Vampiro

 
 
O Rio nunca fui uma cidade segura, ao menos não nos últimos vinte anos. Quando era criança eu brincava na rua livremente, meus pais me levavam para passear sem se preocupar com a hora de voltar, ou se seríamos assaltados na próxima esquina. Meu filho já não teve a mesma sorte, sua infância foi mais reclusa, as ruas já não eram tão seguras quanto já foram, foi por isso que me tornei um policial.

Esse relato começa quando assumi um plantão noturno, seria mais um como muitos, algumas ocorrências pequenas e corriqueiras, mas tudo mudou quando recebemos um chamado no meio da madrugada, dois moradores de rua encontrados mortos embaixo de um viaduto.

Era início do inverno, um inverno mais rigoroso que o normal na cidade, estava bem frio. Enquanto ia até o local onde encontraram os cadáveres ia pensando nas possibilidades, hipotermia era uma delas, afinal estava muito frio, não era comum mortes por hipotermia, ainda mais no Rio de Janeiro, mas não podíamos deixar nada de lado. Tão logo a viatura parou e vi o local percebi que aquele não seria um caso como outros do tipo.

A mulher chorava, soluçava, estava visivelmente bêbada, ou drogada, vai saber. Um colega estava próximo, tomava o depoimento dela. O lugar fedia, era bagunçado, típica moradia de mendigos. Em meio aos berros da mulher eu fui ver os cadáveres, assim que os vi tirei da cabeça a idéia da hipotermia, nenhuma morte por baixa temperatura deixaria os cadáveres daquela forma, estavam secos, como múmias, nunca tinha visto algo parecido.

Eu mesmo fui perguntar a mulher o que havia acontecido, mas o que ela disse não acrescentou nada de relevante, segundo o depoimento ela havia saído pra tentar conseguir algum dinheiro, no caminho conseguiu alguma bebida, cigarro, mas que demorou bastante, quando voltou encontrou os colegas daquela forma. Uma viatura que estava de patrulha estranhou os berros da mulher e foi verificar, foi ai que fomos avisados. O pessoal responsável empacotou os corpos e os levou para necropsia, instrui um colega a levar a mulher ao DP mais próximo e oferecer alguma ajuda, isso poderia fazê-la revelar, enquanto eu acompanharia a equipe de legistas, o restante deveria patrulhar intensamente a área e interrogar qualquer um que visse.

No caminho do IML eu me questionava o que poderia ter acontecido, mal prestava atenção no que havia a minha volta e quase esqueci de fazer o sinal da cruz quando passamos em frente a uma igreja, uma das poucas coisas que consegui notar. Assim que chegamos fomos a sala de necropsia, o lugar cheirava estranho, já havia estado ali algumas vezes, mas nunca me acostumaria aquele cheiro. Assim que os corpos foram postos na mesa pude notar algo de estranho neles, mais do que o fato de estarem secos. Como o lugar era devidamente bem iluminado pude notar diversos detalhes que antes seriam impossíveis, inclusive o fato de haver duas perfurações no pesco;co, bem na jugular, ambos apresentavam os mesmo furos, com o mesmo diâmetro e distância entre um e outro. Mas o mais estranho de tudo veio depois de algum tempo e análise por parte dos legistas, não havia o menor sinal de sangue nos corpos.

Após fazer algumas anotações, recolher papelada e fotos voltei para a DP, já havia passado da hora de terminar meu plantão, no entanto iria, pelo menos finalizar o relatório. Mesmo tendo de dividir a sala com o outro detetive que assumiu seu turno, terminei meu relatório com certa rapidez e parti. Estava cansado, esgotado, aquela noite tinha sido realmente agitada, mais do que poderia, antes de ir para casa, fui a minha igreja, rezei brevemente e conversei com o padre pouco antes de ir, ele era uma pessoa gentil e sempre tinha uma palavra certa para dizer.

Ao chegar em casa cumprimentei minha esposa, meu filho já tinha ido para a escola, apenas tive tempo de comer alguma coisa, tomar um banho e cair na cama. Estava exausto, mais do que podia imaginar, dormi profundamente por horas. Mesmo enquanto dormia só podia ver as imagens dos cadáveres em minha mente. Quando acordei era bem tarde, mas consegui ficar um pouco com meu filho e minha esposa, jantar com eles me fez bem.

No dia seguinte me despedido de minha mulher, levei meu filho para a escola, fui a igreja pedir a benção do padre e fui para o DP, a imagem daqueles cadáveres ainda pipocavam na minha cabeça. Assim que cheguei o outro investigador ainda estava na sala e me jogou um jornal, na verdade um daqueles jornalecos baratos que custam poucos centavos e parecem ter sido escritos por pré adolescentes, mas que vendem como água. Neles estava estampado uma matéria falando de três assassinatos com características semelhantes ao que tinha investigado. O suposto repórter afirmava que aquilo teria sido obra de um vampiro, para piorar, todo o departamento já chamava o caso de “assassinatos do vampiro”.

Os dias se passaram e novos casos com as mesmas características só se multiplicavam, já passavam de sessenta, só a minha delegacia estava responsável por pelo menos mais de vinte. Cada vez mais os boatos do “vampiro” se espalhava, e mais aquilo me irritava, principalmente por ver policias repetindo essa lorota. Nas ruas não se falava de outra coisa, mas isso era de se esperar, o povo repetia qualquer bobagem sensacionalista, até mesmo meu filho me perguntou sobre o “vampiro”, certa vez.

Já havia se passado mais de um mês e os casos do “vampiro” só aumentavam, pessoas que antes tratavam o caso em forma de chacota agora estavam assustadas, o policiamento nos locais onde foram encontradas as vítimas fora ligeiramente aumentado, mas nada exatamente significativo. O mais estranho é que além das vítimas sempre estarem sem uma gota de sangue no corpo, todas eram moradores de rua, isso era o que mais me intrigava e demonstrava que não era obra de nenhum “vampiro”, a coisa estava mais para um extermínio.

Em meio a tantos casos repetidos a coisa repentinamente pareceu mudar, alguns cadáveres foram encontrados mortos também com perfurações na jugular, mas estes não estavam ressecados e continham sangue em seus corpos, embora em quantidades mínimas, porém os corpos secos e sem sangue ainda apareciam. O que isso significaria? Outro assassino? Outro vampiro? Deus, estou enlouquecendo, já estou até mesmo citando o suposto vampiro, como se tal criatura fosse real.

Ir as ruas ajudar na patrulha, além da investigação direta, não trouxe mais luz ao caso, pelo contrário, só trouxe mais dúvidas. Cheguei a prender pessoalmente alguns suspeitos, mas nunca encontrei nenhuma prova contundente de um possível assassino, sempre era algum outro mendigo bêbado ou drogado, ou algum traficante que estava tentando vender sua “mercadoria’ nas ruas.

Todos os dias antes de voltar para casa ou antes de ir ao trabalho ia a igreja, rezava, tentava buscar uma resposta, mas nada, estava questionando minha própria sanidade, começava a admitir que poderia ser mesmo obra de algum vampiro. O padre sempre conversava comigo, me aconselhava, “guie-se em Deus”, dizia sempre ele, mas Deus até agora não havia sequer me mostrado um caminho a seguir.

Dias depois, enquanto patrulhava jurei ouvir um grito, o soldado que dirigia o carro disse não ter ouvido nada, mas eu insisti, alguns metros a frente vimos algo que deixou o policial chocado, duas pessoas, uma deitada no chão se debatia, outra debruçada sobre ela, segurando-a com força. Imediatamente desci da viatura e saquei o revólver, o soldado que me acompanhava ficou estático dentro do carro, boquiaberto. Antes que pudesse dar voz de prisão a pessoa que estava debruçada sobre a suposta vítima me notou e saiu em disparada, minha única reação foi correr atrás dela, mas o desgraçado era rápido e ágil demais, não vendo como conseguiria alcançá-lo minha única reação foi tentar Pará-lo, mas os três disparos que fiz, foram em vão.

Assim que voltei a cena do crime vi o soldado de pé próximo a vítima, era um homem, outro mendigo, agonizava, seus olhos estavam estáticos, o pescoço perfurado, o sangue jorrava, não havia muito o que fazer. Chamamos os legistas e pedi reforços para patrulharem o perímetro, quem quer que fosse ainda poderia estar perto, mas as buscas foram infrutíferas, nada foi encontrado, nenhuma pista sequer. Na cena do crime também nada foi revelado, nem uma digital sequer, como das outras vezes.

Tão logo meu turno terminou fui a igreja me confessar, havia deixado um homem morrer para perseguir um pretenso assassino, no fim das contas falhei em prender ou mesmo identificar o suspeito, isso custou a vida de uma pessoa. O padre como sempre apaziguador me disse: “Meu filho, você cumpriu com seu dever, tomou a decisão mais rápida e sensata que pode, seu companheiro poderia ter lhe ajudado, aposto como só perseguiu o criminoso por ter pensado nisso. Não se penalize, aquela pobre alma agora está no reino de Deus, está em paz, não mais sofre as mazelas que nós temos de enfrentar todos os dias. Mas se isso te faz melhor, reze dois ‘Pai Nosso’ e uma ‘Ave Maria’, depois vá para casa e descanse”.

Fui para casa, dormi, mas não descansei. Por dias foi assim, não conseguia parar de pensar em como deixei aquele safado escapar, rondava lugares próximos aquele, porém nada encontrava. Os assassinatos pararam, já estava na terceira semana desde que a última vítima havia sido encontrada, está se encaixava no segundo perfil, morta por perda de sangue, o primeiro, dos cadáveres secos, era classificado como morte por motivo desconhecido.

Da mesma forma como os boatos se espalham rápido eles somem rápido, agora quase não se falava mais do caso “vampiro”, havia virado mera piada dentro do departamento. Estávamos decididos a arquivar o caso, nada encontramos, sabíamos que havia um assassino, mas sem um suspeito, sem provas, não havia como concluir o caso.

Estava tão cansado e esgotado que o delegado resolveu me dar uns dias de folga, devo admitir que veio bem a calhar, eu precisava disso. No caminho de casa olhava as ruas, apreciam mais desertas do que de costume a noite, talvez toda essa bobagem sobre um vampiro tenha afastado os mendigos das ruas, ou ao menos os levado para lugares mais escondidos e seguros, para eles. Quando faltava pouco para chegar em casa fui obrigado a parar o carro, vi aquela cena de semana atrás se repetindo, um homem debruçado sobre um pretensa vítima, esta se debatendo e gritando, desta vez seria diferente. Fiz o que vi em vários filmes  quando era mais jovem, atirei primeiro para perguntar depois, mesmo cansado minha pontaria ainda estava boa, acertei o infeliz, mas não caiu, pelo contrário, se levantou.

Após tombar, rapidamente se levantou e saiu em disparada, nunca vi aquilo antes, nem mesmo alguns drogados quando estavam sobre total efeito do entorpecente mostravam tamanha resistência e recuperação, seria mesmo aquilo um vampiro? Sendo ou não, desta vez não tentei correr atrás dele, ao invés disso continuei a atirar assim que tentou fugir, meu quarto disparo por fim o derrubou, só então corri até ele. Rapidamente pude ver que três tiram haviam-no atingido, dois no tórax e um na perna, o que o havia derrubado.

O som dos tiros chamou a atenção de uma patrulha que estava próxima, demorou um pouco para convencê-los e mostrar que eu era um policial, mas o criminoso já havia sido devidamente dominado por mim.

Já na delegacia todos estavam espantados, o “vampiro” havia sido finalmente capturado, no entanto não se tratava de nenhum vampiro, era na verdade um funcionário de um laboratório que fazia experiência e testes com sangue e estava sem amostras sangüíneas. Ele usava uma espécie de instrumento com duas agulhas grossas que perfuravam e bombeavam o sangue da vítima para alguns cilindros que carregava junto ao corpo. Ele não trabalhava só, havia mais dois e não foi difícil prendê-los, muito menos fazê-lo confessar a existência dos outros.

Por fim, pude voltar pra casa aliviado, concluímos o caso e prendemos os culpados, não todos, os chefões do tal laboratório, blindados por seus advogados alegaram nada saber o caso e nada sofreram. Ainda assim me senti feliz por ter concluído o caso com êxito, os culpados estavam presos e pude comprovar que nunca houve um vampiro.

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