Forjando Um Guerreiro: Aço e Fornalha - Sétima Parte

Libertas Quae Sera Tamen

A tensão era grande entre o grupo, enquanto caminhavam o temor apenas crescia entre eles. Até aquele dia não tinham passado por uma missão tão perigosa quanto aquele, mesmo tendo seu mestre os supervisionando. A cada passo que davam a escuridão da masmorra parecia se adensar cada vez mais, o ar era cada vez mais pesado e quente, o que só os deixava mais apreensivos.

Um dos novatos ao chegar à frente da porta de ferro titubeou um pouco, mas logo, sob pressão do mestre começou a entoar as palavras para desfazer o encanto que trancava a mesma. Só depois de repetir pela segunda vez a porta se abriu.

– Você gagueja demais. – Repreendeu o mestre furioso.

Mais uma vez a marcha seguiu lenta e temerosa, nem mesmo os protestos do mestre fizeram os jovens magos acelerarem o passo. O corredor agora era ainda mais estreito que o anterior, o espaço era suficiente para que apenas um deles passasse por vez, como punição por ter demorado a abrir a porta o jovem mago teve de ir à frente do grupo. Seu cajado emanava uma luz fraca que por vezes ficava mais fraca, ele não conseguia manter a concentração naquela situação.

Alguns minutos depois pararam em frente a outra porta de ferro, desta vez outro novato foi incumbido de abrir a passagem, mas este se mostrou tão ou mais nervoso que o outro e também demorou a abrir a porta, tendo que repetir o encanto algumas vezes. Agora eles se viram em uma espécie de ante sala, tinha formato oval e muito mais escura do que os corredores. Assim que todos estavam dentro da sala a porta foi fechada e todos entoaram juntos uma magia que acendeu um grande número de globos de cristal incrustados mas paredes, a luminosidade era tamanha que todos se sentiram incomodados e demoraram a se acostumar com ela.

Tão logo voltaram a enxergar melhor viram do outro lado da sala um grande portão duplo de ferro, nele havia vários selos mágicos diferentes, além de várias correntes de elos tão grossos quanto um braço humano e cadeados. Com a ajuda dos pupilos o mago foi retirando os selos, um por um, para só então abrir os cadeados e retirar as correntes.

– Sei que será difícil, mas honrem os mantos que trajam.

Os jovens magos se mostraram ainda mais nervosos quando as dobradiças começaram a ranger, lentamente os portões foram se abrindo e o local protegido por eles foi sendo inundado pela intensa luz, um deles soltou um guincho de pavor ao ver a sombria figura presa lá dentro. A cabeça baixa tinha o rosto oculto pelos longos e ensebados cabelos, as pernas estavam bem separadas e presas por correntes tão ou mais grossas do que as que protegiam os portões de entrada. Os braços presos ao teto também acorrentados da mesma forma, o mais separados possíveis um dos outro, no entanto as mãos estavam viradas para trás.

O mestre entrou sem titubear, olhando atentamente o homem preso de pé a frente dele, mas seus discípulos não o seguiram, o pavor era nítido em seus rostos. Mesmo decepcionado o mago compreendia o sentimento de seus aprendizes, talvez em seu lugar, faria o mesmo.

– Podem entrar, sejam bem vindos! Garanto que não lhes farei mal algum! – Disse gargalhando o homem que ainda mantinha a cabeça baixa e os olhos fechados.
– A luz o fere tanto assim, Ignus?

A simples menção do nome do guerreiro fez os jovens ficarem ainda mais apavorados, todos já haviam ouvido seu nome antes e sua fama era extensa. Histórias sobre sua ferocidade em batalhas eram espalhadas nas rodas de conversa de aspirantes a cavaleiros. O nome do Emissário do Deus da Guerra ainda causava temor em muitos, mesmo estando preso e subjugado, isso o agradava.

– Cada vez que o vejo me surpreendo, como um guerreiro poderoso como você pode ser preso com tanta facilidade, é algo que ainda não compreendo. – Disse o mago olhando atentamente para Ignus.
– Estou com fome. – Disse Ignus secamente.

Com um gesto o mago chamou um de seus pupilos que portava uma cesta, mas ele, relutante, recusou-se a entrar. Só depois ouvir a ordem dada pelo mestre de forma bem enfática, pela segunda vez, vagarosamente o jovem mago ousou entrar onde o temido guerreiro estava preso.

Com força o mago puxou a cabeça de Ignus para trás, revelando seu rosto sujo e tomado de suor. Agora exibia uma barba bem cheia e imunda. Com medo o rapaz pegou um pedaço de pão e aproximou do rosto do guerreiro, com um movimento brusco, como o de um animal faminto, Ignus abocanhou o alimento com uma única mordida, deliciando-se enquanto mastigava.

– É quase impossível acreditar que foram necessários dez magos e necromantes de alto nível para prendê-lo a estas correntes e anular seus poderes, além de outros três magos superiores para selar as portas a fim de bloquear seu acesso ao shii externo. – Disse o mago enquanto observava o guerreiro comer como mero mendigo esfomeado.
– Passe meses preso dentro deste lugar, mago, desafio-o a ficar melhor do que me encontro. – Disse Ignus voltando-se para o mago e finalmente abrindo um dos olhos.
Por um instante o mago temeu que o guerreiro fosse se soltar e o matasse, seu olhar era o mesmo de uma fera pronta para abater a presa.
– Quem diria que esses desenhos fariam tanto efeito, não? – Perguntou Ignus em tom irônico. – Sabia, jovem, que dentro desse círculo, seus poderes de nada servem.

O rapaz olhou para o chão e viu um grande circulo necromantico desenhado no chão, no teto outro desenho havia sido entalhado, com símbolos demoníacos semelhantes, mas parecia mais complexo que o de baixo. O pavor era nítido no olhar do jovem mago, tentou evocar seus poderes, mas sequer conseguiu sentir um resquício que fosse de sua força, ao contrário, sentiu-se mais fraco e tombou no chão.

– Esses círculos são feitos para evitar qualquer tipo de manifestação de magia, além de enfraquecer quem tente usá-la. – Alertou tardiamente o mestre enquanto erguia o pupilo.
– Para sua sorte, garoto, não tentou evocar uma magia mais forte. – Riu Ignus.

Um dos outros aprendizes teve que auxiliar o companheiro a ser retirado da prisão, o efeito na magia necromantica havia sido forte demais para ele, mal conseguia se sustentar.

– Logo você será julgado, não há esperança para você, por conta do que fez ao nosso Rei. – Disse o mago seriamente.
– Fracos e covardes são guiados sempre por seus iguais. – Disse Ignus com um meio sorriso sarcástico no rosto.

Revoltado com a declaração o mago socou-lhe a face o mais forte que pode, mas Ignus sequer sentiu o golpe.

– Ainda tem a língua bem afiada para quem logo morrerá, guerreiro. – Disse enquanto limpava a mão com que acertara Ignus.
– Torça para que esse dia demore muito a chegar, pois quando ele vier, sua morte também se dará.

Após golpear várias vezes o rosto de Ignus o mago se deu por satisfeito e deu as costas para ele, resmungando que deveriam reforçar a magia necromantica. Com o auxilio de seus pupilos após alguns minutos a porta foi novamente selada, a medida que se afastavam da prisão via o alivio crescente no rosto dos discípulos, até mesmo ele se sentia melhor longe daquele lugar.

Como mago não gostava da presença de forças necormanticas, mas era obrigado a admitir a eficácia do poder que havia sido posto naquele lugar. Ainda assim aquilo o perturbava, mais até do que a presença de Ignus. No entanto sentia que a influência da magia necormantica não estava mais agindo como deveria, o pensamento de que teria de mais uma vez lidar com um necromante o incomodava, muito.


Um destacamento especial de soldados e representantes legais aguardava na entrada da cidade principal do reino, ansiosamente a chegada da comitiva que traria o necromante, porém tal não foi sua decepção quando apenas uma carruagem parou logo a sua frente e viram seu aguardado visitante desembarcar dela.

Normalmente pessoas tão importantes como ele sempre eram acompanhados por grandes comitivas, com guardas pessoais e criados, mas este em especial considerava tudo isso desnecessário.

– É um imenso prazer tê-lo aqui, Sr. Teryon! – Cumprimentou-lhe um dos nobres locais.

O olha frio e a expressão calma do necromante perturbava a todos, sua aparência jovem contrastava totalmente com sua fama, e seu humor praticamente inabalável o tornava um ser inquietante. Alguns até diziam que o mesmo não possuía sentimento algum, nem bom nem ruim.

– Onde está Reiform? – Questionou Teryon olhando atentamente para os presentes.

O mago mestre se apresentou fazendo uma reverência a Teryon, mesmo não gostando de sua presença ali tinha que tolerá-lo, o necromante retribuiu o cumprimento de forma correta, o que para todos foi uma surpresa.

– Gostaria de algo antes de executar seu serviço, senhor? – Perguntou um dos nobres presentes a Teryon.
– Não há necessidade. – Disse dispensando-o com um simples gesto. – Vamos logo ao que tem de ser feito.

O mago disse que antes de irem teria de chamar alguns outros magos para abrirem os selos mágicos, porém novamente Teryon disse não haver necessidade. Julgou que apenas eles dois teriam plenas condições de anular as magias que selavam as portas até a prisão de Ignus.

– Devo lembrar-lhe que as barreiras foram feitas por magos muito experientes, além do mais...
– Sim, estou ciente disso. – Disse Teryon interrompendo Reiform bruscamente. – Mas a julgar pelo seu nível creio que nós dois somos plenamente capazes da liberar os selos.
– Mas a magia que está nas portas é arcana, não necromantica. – Alertou Reiform.
– Também sei disso, vamos.

A forma decidida como Teryon se portava espantava o mago, não confiava em necromantes, muito menos neste, mesmo Teryon sendo um servo de um deus. Se não fosse pela aliança feita com a ordem de Artan, a presença dele não seria necessária, pensava o mago. Mas mesmo seu rei alardeando não gostar da interferência alheia em seu reino, em momento algum este receava em pedir favores.


As primeiras portas foram facilmente abertas pelo mago, mas a media que avançavam sua preocupação aumentava, uma vez mais questionou a necessidade de ter pedido auxilio a alguns de seus companheiros, mais uma vez Teryon disse não haver necessidade para tal.

Ao chegarem à sala anterior a prisão o próprio Teryon usou seus poderes para acender as esferas luminosas, o que não surpreendeu totalmente Reiform, já que mesmo aquilo sendo magia arcana, ainda assim era magia de baixo nível, qualquer um com afinidade para magia conseguira fazer o mesmo. Olhando para a porta Teryon analisou cada lacre com atenção, eram encantos muito bem feitos e poderosos, reconheceu, o que deixou o mago muito satisfeito intimamente, mas sabia que tinha plena capacidade de abri-los.

– Havia necessidade de tantos lacres? – Questionou Teryon.
– Nosso “hóspede” não é alguém que se possa subestimar. – Respondeu Reiform com o olhar sério.
– Bom, vamos abrir logo isso.

Receoso o mago deu início ao ritual, Teryon acompanhou-o corretamente, mas Reiform continuava inseguro, não acreditava que apenas eles dois seriam capazes de romper os lacres. Sua perturbação fez com que ele perdesse concentração, em tempo notou sua distração, mas para sua surpresa Teryon demonstrava uma habilidade e poder muito acima do normal, ele sozinho já havia aberto três lacres.

Em pouco tempo os dois conseguiram abrir todos os lacres, Reiform estava visivelmente perplexo com o poder a habilidade do necromante, no entanto o que mais lhe surpreendia era o fato que desde o momento que viu Teryon, não ter sentido o menor traço de poder por parte dele, sequer conseguia ver algum tipo de aura, era como se ele nem ao menos estivesse lá.

Sem a menor preocupação Teryon empurrou as pesadas portas revelando o interior da prisão e seu cativo, intimamente ficou surpreso ao reconhecer Ignus, mas sua expressão era a mesma de antes, serena. Apenas um leve franzir de seu cenho transparecia seu sentimento de estranheza, nada mais.

Como se desperto de um transe Ignus lentamente foi erguendo a cabeça, a forte luminosidade que vinha do salão anterior impedia-o de reconhecer qualquer traço de quem quer que fosse, via apenas sua silhueta, quase sempre distorcida.

– Duas visitas em tão pouco tempo, estou ficando importante. – Zombou Ignus.
– Não dê ouvidos a isso. – Alertou Reiform referindo-se a Ignus.
– O poderoso Ignus preso, isso é algo que me surpreende. – Disse Teryon olhando diretamente para Ignus e sendo seguido pelo olhar do mesmo.
– Sua voz me é familiar...
– Há quanto tempo está aqui? – Questionou Teryon.
– Deixe de perder tempo com esse condenado, faça logo o que veio fazer. – Disse Reiform irritado ao ver que Teryon tentava interrogar Ignus.
– Sua descortesia não me agrada. – Retrucou Teryon seriamente olhando nos olhos do mago.

Vendo a dura expressão do necromante, Reiform deu um passo atrás e desviou o olhar dele, não se sentia confortável na presença de Teryon, muito menos com ele lhe encarando dessa forma. Voltando-se para Ignus, Teryon olhou atentamente para as grossas correntes, havia uma forte magia atuando nelas. Analisou também os desenhos entalhados no chão e no teto, todos os símbolos foram feitos da forma correta, mas sentia que a magia já não tinha o mesmo efeito de quando havia sido criada. No entanto, o efeito ainda era poderoso o suficiente para manter qualquer um sem conhecimento necromantico avançado preso.
 
– A magia foi aplicada antes de ele ser trazido até aqui, certo? – Questionou Teryon.
– Exato, somente as correntes foram colocadas na hora, mas já estavam previamente encantadas. – Respondeu Reiform. – Foram quase duas horas para prendê-lo, finalizar a magia e colocar as correntes. Um total de dez necromantes para fazer o serviço.
– Dez... – Repetiu Teryon para si mesmo de forma vaga. – Diga-me, Ignus, há quanto tempo está aqui? – Perguntou.novamente.
– Incontáveis são os dias de minha clausura neste lugar, semanas, provavelmente meses, realmente não sei dizer.

Após analisar tudo mais uma vez Teryon começou a se retirar do local, sem entender o que estava acontecendo Reiform começou a protestar duramente, mas o necromante calou-o explicando que mesmo tendo perdido parte da força original, a magia ali aplicada ainda era capaz de manter Ignus naquele local por bastante tempo. O mago mesmo insatisfeito fora obrigado a aceitar, pois não tinha conhecimento necromantico suficiente para avaliar a eficácia da magia, mas ainda assim preferia que ela tivesse sido reforçada.

Ambos selaram a porta novamente, deixando Ignus novamente solitário nas trevas. Durante a volta os dois permaneceram calados, o mago se sentia de certa forma contrariado por Teryon não ter feito aquilo que lhe fora designado, no entanto preferia nada comentar, ao menos não com o próprio. Ao chegarem à superfície se dirigiram até o salão real, onde Teryon reportou ao rei o que havia acontecido, a frustração e a irritação do governante eram nítidas, mas este tentava a todo o custo não deixar transparecer, afinal, Teryon estava ali como um convidado e também, na condição de necromante, era único capaz de dizer o que deveria ser feito.

Tão logo fora dispensado Teryon retornou imediatamente a sua carruagem, ordenando ao seu condutor que seguisse viagem imediatamente. Antes mesmo de entrar notou a presença de alguém dentro da carruagem, mas assim que notou de quem se tratava simplesmente entrou ordenando novamente ao condutor que partisse imediatamente.

– Não esperava revê-lo tão rápido, alteza. – Disse Teryon reverenciando sua inesperada companhia.
– Fizeste como te orientei?
– Não foi necessário, alteza. – Respondeu Teryon que permanecia de cabeça baixa.
– Relate-me o motivo de tua desobediência. – Seu tom de voz transparecia sua irritação.

A carruagem seguia rápido pela estrada, o que fazia qualquer pequena saliência parecer uma imensa cratera, os solavancos eram constantes. Depois de duas tentativas frustradas de relatar o que houve, Teryon ordenou ao condutor que fosse mais devagar, imediatamente a violência dos solavancos diminuiu drasticamente.

– A magia colocada lá, embora fraca, ainda é forte o suficiente para contar até mesmo alguém como ele. Porém, creio que Ignus já superou essa barreira. – Disse após sentir-se confortável.
– O que vos faz crer em tal possibilidade? – Questionou, mas agora se tom era o de curiosidade.
– Todas as aquelas barreiras servem para sugar, conter e desfazer qualquer tipo de emanação de poder, por menor que seja, no entanto, ele tem poder reunido demais para quem está sobre tantas proteções.

O sorriso de seu acompanhante o deixou satisfeito, afinal ele não era alguém que se contentava com pouco, muito menos confiava facilmente em alguém. Aquele sorriso era sinal de que acreditara nele.

– Prestaste-me grande favor, Teryon.
– Agradeço pela honra concedida e pela confiança em mim depositada, Rei Zarrantas.


Mais uma vez Ignus despertava, ficar de olhos abertos ou fechados parecia o mesmo. Há muito perdera a noção do tempo, não sabia nem há quantos dias permanecia ali como cativo, apenas sabia que estava ali por tempo demais. No entanto tal permanência lhe trouxe alguns benefícios, sua audição havia se tornado muito mais aguçada que antes, de tal modo que sabia precisar quando receberia visitas e quantos seriam. Como o ar ali dentro permanecia estático qualquer movimentação, até mesmo do lado de fora, permitia-o um melhor calculo da distância e do porte físico da pessoa.

Sua visão aparentemente também havia melhorado, pois em certos momentos, mesmo naquela densa escuridão, Ignus era capaz de enxergar algumas poucas coisas. Porém isso acabou por se tornar sua maior fragilidade, a luminosidade vinda do salão a sua frente era tão forte que feria seus olhos, causando uma imensa dor, mesmo ele estando com os olhos fechados. Nas raras vezes que conseguia abrir parcialmente os olhos apenas via vultos distorcidos, nada além disso.


Enquanto meditava mais uma vez sobre seu estado atual sentiu o ar se movimentando, junto com ele o som distante de uma porta se abrindo. Eram apenas quatro pessoas desta vez, todos andavam no mesmo ritmo, pareciam apressados, mas não eram soldados, seu caminhar era leve e inconstante algumas vezes. Pouco depois as portas de sua prisão se abriram, a luz vinda do outro salão ofuscou Ignus mais uma vez, mas já não era tão doloroso quanto das primeiras vezes.

Pelo som dos passos Ignus soube que apenas um entrara em sua cela, este portava uma tocha, presumiu ao sentir o calor um pouco mais intenso passar por ele, só não entendia o porquê da tocha em um ambiente tão iluminado como aquele, a não ser que fosse um novo tipo de tortura.

Logo a forte luminosidade foi enfraquecendo e as portas forma fechadas, deixando apenas a fraca luz da tocha dentro da cela, mas para Ignus era muito mais do que suficiente. Virando-se na direção da tocha e abrindo um pouco mais os olhos pode ver o mago parado olhando fixamente para ele.

– Não que me incomode de ter companhia, mas me diga, mago, o que faz aqui. – Questionou Ignus ironicamente.
– Vim lhe dar um último tratamento especial. – Respondeu Reiform.
– Dispenso, muito obrigado! – Riu Ignus.

– Logo você será executado e veremos se continuará tão debochado.

O repentino anúncio surpreendeu Ignus, bem sabia ele que se estava preso por tanto tempo em algum momento sofreria um punição definitiva, mesmo assim não esperava que fosse execução. Mais uma vez gargalhou sonoramente, o mago não estranhou a reação de Ignus, achava que a prisão o deixara louco.

– Já que serei morto em breve, pode me responder umas perguntas, mago?
– Creio que posso satisfazer sua curiosidade. – Concordou Reiform.
– Há quanto tempo estou preso aqui?
– Para lhe ser sincero, nem mesmo sei ao certo, mas creio que algo em torno de uns sete ou oito meses. – Respondeu sinceramente.
– Tempo demais para um prisioneiro condenado a execução, não acha?
– Não questiono as decisões de meu soberano.
– Tipos como você são da pior espécie, pior ainda que seu rei, são apenas meros capachos que obedecem cegamente tudo que lhes é ordenado sem ao menos ponderar seus atos.
– Ladra o quanto quiser, guerreiro, logo não passará de uma mera lembrança.

Por alguns minutos ambos permaneceram calados, Reiform parecia impaciente, mas Ignus permanecia sereno.

– Se já terminou, acho que posso começar...
– Uma última coisa. – Interrompu Ignus. – Essas correntes também foram preparadas magicamente para me prender aqui?
– Sim, por quê? – Questionou duvidoso.
– Não parece.

A duvida e a calma de Reiform deram lugar ao pavor ao ver o moribundo Ignus arrebentar as grossas correntes com os próprios braços, apenas puxando-as em sua direção. Sem muita dificuldade se livrou das correntes que prendiam suas pernas, o som do metal sendo partido ecoou várias vezes pela cela, mas Reiform estava chocado demais para ser afetado por isso. Aliviado por finalmente estar livre das correntes e das algemas Ignus movimentava bastante o corpo.

– Ficar naquela posição por tanto tempo é muito desconfortável.

Agora liberto Ignus movimentava os braços e as pernas, seus ossos estalavam sonoramente, felizmente a clausura prolongada não havia afetado-o tanto quanto imaginara. Seus pulsos exibiam a marca profunda das algemas, assim como seus tornozelos, isso o incomodava.

– Como você...? – Questionou-se Reiform. – Aquele maldito necromante, ele fez isso...
– Fala do necromante que veio contigo certa vez? Não, ele realmente reforçou a magia dos círculos, porém não necessitava de magia para arrebentar essas correntes. – Explicou Ignus.
– Isso é impossível...
– Agora que estou livre, eu lhe darei um tratamento especial.


Os sons que conseguiam escapar de dentro da sala eram muito abafados e pouco diziam do que poderia estar acontecendo, mas os companheiros de Reiform que o aguardavam não pareciam demonstrar muito interesse.

– Ele está demorando. – Disse um distraidamente.
– Deixa ele, pelo pouco que consigo ouvir, ele deve estar se divertindo bastante. – Respondeu o outro entre um bocejo.

Ambos eram magos experientes estavam ali apenas para auxiliar na abertura da cela, no entanto quanto mais seu companheiro demorava mais a impaciência aumentava. A execução seria em alguns minutos e não queriam ser repreendidos por atraso.

Pouco tempo depois, quando se deram conta, estava tudo silencioso novamente dentro da cela, mas a esperança de que o companheiro desse o sinal logo desapareceu quando os sons voltaram, decepcionados ambos sentaram e permaneceram quietos.

O barulho foi se intensificando cada vez mais, o que os deixou apreensivos, aquilo não era normal. Repentinamente os sons pararam novamente E no instante seguinte sem nenhum aviso as portas foram escancaradas violentamente, abrindo-se na direção oposta a que deveriam abrir.

Maior do que o susto de verem as portas serem abertas com tamanha violência foi verem o prisioneiro caminhando calmamente para fora de sua cela. Ignus estava de olhos ligeiramente abertos, usava uma das mãos para cobrir-lhe a face, mas ainda assim caminhava com segurança.

Um dos magos olhou para dentro da cela e viu o companheiro jogado ao chão, estava imóvel e coberto de sangue. Aquilo fez com que ele tivesse uma reação imediata, virando-se em direção a Ignus disparou um intenso raio de energia avermelhada, mas para sua perplexidade o guerreiro desviou do ataque com agilidade incrível para quem estava preso por tanto tempo, fazendo com que a magia se chocasse contra a parede e destruísse um pedaço da mesma.

Antes que pudesse reagir e atacar novamente Ignus já estava bem a sua frente, sem tempo de auxiliar o companheiro o outro mago apenas observou seu amigo ser arremessado contra ele. Com ambos no chão Ignus saltou a desferiu um poderoso soco que esmagou a caixa torácica do que estava por cima, matando-o instantaneamente. O que estava por baixo também teve alguns ossos partidos, mas continuava vivo, contudo a dor era tamanha que perdeu os sentidos.


Porta por porta Ignus foi avançando para fora de sua prisão, à medida que avançava a luminosidade natural ia se intensificando. Ao vencer a última barreira sua visão foi inundada pela luz do sol, mesmo ainda não estando ao ar livre a luz era muito forte para ele. Com os olhos semi-serrados não tardou muito a se adaptar.

Assim que julgou estar mais apto lentamente ele foi se aproximando da saída, instintivamente tentou sentir a presença de possíveis guardas, mas logo se lembrou que todo seu poder havia sido bloqueado pela magia necromantica. Para sua surpresa mesmo com isso em mente conseguiu sentir três fortes presenças se aproximando dali, sem muita opção Ignus se ocultou atrás da porta, olhando por entre as grades da mesma a movimentação externa. Mesmo sendo ofuscado pela forte luminosidade externa ele conseguiu ver os três que se aproximavam calmamente dali.

Em uma ação impensada Ignus encostou-se na parede esquerda, supondo que ali ficaria oculto quando a porta fosse aberta e temendo que os três estivessem se dirigindo a prisão. Seu palpite estava certo, não demorou e a porta foi aberta, porém de forma lenta demais e calmamente os três entraram, mas não tardou até que a incredulidade de Ignus desse lugar a certeza, tão logo reconheceu um deles.

– Rulgam? – Perguntou ainda duvidoso.
– Ignus?

A perplexidade era visível no rosto de Haldar tão logo viu o ex-discípulo em pé atrás da porta, Rulgam estava com os olhos arregalados e parecia não acreditar que seu companheiro que havia sido preso estava ali, de pé, livre, perante ele, Aldo que estava logo atrás também não conseguiu conter a própria surpresa.

– Você está... Péssimo – Gargalhou Rulgam assim que analisou melhor o estado de Ignus.
– O que fazem aqui? – Questionou Ignus que estava mais surpreso do que os próprios companheiros.
– Viemos resgatá-lo! – Respondeu Aldo.
– Mas pelo visto o senhor apressadinho nos poupou o trabalho. – Disse Haldar contente em ver que Ignus estava bem.
– Podemos deixar as frivolidades para depois, é melhor irmos embora logo. – Alertou Aldo.

Sem questionar os quatro saíram e correram em direção aos estábulos.

– Onde estão os guardas? – Questionou Ignus ao notar que estava sendo simples demais fugir.
– Preparando sua execução. – Respondeu Haldar mantendo o ritmo da corrida. – O rei convocou todos para os preparativos.

Ao chegarem lá providenciaram roupas novas e limpas a Ignus, não que isso disfarçasse seu cheiro de prisioneiro, mas ao menos sua aparência seria disfarçada. Antes de trocar de roupa Ignus fez questão de ao menos lavar-se, mesmo sobre protestos dos companheiros de que isso os retardaria. Tão logo ele terminou os quatro seguiram em direção ao muro da cidade, já que tentar sair por qualquer uma das saídas oficiais seria um risco desnecessário.

Um alerta soou assim que eles chegaram ao muro, a fuga de Ignus fora descoberta.

– Vocês não podem ser vistos comigo, sumam daqui! –Vociferou Ignus.
– Cale-se, é nosso companheiro e além do mais foi preso injustamente...
– Agradeço o apoio, Rulgam, mas não estão em posição de argumentar nada. – Disse Ignus interrompendo o companheiro.
– O único que não está em posição de argumenta é você, Ignus, esteve preso por tempo demais e está fraco. – Disse Aldo repreendendo Ignus.
– Ali! O fugitivo!

Um guarda avistou Ignus e seus companheiros enquanto eles discutiam, sem pensar, o guerreiro atacou Haldar e em seguida Aldo, que surpresos não conseguiram evitar os golpes. Rulgam esquivou com facilidade do ataque de Ignus, mas não conseguia entender a súbita mudança no comportamento do companheiro.

– Ficou louco? – Vociferou Haldar que se levantava.
– Nunca irão me aprisionar novamente!

Agora eles compreendiam a repentina mudança de comportamento do companheiro, Rulgam imediatamente começou a ameaçá-lo com gestos exagerados e muita falácia. Os soldados que observavam de longe começaram a se aproximar, mas prontamente Haldar os impediu, pois isso poderia atrapalhar as negociações. Aproveitando-se do momento de distração Ignus usou o pouco de shii que possuía e atacou os guardas, arremessando-os para longe para em seguida escalar a muralha e desaparecer atrás dela.


– Nunca um prisioneiro havia fugido daquela prisão... Como... Como isso foi possível?

O Rei estava completamente furioso, tão logo recebera a notícia da fuga de Ignus seu humor se alterou drasticamente, os magos que foram retirá-lo do claustro foram severamente punidos imediatamente, nem ao menos tiveram a chance de se defenderem.

Inquirido sobre o que estava fazendo com seus companheiros de ordem no momento da fuga, Haldar argumentou que tivera um pressentimento e no momento em que avistaram Ignus tentaram pará-lo, mas foram distraídos pelos guardas, acabando por facilitar a fuga de Ignus, o que não era de todo mentira.

O Deus da Guerra, Paia, que observava toda a discussão parecia indiferente, mas intimamente sentia um misto de frustração e orgulho por parte de Ignus, mesmo não tendo grande admiração pelo guerreiro impressionava-o o fato dele ter sido capaz de fugir de sua prisão, mesmo depois de meses cativo e sob influência de poderosas magias necromanticas restritivas.

– O que fará em relação a isso, Paia? – Questionou o Rei.

Dentre muitas coisas o que mais irritava Paia era a falta de cordialidade, embora fosse um deus sabia como tratar aos outros com o devido respeito e exigia o mesmo para si. No entanto o descontrole e a falta de modos do Rei o estavam deixando muito descontente, de certa forma, agora, compreendia o porquê de Ignus ter se rebelado contra ele.

– Ignus estava sob sua custódia, por tanto, nada tenho a ver com isso. – Disse o deus.

A fúria na expressão do Rei era nítida, sabia que o deus tinha grandes queixas sobre as atitudes de Ignus, o fato de tê-lo entregue anteriormente era uma prova disso. Pensava que assim como ele o deus também estaria furioso pela fuga de Ignus e sua conseqüente não execução, no entanto essa mudança repentina de posicionamento não apenas o pegou desprevenido, como também deixou-o ainda mais furioso.

– Como pode se manter indiferente perante a fuga de um prisioneiro de tamanha periculosidade? – Vociferou o Rei golpeando o braço do trono.

As outras pessoas presentes logo se mostraram apreensivas, pois notaram a irritação do Deus, sabiam que toda aquela insolência de seu soberano não seria deixada de lado tão facilmente.

– Quando permiti que prendesse um de meus servos, o fiz unicamente para honrar sua soberania, afinal um crime havia sido cometido. – Disse o Deus de forma severa demonstrando toda sua irritação. – No entanto começo a me questionar se o que fiz foi certo.
– Por acaso está...
– Ousa levantar sua insolente voz perante minha presença?

A voz do Deus retumbou no salão de tal forma que fez todos se curvarem não pela força do som, mas de pavor. O Rei encolheu-se em seu torno de forma patética, quase me posição fetal. Apenas Haldar e seus companheiros pareceram não se afetar.

– Só não respondo como deveria em respeito ao atual governante dessas terras, Lorde Artan, por quem não tenho, muito menos desejo ter, nenhuma inimizade. – Concluiu o Deus retirando-se do salão.

Com um simples gesto convocou seus servos a seguirem-no, mas enquanto Haldar se dirigia à saída, o Rei, mesmo acuado, ordenou que ele permanecesse ali, já que ainda, e também, era servo daquele reino. No entanto essa ordem nunca foi cumprida.

– De hoje em diante esta casa não terá mais os préstimos de Haldar. – Disse o Deus antes mesmo de Haldar esboçar qualquer tipo de reação.

Desamparado e temeroso de uma possível retaliação o Rei permaneceu ali, acuado e encolhido em seu trono.

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