Forjando Um Guerreiro: Aço e Fornalha - Oitava Parte

Sem Remorso

Muitos soldados estavam acostumados a receber visitas ilustres, ver nobres, reis, avatares... Era algo de certa forma corriqueiro, para essas ocasiões sempre trajavam vestimentas adequadas e armaduras mais pomposas, tudo para honrar o convidado. Mas o visitante desta vez não era um nobre qualquer, muito menos um representante de um deus, era Zarrantas, Rei Zarrantas, Rei dos Deuses. Somente a menção de seu nome já causava calafrios a quem quer que fosse.

Mesmo tendo como senhor direto Paia, Deus da Guerra, receber outro deus era sempre um evento magnífico, mas receber o próprio Rei dos Deuses podia ser ao mesmo tempo uma honra máxima, como também um grande perigo, afinal, Zarrantas não era conhecido por sua tolerância aos atos dos humanos.

Enquanto a maioria dos deuses sempre era acompanhado de uma suntuosa comitiva, Zarrantas sempre estava só, não possuía lacaios nem nenhum tipo de servo, achava que a servidão era algo baixo demais e que apenas humanos serviam para tal, no entanto seu repúdio pela humanidade era tamanho que não se permitia sequer ter humanos como escravos. Também não possuía avatares, pois achava que não havia ser algum que servisse de seu porta-voz.

Ao perceber a aproximação do Rei dos Deuses que calmamente flutuava em direção ao portão principal os soldados foram tomados por um pavor indescritível, imediatamente se prostraram com rostos grudados ao solo, nenhum deles merecia a honra de olhar diretamente para o deus, muito menos queriam arriscar encará-lo de frente. Somente os dois que guardavam a porta diretamente conseguiram reagir, abriram-na bem antes que Zarrantas estivessem mais próximo, mas logo depois afundaram seus rostos no chão enquanto sentia a divina e imensa presença do Rei dos Deuses passar por eles vagarosamente.

– É uma honra incomensurável tê-lo me minha humilde morada, Rei Zarrantas, soberano de todos os deuses e seres existente! – Cumprimentou-lhe Paia fazendo uma profunda reverência enquanto as portas atrás do deus se fechavam.
– Orgulha-me estar perante caríssimo irmão meu. – Respondeu Zarrantas.

Como toda a humildade Paia cedeu seu trono para que Zarrantas o ocupasse, oferta que foi prontamente aceita.

– Tua cordialidade e educação são antagônicas ao título que possui, Deus da Guerra. – Elogiou-o Zarrantas.
– Agradeço as doces palavras, meu Rei, mas não posso deixar de perguntar, a que devo a honra de sua ilustre presença?

A questão nunca foi respondida um estrondo seguido de um forte tremor tomou conta de todo o salão, fazendo que até mesmo Zarrantas se calasse. A surpresa foi nítida nos rostos dos deuses que intimamente se perguntavam o que estaria acontecendo, principalmente Paia, por não conseguir compreender o ocorrido.

Poucos segundos depois as portas se escancararam com violência e perplexo o Deus da Guerra observou enquanto Ignus avançava pelo salão.

Em um primeiro momento Zarrantas se mostrou extremamente irritado com a interrupção causada por Ignus, mas pouco depois pareceu achar aquilo providencial, no entanto Paia era puro ódio.

– Como ousa invadir meu salão dessa forma? – Vociferou o deus.
– Não tinha a intenção de fazer isso, mas creio que os guardas se esqueceram de quem sou. – Respondeu Ignus com uma dura expressão no rosto.
– Maldito seja, eu...
– Parai!

O som da voz de Zarrantas reverberou pelo salão, mas justamente onde Paia se encontrava parecia que o efeito havia sido mais forte, fazendo com que o deus imediatamente ficasse sem qualquer reação.

– Vós sois Ignus, não, que detém o título de “Emissário”, estou certo? – Questionou Zarrantas.

Isso deixara Paia ainda mais perplexo, nunca antes ouvira dizer de Zarrantas se dirigir diretamente a um humano, quanto mais presenciar tal fato.

– Sim. Mas sinto não saber a quem me dirijo. – Respondeu Ignus secamente.

Ele sentia uma força colossal emanando do ser ocupante do trono de Paia, era algo tão grandioso que nem mesmo os deuses que havia visto antes sequer conseguiriam se aproximar de tamanha magnitude de poder. Porém, estranhamente não se sentia ameaçado por ele.

– Estúpido verme insolente este é Rei Zarrantas, Rei dos Deuses.

Há tempos havia ouvido falar desse nome além de muitas histórias sobre ele, mas nunca imaginara que um dia teria a honra de vê-lo pessoalmente, quanto mais conversar com o próprio, pois até mesmo ele conhecia a fama do apreço que Zarrantas nutria pelos humanos.

– Guarde teus impropérios para ti, Paia, o rapaz não tem culpa pelo ocorrido. Teus súditos deveriam ter-lhe alertado de minha presença e de eu quem era, no entanto, ao que parece, apenas tentaram impedi-lo entrando em uma desnecessária contenda da qual foram derrotados.
– Não, alteza, também sou culpado pelo ocorrido e peço desculpas por ter interrompido sua reunião. – Disse Ignus sinceramente fazendo uma profunda reverência.
– Teu comportamento bruto e intempestivo é justificável, afinal, sois servo de meu irmão, Paia, os guardas deveriam ter demonstrado mais respeito para com vós por conta de tua posição.
– Agradeço pela compreensão, alteza. – Respondeu Ignus ainda com a cabeça baixa.

Paia não conseguia compreender os atos de Zarrantas, como alguém como ele que nunca gostou de humanos estava se dando ao trabalho de conversar com um da mesma forma que faria com outro deus? Além disso, não admitia a intromissão repentina e desmotivada de Ignus, sequer conseguia disfarçar tal sentimento, sem contar o fato de ter sido repreendido de forma tão dura na frente de um de seus subordinados.

– Vou aguardar do lado de fora, mais uma vez peço desculpas pelo incidente.

O olhar do Deus da Guerra estava fixo em seu servo, todo seu ódio era canalizado naquele olhar severo, Zarrantas percebeu e pareceu deliciar-se com isso. Quando Ignus começava a dar o segundo passo em direção a saída o Rei dos Deuses chamou-lhe a atenção, surpreso, Ignus apenas virou a cabeça em direção ao deus.

– Diga-me, Ignus, há quanto tempo estás na ordem de meu irmão? – Questionou Zarrantas.
– Creio que há quase um ano. – Respondeu duvidoso, pois nem mesmo ele sabia direito há quanto tempo servia a Paia.
– E ainda não foste submetido à provação final?
– Não, ainda não. Creio que ainda não esteja apto a tal...
– Discordo! – Respondeu Zarrantas em alto e bom som interrompendo Ignus – Se tu, hoje, não és considerado apto a passar por esse teste, então nunca serás. Um emissário divino não pode ostentar tal título sem passar por está provação máxima.

Repentinamente Paia foi tomado por uma idéia nefasta, seu semblante que antes era puro rancor, mudou repentinamente para uma expressão de puro sarcasmo sádico.

– Rei Zarrantas talvez gostaria de saber que na verdade eu estava planejando a provação de Ignus e organizando seus preparativos. – Disse Paia com um sorriso malicioso no canto da boca.
– Excelente! E quando tal evento ocorrerá? – Perguntou Zarrantas mostrando-se bastante animado.
– Em dois dias, na Arena de Rafaia.

Aquilo pegou Ignus completamente desprevenido, de todas as coisas que esperava ouvir de Paia essa não era uma delas. O fato de passar pela provação máxima de aceitação na ordem era algo que não esperava, ao menos não que acontecesse tão cedo e de forma tão repentina, sem o menor alarde. Ainda sem saber como reagir, Ignus ficou paralisado por um instante e depois reverenciou os deuses e agradeceu-lhes.

Após saber que teria de ficar recluso até o dia do teste Ignus saiu do salão, dois guardas que estavam do lado de fora e acabavam de recobrar a consciência depois de terem sido atacados por Ignus foram ordenados a acompanhar o guerreiro até o local onde deveria ficar totalmente isolado. O temor dos guardas enquanto acompanhavam Ignus era visível, o tempo inteiro olhavam para ele e se punham em uma posição mais defensiva, como que temendo um repentino ataque.

O local onde Ignus ficaria era em uma das torres do palácio, praticamente todo o pavimento seria disponibilizado a ele para que não fosse incomodado, apenas criados especialmente treinados para tal ocasião deveriam transitar ali, além de terem de atender a todos os pedidos de Ignus sem questionar. Havia um quarto bem grande e confortável somente para ele, ao lado havia um suntuoso quarto de banho.

– O senhor terá a sua disposição vinte criados que deverão zelar pelo seu bem estar, senhor Ignus. – Disse um criado que se chamava Gustav.

Pela breve explicação que dera a Ignus, Gustav era o responsável por garantir uma boa estadia aos guerreiros que pretendiam enfrentar a provação, era uma espécie de mordomo. Sua aparência era bem séria e fechada, sua mandíbula era bem proeminente assim como as maçãs de seu rosto, mas mesmo sob seu semblante carrancudo ele aparentava ser alguém prestativo.

– Então terei criados para me auxiliar em tudo que queira? – Questionou Ignus duvidoso.
– Perfeitamente, senhor, estamos aqui para isso! – Disse o mordomo, fazendo uma profunda reverência.

Os guardas foram dispensados por Gustav, o alívio em seus rostos foi imediato e evidente, no instante seguinte eles já não estavam mais ali.

– Poderia lhe sugerir algo, senhor? – Perguntou Gustav.
– O que seria?
– A notícia de sua prisão e recente fuga já não são mais segredo, por tanto, que tal começarmos por um banho enquanto preparamos um bom jantar para que o senhor relaxe?

Alguns poucos minutos depois Gustav anunciou a Ignus que seu banho já estava pronto e o guerreiro foi até a sala de banhos, nunca antes havia estado em uma sala de banhos tão grande e aconchegante. Duas criadas aguardavam do outro lado da sala sentadas sobre seus calcanhares, assim que Gustav fechou a porta atrás de Ignus elas se dirigiram até o guerreiro e começaram a lhe despir. Ambas eram lindas e trajavam apenas uma fina túnica branca, naquele cenário semi-enevoado elas tinham uma aparência quase etérea, como uma bela visão.

Enquanto elas o lavavam Ignus deixou-se mergulhar no devaneio de seus pensamentos, era a primeira vez que se sentia relaxar de tal forma, não lembrava de alguma vez ter sido banhado por outra pessoa, mesmo quando criança.

Uma das criadas era responsável pela parte de trás de Ignus e a outra lava sua frente. O cuidado e a delicadeza como elas tratavam dele era algo que impressionava-o, não era simplesmente um esfregar e banhar desmedido, cada parte de seu corpo era delicadamente limpa e massageada. A água morna proporcionava uma ótima sensação de relaxamento, o que permitiu que Ignus, ao menos naquele momento, esquecesse de todos os seus problemas.


O dia seguinte amanheceu tarde para Ignus, não lembrava de ter dormido tanto e tão bem, após o banho na noite anterior ainda recebeu uma longa e relaxante sessão de massagem, aliado ao conforto de sua cama ele adormeceu rapidamente. Tão logo abriu os olhos e levantou-se uma criada adentrou por uma das portas laterais trazendo nas mãos uma bacia metálica com água e uma toalha. Após lavar o rosto Ignus fora informado que o desjejum se daria no salão adjacente.

Uma longa mesa farta de pães, frutas, bolos, carnes e diversos tipos de bebidas estavam a sua disposição, mas parecia um banquete do que um simples desjejum. Gustav, o mordomo, apareceu logo após Ignus se acomodar à mesa. O homem de aparência altiva e expressão inabalável se mostrava um perfeito servo, servindo a Ignus de maneira correta, sem permitir que seu atual mestre tivesse qualquer trabalho.

– Espero que a refeição esteja a seu gosto, senhor. – Disse Gustav.
– Não poderia desejar coisa melhor, Gustav. – Respondeu Ignus nitidamente contente com toda a adulação.
– Se me permite o comentário, as roupas novas lhe caíram muito bem.

Na noite anterior, pouco antes de dormir, Ignus notara que havia uma muda de roupa limpa a sua espera, era feita de um tecido leve e bem confortável, muito melhor do que os retalhos usados já há algum tempo depois da fuga da prisão.

Assim que terminou sua refeição perguntou se poderia sair das dependências do castelo, Gustav prontamente lhe informou que só lhe era permitido transitar pelas partes internas destinadas a ele, nada deveria atrapalhá-lo em sua preparação para o futuro teste. Mas antes que Ignus ficasse completamente decepcionado foi informado de um jardim interno que estava a sua completa disposição.

– Caso deseje, senhor, há, também, uma área destinada a treinamento. Podemos providenciar também algum assistente, se achar necessário.
– Muito obrigado, mas creio que não será necessário, prefiro treinar sozinho.

Durante todo o restante daquele dia Ignus meditou, treinou e praticou seguidas vezes tudo o que sabia, por vezes a única coisa que fez foi apenas permanecer imóvel apenas concentrando-se em seu shii, tentando equilibrá-lo. Foi assim quase o dia todo sem uma pausa sequer, somente tarde da noite decidiu ir repousar, para no dia seguinte retomar um ritmo ainda mais intenso de treinos.


– Como se sente hoje, senhor? Ansioso?

O dia derradeiro chegara, mas estranhamente Ignus não sentia ansiedade, muito menos nenhum tipo de nervosismo, pelo contrário, estava calmo e sereno, como jamais se sentira. A calmaria antes da tempestade, pensou, o momento de paz que sempre precede grandes mudanças. Em seu íntimo sabia que algo de muito importante aconteceria em breve, mas isso não o perturbava, não naquele momento.

Pouco depois do desjejum Ignus foi até a carruagem que o levaria até a arena onde o teste seria realizado, já trajando o manto cerimonial ele partiu. A viagem foi tranqüila e não durou muito, os cavalos erma bem rápidos e pareciam muito bem dispostos naquele dia. Assim que chegou ele foi guiado até uma pequena sala onde foi informado que deveria aguardar até que fosse chamado.

Não muito tempo depois uma bela jovem de pele bem escura adentrou a sala convocando Ignus, pelos trajes ele assumiu que ela era uma sacerdotisa e à medida que foi seguindo-a e encontrando outras vestidas da mesma forma, teve certeza. Já em outra sala Ignus recebeu bênçãos das sacerdotisas, estranhou o fato de todas serem negras e estar usando vestidos brancos espalhafatosos com turbantes nas cabeças, além dos cânticos serem todos acompanhados por sonoros tambores tribais.

Quando a cerimônia foi encerrada Ignus finalmente foi conduzido até a arena, era imensa, maior até do que o próprio imaginava, isso deixou-o contente, pois sabia que poderia lutar livremente.

A sua frente estava a platéia, viu que não era formada apenas por simples membros da ordem, mas também por alguns visitantes ilustres, como alguns reis leais a Paia, inclusive deuses. Mas o que mais surpreendeu Ignus foi a presença de Teryon e de Zarrantas, mais a do necromante, pois o Rei dos Deuses já havia demonstrado interesse prévio.

Assim que pôs os pés na arena Ignus foi recebido com uma salva de palmas calorosa, posteriormente retribuída corretamente com profundas reverências, mas Ignus notou que os únicos que se abstiveram foram Paia e Zarrantas.

– Irmãos, amigos e companheiros! – Disse Paia com um gesto expansivo após tomar seu lugar a frente de todos. – Estamos hoje aqui para ver a provação máxima do guerreiro Ignus, que hoje pode se tornar um verdadeiro membro da Ordem Absoluta da Guerra!
Os outros guerreiros companheiros de Ignus deram um potente grito de guerra em honra ao colega.

– Desde que se uniu a nós ele tem demonstrado grande coragem e habilidades excepcionais, sua ascensão ao posto que ocupa hoje é prova disso. Se hoje, ele passar nessa provação, eu sagrá-lo-ei como servo mais direto, meu avatar!

A explosão de entusiasmo entre os companheiros de Ignus foi unânime, até mesmo alguns outros convidados sentiram-se encorajados com a empolgação dos guerreiros e mais uma vez aplaudiram Ignus.

– Que comece o teste!

Silêncio. A empolgação recente dos guerreiros deu lugar a apreensão, ninguém ali sabia dizer como seria o desafio que Ignus teria de superar, mas seja o que for deveria estar a altura do grande guerreiro que era.

O portão a sua frente abriu-se lentamente e dele saiu uma figura coberta por um manto cerimonial semelhante ao de Ignus, uma forte aura era emanada por quem quer que estivesse por de baixo dele.

Rapidamente a pessoa desfez-se do manto e a surpresa de todos foi inevitável quando viram que se tratava de Haldar, além de uma dos melhores guerreiros da ordem, senão o melhor, outrora fora mestre de Ignus. Mas saber que enfrentaria seu antigo mestre parecia não abalá-lo, não de todo.

– Fico feliz em saber que será meu desafio. – Disse Ignus a Haldar enquanto ambos se encaravam firmemente sem ao menos piscar.
– E eu por saber que o testarei pessoalmente! – Respondeu Haldar duramente sustentando o olhar do ex-pupilo.

Por algum tempo ambos se encararam, não na esperança de estudar um ao outro, pois ambos já se conheciam muito bem, na verdade nenhum dos dois saberia dizer porque se encaravam naquele momento, mas apenas se encaravam.

Quase no mesmo instante um saltou na direção do outro, ambos rugiam como leões a fim de intimidar a futura presa ao mesmo tempo em que liberavam seus shiis, a energia liberada era tamanha que fez o chão se deformar severamente e rachar em vários pontos.

Um dos deuses criou uma barreira para proteger os mais indefesos do grupo, porém mesmo sendo um deus, a força conjunta de Haldar e Ignus tinha dimensões colossais, a simples barreira divina não foi capaz de suportar. Não fosse a ação rápida de Paia todos teriam sido afetados e as pessoas normais na platéia teriam morrido instantaneamente.

No instante em que ambos se chocariam no ar, os dois usaram seus respectivos shiis e aceleraram para chegar antes ao outro e tentar surpreendê-lo. Ignus atacou com um soco no abdome de Haldar, mas o mestre habilmente desviou a mão do ex-pupilo com um simples tapa, tendo o cuidado para desviar o punho de Ignus de forma que o mesmo ficasse quase de costas para ele. Com seu adversário em posição desfavorável Haldar aproveitou para tentar atingir sua nuca, porém Ignus pareceu prever a manobra e rapidamente esquivou se abaixando, aproveitando o movimento para tentar derrubar o ex-mestre com uma rasteira que também foi evitada antes que oferecesse algum perigo.

Vendo que seu ataque falhou Ignus com o punho envolto em shii golpeou fortemente o chão, até mesmo os deuses e os outros espectadores, distantes da cena, sentiram a intensidade do ataque, que fez tudo tremer fortemente. Grandes fendas se abriram instantaneamente no chão e Haldar perdeu o equilíbrio enquanto uma surgia embaixo de si, tornando impossível que conseguisse se desviar ou sequer defender o golpe seguinte de Ignus, que lhe arremessou até o outro lado da arena.

Sem perder tempo Ignus correu até onde Haldar caíra acertando-lhe um chute, fazendo-o girar no chão e bater contra o muro da arena. Antes que fosse novamente golpeado, Haldar usou uma pequena quantidade de shii para afastar Ignus e retardá-lo o suficiente, ao menos, para se levantar. Novamente de pé Haldar pode se defender dos ataques de Ignus, enquanto segurava os braços do companheiro ambos olharam profundamente nos olhos do outro, tentaram ao máximo sondar algum pensamento, ou até mesmo intimidar o adversário, mas nenhum deles mostrava o menor sinal de que estaria disposto a recuar.

– Fico feliz em saber que não treinei um fracote. – Disse Haldar com um meio sorriso.
– Será que continuará feliz depois que eu o derrotar? – Questionou Ignus em tom irônico.
– Isso veremos!

Com um gesto rápido e preciso Haldar se desvencilhou de Ignus e saltou, agora no ar Haldar voou o mais alto que pode e de lá contemplou o rosto frustrado de seu adversário, que imediatamente começou a concentrar seu shii. Haldar mergulhou estendendo os braços e gerando suas lâminas energéticas, no instante seguinte ele já estava cara a cara com Ignus que permaneceu imóvel até aquele momento, para no instante derradeiro explodir todo o shii que havia concentrado.

Sem esperar a poeira abaixar Ignus tentou sentir onde Haldar havia caído, o que não lhe exigiu muito esforço, pois seu antigo mestre estava com seu shii bem ativo. Enquanto se recompunha Haldar viu a figura de Ignus surgir do nada envolto em um ameaçador shii negro, há poucos metros de distância toda a energia que envolvia seu oponente foi disparada na forma de um grande e mortífero projétil. Em uma ação impensada Haldar tentou destruir o ataque de Ignus usando suas lâminas energéticas, mas acabou por gerar uma intensa explosão, arremessando os dois em direções opostas.

Pouco tempo depois ambos já estavam de pé novamente, encarando um ao outro, sem demonstrar o menor sinal de cansaço.

– Admirável a persistência destes. – Observou Zarrantas.
– Realmente, um vigor impressionante, Rei Zarrantas. – Concordou outro deus presente.

Diante os olhos de todos Haldar repentinamente desapareceu, somente os deuses, claro conseguiram ver seus atos, diferente dos outros que ficaram atônitos perante seu sumiço. Instantes depois viram o mesmo surgir ao lado de Ignus e desferir-lhe uma interminável seqüência de certeiros golpes, a intensidade dos ataques era tamanha que o som das pancadas eram perfeitamente audíveis, inclusive para os espectadores normais.

Em meio à interminável seqüência de golpes Haldar arremessou Ignus para o alto, saltando em seguida para alcançá-lo e ainda no ar golpeá-lo novamente jogando violentamente contra o solo. Antes que Ignus pudesse se recompor Haldar investiu contra ele usando o mesmo ataque com as lâminas de shii, atingindo Ignus e causando-lhe um sério corte no tórax.

– Você sabe quais são as regras desta prova, não sabe, Ignus? – Questionou Haldar enquanto observava o ex-discípulo se levantar.
– Só existem duas formas de se sair vivo daqui: desistência, o que me causará o banimento da ordem e humilhação total, ou matando meu oponente. – Respondeu Ignus secamente.
– Por mais apresso que tenha por ti, Ignus, não hesitarei em matá-lo se não desistir, mas caso desista, me envergonharei eternamente de ter treinado um covarde.
– É uma pena, pois então terei que matar meu melhor companheiro de batalha.

Um intenso clarão e um estrondo ensurdecedor tomaram conta do ambiente no instante em que Ignus disparou um relâmpago contra Haldar, que foi atingido em cheio pelo ataque, sendo arremessado contra um dos muros da arena e atravessando-a devido a força do golpe. Em meio aos escombros Haldar saiu caminhado lentamente, suas roupas agora reduzidas a meros trapos, além de uma grande cicatriz de queimadura do abdome.

– Desiste? – Perguntou Ignus.
– Nunca!

O estranho sorriso no rosto de Haldar foi retribuído por Ignus, ambos estavam contentes, mesmo sabendo que aquela poderia ser a última vez que viam um ao outro, mas estavam felizes. Uma estranha felicidade apenas experimentada por aqueles que no calor de um combate encontram um oponente que consideram digno.

Concentrando seu shii em uma das mãos Haldar materializou uma suntuosa espada, a energia contida no objeto pulsava forte tamanha era sua intensidade. Vendo aquilo Ignus desejou ter Yurian consigo naquele momento, no entanto sequer tinha idéia de onde ela poderia estar.

Enquanto observava atentamente a nova investida contra ele, Ignus não conseguia desviar a mente de Yurian, alguma coisa dentro dele dizia que era possível reavê-la, mas como, ele se perguntava, porém não sabia a resposta.

Vendo que não conseguiria escapar do golpe Ignus envolveu rapidamente o próprio punho em shii, a fim de defender o ataque, porém, para sua surpresa, a lâmina de shii de Haldar simplesmente transpassou o fluxo energético de Ignus. A dor era intensa e o sangue brotava em abundância do corte que sofrera, mas Haldar não parou e novamente golpeou Ignus que desviou por pouco.

– Usa a espada, seu tolo.

Aquela voz outra vez, a mesma voz que Ignus ouvira quando invadiram a cidade dos seguidores de Valum. Naquela ocasião a estranha voz a alertara sobre o uso de seus poderes, agora pedia-o para usar sua espada, Ignus não conseguia entender como seria possível utilizar um objeto poderia nem mais existir.

– Ela não pode ser destruída, tolo. Ela é não é um simples artefato de metal inanimado, ela tem vida!

Não importando a origem da voz uma coisa era certa, ela sabia o que Ignus pensava e sabia muito mais do que dizia, mas ele não tinha tempo para pensar em tal coisa, não quando tinha se manter concentrado em um combate onde sua vida e honra estava em risco, muito menos quando seu adversário estava armado e plenamente disposto a matá-lo. A desconcentração de seu ex-discípulo não passou despercebida por Haldar, parecia disperso e em momento algum demonstrava vontade de reagir.

– A essência dela está em você, use-a e convoque-a até você.
– NÃO!

Todos os presentes na platéia, inclusive Zarrantas, se surpreenderam ao ver Haldar simplesmente ser atirado a metros de distância de Ignus que era envolto por uma aura escura.

– Mostrarei a você, seja quem quer que seja, derrotarei Haldar apenas com meus punhos, sem artifício externo nenhum!

A duvida e a curiosidade tomou conta de todos, com quem ele estaria falando?

Ao ver Haldar plenamente recomposto Ignus não hesitou em disparar outro poderoso relâmpago contra o antigo mestre, este mais forte que o anterior. Porém, diferente da outra vez, Haldar consegui defender o ataque, usando sua espada como escudo. Não satisfeito Ignus disparou outro, que novamente foi defendido, mas agora ele o sustentou e intensificou não como um disparo simples, e sim como uma carga contínua. Haldar lutava para conter o poder de Ignus, sentia cada fibra do seu corpo lutando para resistir, mas rapidamente estava sendo vencido. Em uma tentativa quase desesperada Haldar conseguiu desviar o relâmpago de Ignus, antes que o mesmo pudesse reagir imediatamente Haldar contra atacou com uma pequena quantidade de shii, fazendo com que Ignus anulasse seu golpe para evitar ser atingido.

Ver o adversário a salvo não deixava Ignus satisfeito, mesmo esse adversário sendo alguém que ele estimava, afinal, naquele momento ambos não eram mais companheiros. A frustração que sentia ele gerava raiva, a raiva tornava-se força que era transparecida em sua aura, aumentando cada vez mais.

Decidido a acabar com combate Ignus investiu contra Haldar com toda a velocidade que pode, tentando usar seu shii para impulsioná-lo mais rapidamente. Em um piscar de olhos ele já estava bem próximo de seu antigo mestre, sabendo que não conseguiria parar a tempo saltou indo em direção a Haldar com os dois pés esticados, prontos a atingir o adversário em cheio.

Devido a velocidade e a posição que estava Ignus nada viu após o salto, apenas sentiu seus pés atingirem algo e arremessá-lo em seguida, a queda não fora nada confortável, entretanto seu estado atual fazia-o ignorar certos incômodos. Ainda agachado Ignus novamente disparou um relâmpago contra Haldar, mas ele, desta vez, previu que seria atacado e saiu do alcance de Ignus.

Tardiamente o guerreiro notou que seu ex-mestre já estava fora de seu alcance, quando estava virando para ficar de frente para Haldar, sentiu seu tórax ser violentamente cortado, tal foi a força do golpe que Ignus foi arrastado por uns cinco metros antes de cair no chão. O corte fora profundo e sangrava bastante, mas estava tão concentrado no combate que novamente não sentiu o golpe. Erguendo-se com um salto Ignus pode, a tempo, bloquear um novo ataque de seu oponente, para em seguida revidar e também ter seu golpe bloqueado.

Novamente ambos estavam estáticos, seguros um pelo outro, medindo suas forças, esperando que o outro cedesse, mas as forças estavam igualadas, a vontade de vencer era a mesma. Agindo por puro instinto Ignus puxou Haldar para si e deu-lhe uma cabeçada, não era um golpe elaborado como os anteriores, mas serviu para fazer com que ficasse livre do ex-mestre.

Assim que se viu livre Ignus envolveu seus punhos em chamas, disparando-as contra Haldar o atingido em cheio, o calor era tão intenso que até a platéia pode senti-lo sem o menor esforço, como se estivessem a poucos metros do ataque. Haldar ressurgiu coberto de chamas rolando no chão para extingui-las, valendo-se disso Ignus concentrou um relâmpago, mas conteve-o no momento em que dispararia contra o oponente.

– Deveria ter aproveitado a oportunidade e me destruído enquanto estava indefeso. – Disse Haldar depois que estava livre das chamas, mas seu corpo ainda ardia.
– Mas se o fizesse não passaria de um mero fraco e covarde, que só vence inimigos caídos e indefesos.
– Vejo que o treinei bem, no entanto, isto é um combate de vida ou morte, e nesses casos, tolas filosofias, como essa, não se aplicam. – Concluiu Haldar.

Mais uma vez Haldar alçou vôo e se distanciou, sempre sendo seguido pelo fixo olhar de seu ex-pupilo.

– Sabe o que me entristece, Haldar? – Questionou Ignus – O fato de nunca ter me ensinado a voar.

O mestre e agora oponente, nada disse, apenas sorriu para o guerreiro que um dia treinara, a quem tinha como um filho.

Outra vez Ignus presenciava Haldar investir contra ele como uma flecha, a diferença era que desta vez estava muito mais rápido e tinha os braços postos para trás. Pouco antes de atingir Ignus, ele traçou um corte energético no ar para em seguida arremeter, Ignus saltou para o lado, evitando, assim, o ataque, mas não conseguiu prever que aquilo era um embuste. Haldar já estava atrás de Ignus, que apenas pode ver a lâmina energética rasgar seu abdômen. Sem aguardar reação Haldar saltou para o lado golpeando o flanco de Ignus, aproveitando o impulso saltou mais uma vez, agora atrás de seu oponente fincou-lhe a lâmina energética o mais fundo que pode.

A platéia redobrou a atenção ao que parecia o fim do embate, Ignus deus dois passos cambaleantes para frente enquanto Haldar apenas observava, a expressão de dor era nítida no rosto do emissário. Lentamente ele se debruçou para frente, a espada ainda fincada em suas costas, em um movimento brusco Ignus ergueu-se novamente elevando seu shii de forma igualmente brusca, a lâmina energética foi desfeita em instantes, como se nunca houvesse existido.

No lugar onde Ignus estava agora havia uma enorme cratera, Haldar fora violentamente arremessado para trás devido a força do shii inimigo. Mais uma vez a interferência divina foi crucial para a sobrevivência dos espectadores comuns, pois desta vez a onda energética foi tal que fora capaz de destruir boa parte da arena. Ninguém, nem mesmo os deuses, tiveram tempo para se recuperar da perplexidade em que se encontravam, ainda atentos a imagem de Ignus que transbordava uma quantidade imensa de poder, apenas viram quando alguns escombros voavam aleatoriamente e em seguida um furioso Haldar ia de encontro a sua presa.

Para a surpresa ainda maior de todos, Ignus se atirou contra o antigo mestre e os dois se chocaram no ar, e ali permaneceram girando por alguns segundos, até que Ignus, com os pés, arremessou Haldar contra o chão. Usando seu shii para dar impulso Ignus atingiu o solo pouco depois de Haldar, vendo que este ainda permanecia caído não hesitou, saltou em direção ao oponente, o punho envolto em shii, decido a acabar ali o combate. No momento derradeiro Haldar rolou para o lado evitando o golpe, mas a energia reunida por seu antigo aluno era tanta, que ao se chocar com o chão a mesmo provocou uma violenta explosão.

Mesmo usando seu shii como proteção Haldar não conseguiu evitar o ataque totalmente, a energia liberada na explosão fora tamanha que conseguiu destruir sua barreira feita às pressas. Antes que pudesse pensar em alguma estratégia Haldar viu Ignus disparar em sua direção uma intensa rajada de fogo, sua única reação foi alçar vôo novamente, no entanto as chamas o seguiram e envolveram-no em pleno ar. O calor era intenso como jamais sentira igual, sentia cada parte de seu corpo ser consumida rapidamente pela ferocidade das chamas, era impossível se concentrar.

Como se o fogo fosse uma corrente sólida que envolvia seu antigo mestre, Ignus puxou Haldar de volta ao solo. As queimaduras eram severas, a pele de Haldar já mostrava muitas deformidades e estava completamente nu e sem forças, atirado ao chão completamente derrotado.

– Me... Rendo...

As palavras soaram praticamente inaudíveis até mesmo para Ignus que estava a sua frente, mas os deuses presentes conseguiram compreender bem o que fora dito, o combate havia chegado ao fim. Os espectadores comuns ainda não tinham ciência da desistência de Haldar, embora soubessem que o mesmo não tinha mais condições de continuar a lutar.
   
Alguns dos deuses presentes pareciam satisfeitos com o espetáculo que presenciaram, não esperavam ver um combate tão feroz e intenso entre dois simples humanos, mas agora percebiam que não eram tão simples assim. Zarrantas estava especialmente contente, via no rosto de Paia a frustração por ter seu guerreiro mais experiente derrotado por um ex-aprendiz.

– Decepcionado, irmão? – Perguntou Zarrantas com um malicioso sorriso nos lábios.
– Não sei se é exatamente essa a palavra...
– Então por que não auxilia teu filho caído? – Interrompeu Zarrantas olhando seriamente para Paia.
   
Por um momento o deus nada disse, apenas observou Zarrantas tentando sondar alguma coisa, uma intenção, um sentimento, o que fosse, no entanto a expressão do Rei dos Deuses não o traia. Paia olhou mais uma vez para a arena e viu Ignus dispersando seu shii enquanto observava seu antigo mestre atirado ao chão. Repentinamente a sugestão de Zarrantas ecoou novamente em sua cabeça, Haldar não poderia perder aquele combate, não daquela forma.
   
   
De pé perante o oponente derrotado Ignus não se sentia exatamente feliz, a vitória sobre seu mestre não lhe trouxe o contentamento que sempre achou que teria quando esse dia chegasse, apenas sentia indiferença.
   
Enquanto aguardava uma confirmação de sua vitória, totalmente relaxado e desconcentrado, Ignus fora derrubado e antes mesmo que pudesse ter qualquer reação sentiu seu pé ser violentamente puxado para em seguida ser arremessado na direção oposta de onde estava. Assim que atingiu o chão sentiu seu abdome ser fortemente cortado, enquanto ainda rolava no solo sem compreender o que acontecia.
   
No momento em que se recobrava e se erguia novamente apenas teve tempo de ver Haldar correndo em sua direção no exato momento em que saltava para em seguida atingir seu rosto em cheio com um chute, fazendo Ignus tombar mais uma vez. Antes que pudesse reagir Ignus fora erguido pela cabeça, Haldar apertava-lhe o crânio o com força, parecia querer esmagá-lo a qualquer custo. Quando Ignus esboçou uma reação, Haldar fora mais rápido reuniu rapidamente uma quantidade de shii em seus punhos em pouquíssimo tempo, detonando-a quase que imediatamente. Mesmo a explosão não sendo forte o suficiente para causar sérios danos, ainda assim foi o necessário para ferir Ignus e deixá-lo mais desorientado.
   
Nenhum dos espectadores presentes, nem mesmo os deuses, poderiam esperar por uma reviravolta daquelas, Haldar que estava praticamente morto no chão se reerguera como uma fera insana, atacando sua presa sem dar-lhe chance para escapar, ou sequer defender-se, além do mais, suas feridas pareciam milagrosamente curadas.
   
De joelhos e completamente desnorteado Ignus uma presa fácil para Haldar, novamente levado ao chão por um chute o guerreiro não teve chance de se defender dos ataques desferidos pelas lâminas energéticas, só quando suas costas estavam banhadas de sangue conseguiu gerar uma pequena explosão de shii para afastar Haldar.
   
Antes mesmo de conseguir se levantar Ignus teve de ser rápido para se esquivar da lâmina de Haldar, com um pequeno, mas preciso movimento conseguiu sair da rota mortal traçada pela espada energética, como também conseguiu ficar em uma posição favorável para contra atacar. No entanto Haldar estava muito mais focado no combate do que Ignus poderia supor, com maestria defendeu saiu da frente do punho flamejante do adversário e ainda segurou, torcendo-o para trás violentamente.
   
– Adeus, Ignus!
   
O tom de voz de Haldar estava diferente, era repleto de ódio e rancor, não parecia o mesmo Haldar que Ignus conhecia desde menino, mas não havia dúvida, até sua aura demonstrava sua sede por matar. Mesmo sabendo que seu mestre nunca hesitava em matar, era a primeira vez que o via daquela forma, era como se fosse outra pessoa, ou como se estivesse possuído.
   
Enquanto ainda mantinha seu adversário imobilizado Haldar concentrou todo o shii possível na mão que segurava Ignus, mas desta vez, o discípulo fora mais rápido e habilidoso que o mestre. Com um movimento rápido Ignus conseguiu ficar de frente para Haldar e disparou-lhe um pequeno relâmpago, forte o suficiente para fazer Haldar soltá-lo e se afastar.

Mesmo depois de ser atacado Haldar mantinha o shii contido, sem perder a concentração e ao que parecia ele ainda reunia mais energia. Ignus não estava disposto a deixar Haldar terminar o que fazia, com uma das mãos disparou uma rajada de fogo apenas como distração, obrigando seu ex-mestre a se mexer e abrir a guarda, assim que notou a abertura disparou outro relâmpago. Vendo que não conseguiria desviar do ataque Haldar simplesmente o conteve, auxiliado pela grande quantidade de energia que havia reunido até então.

Outra vez Ignus sustentou o poder, porém desta vez Haldar não demonstrava tanta dificuldade em conter o poder de seu adversário, assim que Ignus intensificou a força de seu ataque o mesmo se voltou contra ele, arremessando-o a metros dali. Ferido e sem compreender o ocorrido apenas teve tempo de saltar e fugir de um relâmpago disparado por Haldar, causando-lhe grande estranheza já que o mesmo já o havia dito antes que não sabia usar esse tipo de ataque.

– Seus relâmpagos são feitos basicamente de shii, assim como muitas emanações de poder. – Disse Haldar após disparar outro relâmpago e ver Ignus desviar. – Sabendo disso qualquer que compreenda um pouco sobre shii é capaz de imitá-lo, basta conhecer a essência do golpe, conhecendo mais é possível, também, revertê-lo, como fiz.

Sem piedade Haldar disparou outro relâmpago contra seu adversário, porém este era muito mais poderoso e intenso que os anteriores, Ignus seria capaz de desviar, no entanto preferiu medir forças com o mestre, contra-atacando com outro relâmpago. Os dois imensos poderes se chocaram no ar causando uma grande explosão, mas ambos sustentavam seus poderes, intensificando-os cada vez mais. Em um ato repentino Ignus começou a sugar seu próprio poder, trazendo junto a energia disparada por seu mestre, foi um movimento rápido que pegou Haldar desprevenido, impedindo-o de se conter. Quando Haldar tentava interromper seu ataque Ignus disparou de volta toda a energia que havia contigo, o resultado foi um ataque de proporções devastadoras, arrasando completamente as sobras da arena desprotegidas pelos deuses.

Quando a poeira abaixou todos puderam ver a expressão de Ignus que demonstrava seus primeiros sinais de cansaço, seu olhar estava pesado e sua respiração ofegante, ele próprio não esperava que o combate tomasse tais proporções. Distante dali Haldar sai da profunda cratera onde estava, o corpo exibia um amontoado de cicatrizes, o sangue brotava por todas as partes e seu braço direito parecia estar quebrado.

– Até o fim? – Questionou Ignus que olhava em direção a Haldar.
– Até o fim.

A disputa entre os dois já não era mais por seu sentido original, entretanto o motivo agora pouco importava, nada mais importava. Repentinamente uma poderosa aura negra tomou conta do corpo de Ignus, investiu contra seu adversário como se fosse uma flecha e por onde passava sua aura parecia deixar um rastro destrutivo. Uma aura semelhante tomou conta de Haldar e ele também se lançou contra Ignus.

Quando estavam próximos de se chocar, Ignus saltou e voou com os dois pés esticados como se fosse um grande projétil energético, Haldar por sua vez deu um pequeno passo para o lado, mas que fora suficiente para desviar do ataque. Antes que o corpo de Ignus passasse completamente por ele, ainda conseguiu segurar-lhe a cabeça e empurrá-lo violentamente contra o chão, abrindo uma considerável cratera devido à força do impacto.

Sem dar tempo para Haldar se afastar ou mesmo executar um novo ataque, Ignus rolou em sua direção jogando seus pés para trás para atingi-lo, mas a experiência de Haldar novamente falou mais alto e ele conseguiu desviar. Já de pé Ignus conseguiu ser ágil o suficiente para defender um soco de Haldar e segurar seu braço, sem dar tempo de qualquer reação contrária. Vendo a oportunidade Ignus golpeou fortemente um dos joelhos de seu mestre. O som do osso sendo partido fora tão alto que os espectadores conseguiram ouvir com clareza, mesmo estando distantes, mas o golpe não fora forte o suficiente apenas para isso, imediatamente Haldar tombou, sou perna havia sido dilacerada.  Antes de cair por completo Ignus ainda atingiu o lado oposto do cotovelo de seu mestre quebrando-o e expondo o osso.

Mesmo com o outro braço praticamente inutilizado Haldar ainda conseguiu reunir boa parte de seu shii e disparar contra Ignus, a queima roupa, sem que o mesmo pudesse sequer se defender. Porém Haldar não conseguia mais se concentrar de forma adequada, seus ferimentos eram severos demais e o golpe, mesmo atingindo Ignus por completo, não surtiu o mesmo efeito que surtiria em condições normais.

Sem nenhum pesar, sem nenhuma piedade o punho de Ignus atravessou o tórax de Haldar, este teve um espasmo repentino e seu olhar mudou, como se desperto de um transe. Uma última vez ele olhou para seu discípulo, a quem tinha como filho. Em seus olhos a imagem do guerreiro cruel e severo ficaria gravada para sempre, até o momento em que seu corpo fora completamente consumido pelas chamas de Ignus.

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