comando das instituições era feito pela "nobreza" de cada. Na UFRJ, onde trabalho, existia uma enorme cratera de saber (e vinda desde a fundação da instituição) entre professores e funcionários. Cientes de sua superioridade intelectual os então mandatários da UFRJ transformaram-na em uma superioridade de fato, tornando-se "donos" da instituição. Por padrão o funcionário era tido como o "incapaz", o "burro" e por isso sendo tratado como tal e resignando-se devido a própria pressão do meio. Muitos sofriam as consequências físicas disso sofrendo de males que hoje em dia são associados ao assédio moral.

Com a promulgação da constituição de 1988 esses funcionários foram absorvidos pela administração pública e uma nova leva de funcionários emergiu. A obrigatoriedade de realização de concursos públicos para preenchimento de vagas trouxe um novo tipo de candidato. Até mesmo as nomenclaturas dos cargos sofrem alteração, reflexo dessa mudança.

Eram pessoas mais capacitadas, que possuíam um nível de escolaridade mínimo (a grande maioria estrapolando-o). Essa diferença gerou um conflito inicial. Os funcionários antigos haviam absorvido de seus superiores o vício da posse, considerando donos de seus lugares. Não aceitavam que pessoas desconhecidas ocupassem cargos que antes eram ocupados por seus "amigos". Até mesmo mobiliário de uso comum possuía um "dono".

Além disso haviam adquirido o vício do destrato.Repassam para os novos modo de interagir de seus superiores. Não aceitavam de forma alguma que uma pessoa "de fora" soubesse mais do que eles que "construíram a instituição", quando, pelo contrário, deveriam somar suas experiências para fortalecer o trabalho.

Com o passar dos anos esse clima de inimizade diminuiu. As leis que estimularam o ensino com o condicionamento de ganho salarial atrelado ao engrandecimento profissional e educacional fez com que o abismo de conhecimento entre funcionários diminuísse, ficando algumas vezes restrito ao plano de carreira e ao cargo concursado. Hoje em dia o convívio entre servidores das áreas administrativas, pelo menos na UFRJ, é predominantemente saudável. 

Entretanto, na UFRJ, o abismo entre servidores professores e servidores administrativos não diminuiu. Se antes os professores se valiam de seus canudos para literalmente humilharem os funcionários, agora justificam essa posição no estatuto da universidade. Para uma maioria (ou uma minoria que detém o controle da instituição a base do grito) a coisa não mudara. Era um comportamento social.

Assim que um servidor administrativo novo chega a instituição percebe que existe uma diferença gritante no tratamento. Enquanto percebe que está cercado de regras sempre inflexíveis vê que para os do outro lado do abismo as regras mudam com o sabor dos ventos (ou gritos), apesar de serem todos servidores. 

Choca-se inicialmente com o sistema vigente, tenta algumas vezes modificá-lo, mas não consegue. Com o passar do tempo ou muda de setor ou desiste de nadar contra a correnteza e se apaga. Se torna uma pessoa assustada, que não participa nem de comemorações, evita se misturar. Os mais capacitados desistem e partem para outros concursos. 

Os mais fracos aceitam e muitas vezes para evitar novas agressões fazem o que seus superiores mandam (e essas ordens sempre são verbais). Tornam-se propensos a corrupção (seja para apressar as coisas ou para tirar algum proveito já que nao nutrem mais apreço pela instituição que os castiga), tratam mal o usuário e companheiros ou cometem outros erros.

Nesses dois anos de UFRJ testemunhei e ouvi relatos de terrível assédio moral. Colegas eram agredidos verbalmente (por sorte não escutei relatos de violência física, mas considero a violência mental ainda pior) e eu mesmo sofri com essas agressões. Tive minha capacidade profissional não apenas questionada, mas jogada no lixo em determinada oportunidade. Senti na pele a dor dos relatos, mas consegui com muita sorte me reerguer, fugir de algum modo.

Por isso, quando fizer concurso, além de todo o lado bom que existe, sempre existe algo obscuro. Não seja pego de surpresa e, principalmente, não se deixe levar pelo assédio moral.

Sempre existe a opção de mudar de setor, ou mesmo projetos em algumas repartições que visam auxiliar o funcionário vítima (e o algoz) a superar esse momento. A divisão de saúde da UFRJ, inclusive, tem projetos nessa área. 

O que não se pode deixar acontecer é eternizar o erro. 

E onde você trabalha, como é?

4 comentários:

  1. Nada pior do que o assédio moral. As vezes é melhor "sair no braço" e apanhar do que aguentar calado esse tipo de coisa. O assediador leva enorme vantagem sobre o assediado e sabe que sua posição de superior hierárquico lhe confere um "escudo". É importante denunciar sempre e fazer a instituição punir quem é responsável pelo assédio. Ainda mais no serviço público onde você não pode sofrer o constrangimento de uma demissão sem justa causa.

    ResponderExcluir
  2. Conheça e faça parte do blog “Assediados”.
    www.assediados.com
    Um espaço onde vítimas de assédio ou dano moral podem relatar suas histórias, compartilhar experiências, e buscar caminhos para tornar o ambiente de trabalho um espaço seguro, onde seres humanos sejam tratados com o respeito e a dignidade que merecem. Um espaço onde você encontrará informações atualizadas sobre Assédio Moral no trabalho.
    "Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre"

    ResponderExcluir
  3. Por aqui onde os que administram a Escola são eleitos pelos próprios professores é parada dura.
    Na maioria das escolas quem ganha a eleição passa o ano inteiro massacrando os que perderam. Os que não aguentam o "tranco" mudam de Escola. E é um salve-se quem puder. Puxar o tapete de alguém também é muito comum.
    Mas quando a coisa fica insuportável é bom trocar de ambiente.

    Muito me alegrar teu retorno as pastagens e nem tanto por comentar porque ando mais "leda" e mais porque gosto de saber tua opinião sobre o que rola por aí.

    Aproveitando quero dizer que acho que o Google + é bem legal. Veio para substituir o orkut e me parece bem mais prático do que o facebook.

    Estou no celular e se der erro é por não dominar o teclado ainda.
    Boa semana!

    ResponderExcluir
  4. Apenas uma ressalva: Ingressei no serviço público federal em 1984 e anterior ao meu concurso outros concursos eram realizados pelo DASP.

    ResponderExcluir

Cuidado com sua postura ao comentar:
A responsabilidade pelas opiniões expostas nessa área é de de seus respectivos comentaristas, não necessariamente expressando a opinião da equipe do Pensamentos Equivocados.