Forjando Um Guerreiro: Aço e Fornalha - Última Parte

Elos Destruídos


A chama de uma vela ou até mesmo de uma tocha podem ser domadas, em geral são calmas e constantes e servem para iluminar caminhos. Uma fogueira, no entanto, pode ser uma força indomável, quanto mais alimentada maior será a força com que arderá, maior seu calor e sua imponência. Porém qual o melhor alimento para intensificar o fogo? Naquele dia e naquele lugar a fúria.

O rugido intenso das chamas que rapidamente consumiam o corpo de Haldar soava horrendo e pavoroso. O olhar de Ignus perante a cena era um olhar sádico, parecia apreciar cada instante da morte de seu ex-mestre sem nenhum traço de arrependimento. Em momento algum parecia querer se afastar dali, apenas contemplava o corpo de Haldar ser carbonizado pouco a pouco.

Enquanto observava a tudo contente por ter presenciado um belo espetáculo, Zarrantas notou o nítido desconforto de Paia, estava incomodado e inquieto, com certeza esse não era o resultado que ele esperava. Mas um gesto de seu irmão ainda o inquietava, quando Ignus deu o golpe derradeiro em Haldar, Paia teve um pequeno espasmo, no instante seguinte sua expressão mudou drasticamente.

– Um desfecho deveras inusitado para um combate deste nível, não concordam? – Perguntou Zarrantas.

A concordância só não foi unânime, pois Paia preferiu nada responder, porém seu silêncio dizia muito mais do que qualquer palavra.


–Aproxime-se, Ignus.

Embora não estivesse satisfeito com o resultado o Deus da Guerra não poderia se recusar a reconhecer a vitória de Ignus, e por mais que desprezasse a idéia, seria obrigado a torná-lo seu avatar, sua palavra e a presença de Zarrantas o obrigava a isso. O Rei dos Deuses era conhecido por nunca ter descumprido algo que dissera, então cobrava o mesmo dos outros deuses.

Mesmo completamente sujo e com a aparência em frangalhos Ignus parecia imponente e inabalável, até mesmo perante os deuses e nobres presentes. Seus companheiros olhavam orgulhosos para ele, mas no fundo lamentavam a perda de Haldar, há quem muito respeitavam e admiravam.

– Hoje, perante os olhos de nobres, companheiros e deuses, provaste teu valor. – Disse Paia seguido por uma salva de palmas de alguns dos presentes. – Em um combate intenso e justo superou teu oponente e agora receberá o reconhecimento por isso.

Elevando sua aura Paia envolveu Ignus com sua energia e curou todas as feridas de seu servo, deixando-o intacto como se nunca houvesse entrado em combate algum, até mesmo sentia-se mais disposto. A energia do deus foi se elevando cada vez mais e Ignus se sentia cada vez mais envolvido por ela, pouco a pouco sentiu a imensa aura divina mesclar-se a sua, tornando-se uma só. Após alguns poucos minutos o elo feito entre os dois foi cortado, a energia que Paia havia irradiado agora fazia parte de Ignus, tornando o guerreiro um ser, agora, mais próximo dos deuses.

– Parabéns, Ignus!

Alguns de seus companheiros que estavam presentes, logo após o término da cerimônia foram cumprimentá-lo, apesar de naquele dia terem perdido um grande amigo, e muitas vezes, também, um mentor, sentiam-se felizes pela vitória de Ignus.

– Obrigado, Rulgam! – Agradeceu sinceramente.
– Sem dúvida uma vitória incontestável. – Disse Aldo.
– Creio que se tivesse outro adversário que não Haldar minha vitória não teria o mesmo valor. – Comentou Ignus secamente.
– Hoje perdemos um companheiro, mas este teve um fim digno, superado por um antigo discípulo e morto em um combate justo e honroso. – Disse Rulgam.

Para um guerreiro morrer em batalha era uma forma honrosa de findar sua existência, pois morriam enquanto faziam aquilo que mais gostavam, lutar.

Reunidos todos olharam para o lugar onde Haldar havia perecido, a pira flamejante que se tornou seu corpo havia se extinguido, seu corpo já estava completamente consumido pela fúria das chamas. O vento que soprava agora carregava suas cinzas, um funeral digno de um guerreiro, pensavam seus companheiros, pesarosos pela perda do companheiro, mas contentes por saberem que sua partida havia sido de forma honrada e justa.

– Parabéns, Ignus. – Cumprimentou-lhe Teryon, surpreendendo a todos que naquele momento olhavam em silêncio para as cinzas de Haldar.
– Obrigado, Teryon! – Agradeceu Ignus.
– Um combate interessante, devo admitir, mesmo não sendo muito a favor de batalhas. – Disse com seu típico tom sincero e seco.
 – Fico satisfeito que tenha apreciado a luta, pois realmente, necromantes não costumam ter o apresso que temos pelo combate. – Respondeu Ignus.
– O que não me impede de reconhecer um bom duelo, ainda mais com oponentes de alto nível, além disso, sua vitória foi justa...
– Concordo! – Disse Aldo interrompendo Teryon. – Por mais forte e experiente que Haldar fosse, você o superou, provou tê-lo superado em força e habilidade. Só lamento pela perda do grande e valoroso que era.
– Verdade, no entanto a perda de Haldar poderia ter sido evitada. – Disse Teryon distraidamente.

A perplexidade no olhar dos guerreiros foi inevitável, até mesmo Ignus se mostrou surpreso, não conseguia, naquele momento, entender como poderia haver possibilidade de Haldar ainda estar vivo. As perguntas não tardaram a vir, logo Teryon estava perante uma enxurrada de questionamentos, mas esperou que todos se acalmassem para que pudesse responder.

– A superioridade de Ignus é um fato, mas o combate não foi justo, ao menos não até o fim. – Disse Teryon e os guerreiros não notaram o menor sinal de que ele poderia estar mentindo, mas a falta de uma explicação os fazia duvidar.
– Teryon, mesmo conhecendo sua fama de não mentir, ainda assim é difícil compreender isso. – Disse Ignus.
– Uma coisa posso dizer-lhes com certeza, Haldar não lutou sozinho, não por sua própria vontade.

Novamente todos se entre olharam questionando-se sobre as palavras do necromante, como Haldar poderia ter tido algum tipo de ajuda? Todos estavam completamente atentos ao combate, era impossível Haldar ter recebido qualquer tipo de auxílio, todos teriam notado tal fato.

– O que você sabe? – Questionou Rulgam irritado.
– Sei aquilo que vi e senti, até certo momento a luta foi entre Haldar e Ignus, porém em um determinado ponto houve interferência externa a favor de seu companheiro derrotado.
– A recuperação e reação repentina de Haldar foram realmente estranhas e surpreendentes, porém isso por si só não explica nem prova que houve qualquer interferência, então como podemos ter certeza se o que disse é verdade, necromante? – Perguntou Aldo, mesmo este também já conhecendo a fama de Teryon de nunca mentir.
– Ignus poderia confirmar tal fato, mas creio que ele estava focado demais no combate para ter notado qualquer outra coisa. – Respondeu Teryon olhando nos olhos de Ignus e vendo o mesmo concordar. – Até mesmo vocês teriam notado, com um pouco mais de dificuldade, claro, mas assim como ele – indicou Ignus com uma das mãos – prestavam atenção demais no combate para terem visto qualquer interferência.
– Maldito, se sabe o que aconteceu por que não diz logo? – Enfureceu-se Rulgam.
– Porque sei que não acreditarão em mim mais do que já acreditam. No entanto se querem mesmo saber o que aconteceu aqui aconselho que perguntem há um dos presentes, se eu notei, outro deve ter notado.

A cerimônia de consagração de Ignus como avatar aconteceria em breve, mesmo recebendo o reconhecimento imediato após a luta, ainda deveria ter um cerimônia oficial, como mandava a regra. Somente na cerimônia oficial Ignus receberia seu novo título de forma definitiva, além dos poderes e conhecimentos necessários para um avatar, mesmo já tendo recebido parte disso através do shii recebido de Paia, que agora fazia parte do seu.

Mesmo estando a poucos dias de se tornar um avatar tal fato parecia não chamar-lhe a atenção, no entanto as palavras de Teryon ainda ressoavam em sua mente, como se tivesse acabado de ouvi-las. Mentalizava a luta, movimento por movimento, passo por passo, mas nada do que se lembrava denunciava qualquer tipo de interferência a favor de Haldar. A única coisa que ainda não entendia era sua miraculosa recuperação, tinha certeza de que Haldar estava completamente sem forças, não havia como estar blefando, mas agora não conseguia em outra coisa que não um embuste muito bem arquitetado. Mas se aquilo realmente foi uma encenação, então como Teryon afirmava com tanta segurança que houve interferência?

Perdido em seus pensamentos Ignus demorou a perceber que batiam a porta de seu alojamento, era um mensageiro e pareceu assustado ao ver o rosto do guerreiro. Trazia uma mensagem de que o Oráculo estaria disponível para ele na manhã seguinte, Ignus não entendeu porque teria de ver o oráculo, ao que o mensageiro explicou-lhe ser uma tradição, o Oráculo deveria prever a boa sorte do futuro avatar.

– E se o que o futuro me reserva não for algo bom? – Questionou Ignus com um sorriso malicioso no rosto.
– Te... Tem que ser, senhor. – Respondeu o mensageiro repleto de receio.

Após agradecer pela mensagem Ignus viu o pobre mensageiro partir às pressas, então permitiu-se perder novamente em seus pensamentos até adormecer.

Na manhã seguinte após o desjejum Ignus aguardava o Oráculo em uma sala reservada, não havia guardas nas portas, muito menos no corredor, o local estava completamente isolado. Um dos criados do Oráculo entrou primeiro, trazia alguns rolos de pergaminho, tinta e penas, outro entrou logo depois carregando um suntuoso aparelho de chá, colocando-o cuidadosamente no centro da mesa. Após a saída dos dois o Oráculo finalmente apareceu, não usava seu típico manto esfarrapado, mas outro de melhor aparência.

– É um prazer revê-lo, Ignus. Chá? – Ofereceu o Oráculo após cumprimentar o guerreiro.
– Não, obrigado. – Recusou gentilmente Ignus.
– Vejo que tem muitos questionamentos, meu jovem, sua expressão mostra que sua mente está um tanto confusa.

A voz do Oráculo não soava como das outras vezes, seu tom era completamente diferente, soava mais altivo e imponente, não havia um traço sequer do cinismo habitual.

– Apenas uma coisa me inquieta atualmente, o que me foi dito por Teryon, o necromante.
– Sobre a possibilidade de seu antigo mestre ainda estar vivo, certo?

A surpresa no rosto de Ignus era notória, como ele poderia saber? Oráculos costumavam ser apenas adivinhos quando muito meros conselheiros, como este poderia saber exatamente o que fora discutido entre duas pessoas?

– Como sei disso é algo não convém agora você saber, creio que antes gostaria de saber exatamente o que Teryon quis dizer, estou errado?

O tom de voz do oráculo não demonstrava malícia, mas sim preocupação, mesmo ele sendo quem era já não tinha certeza se o que fazia era o certo.

– Vá direto ao ponto. – Disse Ignus decididamente.
– Haldar foi possuído, controlaram seu corpo para que o mesmo te derrotasse, o que não aconteceu.

A revelação abriu a mente de Ignus, agora entendia como repentinamente Haldar se reergueu e começou a lutar de forma diferente, tudo fazia sentido.

– Quem fez isso? – Questionou Ignus.
– Infelizmente, guerreiro, não cabe a mim revelar-te isso. – Respondeu secamente o Oráculo para em seguida degustar um gole do chá fumegante.
– O que quer dizer com isso? – Perguntou Ignus nitidamente irritado.
– Exatamente o que disse antes, que não cabe a mim revelar quem fez tal coisa a seu falecido mestre.

A irritação de Ignus apenas aumentava conforme o Oráculo recusava-se a dizer quem possuíra o corpo de Haldar durante o combate, o sentimento era tamanho que o shii do guerreiro transbordava violentamente, fazendo alguns objetos tremerem e sofrer pequenas rachaduras. No entanto o Oráculo permanecia sereno em sua cadeira, degustando calmamente sua xícara de chá, observando atentamente a ira do guerreiro.

– Te mataria agora mesmo se isso fosse possível. – Declarou Ignus sem nenhum temor.
– E por que não o faz? – Perguntou o Oráculo recostando-se ainda mais na cadeira parecendo apreciar o momento.
– O oráculo que nunca erra uma previsão, um ser famoso e misterioso, além de grande adivinho também conhecedor de eventos passados, qualidades incomuns para um mero humano, coisa que você não é. – Disse Ignus com firmeza desafiadora na voz.
– E o que lhe faz pensar que sou diferente?
– Depois de tanto lidar com seres com capacidades extraordinárias e deuses, seria vergonhoso não ser capaz de distinguir um.
– Um...?
– Não se faça de tolo, sei muito bem que você é um deus, mesmo ocultando sua verdadeira forma e poder o shii que emana de você é poderoso demais para não pertencer a um deus. – Explicou Ignus olhando nos olhos do Oráculo.
– Hoje os tempos são outros, muitos humanos conseguem atingir níveis de poder altíssimos, muitos chegam a tal nível que conseguem, até mesmo, superar alguns deuses. – Respondeu o Oráculo.
– Mesmo assim são poucos que conseguem tamanho feito, além do mais, o shii de vocês, deuses, é diferente, é impossível confundir um deus que sempre foi deus com um humano com poder equivalente.
– Você é realmente um indivíduo fascinante, Ignus, nunca foi um humano comum, nada na sua vida foi como na vida de outros. Superou mazelas terríveis e chegou onde está hoje.

O guerreiro apenas observou o deus sem nada dizer.

– Embora vocês humanos vivam indefinidamente muitos não alcançam uma idade tão avançada quanto a sua por diversos motivos, no entanto, justamente você, que sofreu várias tentativas de aborto, quase foi assassinado pelo próprio pai e seu bando, enfrentou batalhas contra exércitos inteiros, dentre outras coisas, continua vivo e lúcido.
– Aonde quer chegar? – Perguntou Ignus.
– Já é estranho que alguém passe por tantas dificuldades em sua vida e continue vivo para contar, não crê que seja o momento de parar?
– Parar? Por que deveria?
– Até hoje, por mais estranho que soe, sempre superou todas as adversidades, mas até quando?

Por um momento Ignus ficou pensativo, afinal o que o deus disse fazia sentido, até quando? Mas por mais que pensasse a incerteza era única resposta que tinha. Mesmo já tendo sofrido algumas derrotas nenhuma havia sido fatal, no entanto esse dia chegaria, sedo ou tarde, mas chegaria.

Enquanto via o guerreiro meditar o deus se levantou e calmamente dirigiu-se a saída, Ignus ainda perdido em seus pensamentos mal notou. Finalmente quando saiu de seu próprio transe, o guerreiro notou que o Oráculo já estava na porta, pensou em chamar-lhe, mas desistiu. Porém o deus ainda se voltou para ele e contemplou o semblante decidido de Ignus.

– Se ainda estiver disposto a saber o que houve com Haldar sugiro que fale com Zarrantas, o Rei dos Deus com certeza poderá lhe dizer sem reservas o que houve exatamente naquele dia.

Seguindo o conselho do Oráculo Ignus procurou Zarrantas, entretanto após algum tempo se deu conta do quanto sua busca era difícil, Zarrantas não era um deus qualquer apenas por sua posição como rei dos deuses, mas também por ser um deus recluso e reservado. Suas aparições eram raras, mesmo em ambientes fechados, ninguém sabia como encontrá-lo, até mesmo alguns deuses desconheciam alguma forma de localizar seu rei.

A tarefa de Ignus se fazia ainda mais difícil pelo fato do mesmo conhecer poucos deuses, além disso, qual deus o levaria ao encontro de Zarrantas sabendo que ele não possuía nenhum apreço por humanos. Sabendo disso Ignus se via sem esperanças de descobrir o que houve durante seu combate com Haldar, pois quem saberia dizer o paradeiro justo do Rei dos Deuses?

– Parece preocupado, Ignus, o que houve?

Um de seus companheiros de ordem vagava distraidamente pelas ruas da cidade onde se encontrava quando avistou Ignus, nunca havia visto tal expressão no rosto do colega. Ao questionar o que se passava Ignus explicou-lhe sobre sua procura por Zarrantas, não explicou, porém, o motivo.

– Há rumores de que ele esteja nas terras dominadas pela força de Artan, mas não se sabe onde exatamente. – Disse o companheiro de Ignus.
– Os domínios de Artan são bem vastos e, se o que dizem é verdade cada dia mais aumentam.
– A sede de poder dele parece não encontrar limites, é impressionante como consegue tantos aliados e como derrota com tanta facilidade seus opositores.

Despedindo-se do companheiro Ignus lhe agradeceu, mesmo ainda não tendo a informação exata ao menos agora tinha uma direção que poderia seguir. Sem perder tempo tomou um cavalo e foi em direção a um dos reinos dominados por Artan, o mais próximo dali era um reino que servia de morada ao deus Alptraum des Meeres. Era uma um reino litorâneo formado por três cidades, todas tinham grande atividade portuária e o comércio local era próspero. Se Zarrantas realmente estivesse em um dos reinos dominados pelas forças de Artan aquele poderia ser o local onde estava, afinal, Zarrantas não se daria ao trabalho de visitar um reino que na pertencesse a um deus.

Após algumas horas de intensa cavalgada Ignus pode ver a entrada do reino, a alta muralha era bem guardada, havia guaridas espalhadas em distâncias regulares, o número de soldados que vigiavam o local era impressionante. O portão de entrada estava erguido e caravanas entravam e saiam a todo o tempo, mas a vigilância era intensa, ninguém entrava ou saia do local sem ser vistoriado antes.

 – Saudações, guerreiro, o que o trás a nossos domínios? – Questionou um dos guardas que abordou Ignus.
– Soube que o Rei dos Deuses pode estar nessa região, é verdade?

O misto de surpresa e apreensão nos rostos dos guardas era nítido, a simples menção de Zarrantas causava muito espanto e até pavor em alguns, como foi o caso dos que estavam próximos e ouviram a conversa.

– Nenhuma comitiva real ou divina passou por aqui nos últimos dias, guerreiro, lhe deram um informação incorreta. – Disse um dos guardas de forma insegura e um tanto relutante.
– Zarrantas não é conhecido por ter comitivas escoltando-o, ele pode muito bem estar em seu território sem, obrigatoriamente, ter passado por vocês.

O que Ignus disse fazia sentido, concordaram os guardas, mas mesmo assim a afirmação de que o Rei dos Deuses estaria ali era um absurdo, eles saberiam de tal fato caso o mesmo fosse verdade.

– Por acaso Alpatraum des Meeres se encontra por aqui? – Perguntou Ignus.
– Sim, está.
– Então a chance de Zarrantas estar aqui é grande. Poderiam permitir minha entrada?
– Já sabemos o que deseja, por mais estranho que seja, mas ainda não sabemos quem é, guerreiro.
– Sou Ignus, Emissário do Deus da Guerra, Paia.

Somente a menção de seu nome já fez os guardas ficarem apreensivos, a fama de Ignus era extensa e todos conheciam seu nome e alguns de seus feitos, por isso mesmo muitos o temiam. Rapidamente permitiram sua entrada, não havia nenhum atrito entre as forças de ambos os lados que impedisse a passagem de Ignus, mesmo que houvesse, aqueles soldados não estavam dispostos a entrar em um combate desnecessário do qual sabiam que não sairiam vitoriosos.

Dentro da cidade Ignus observou o grande vai e vem de pessoas para todos os lados, o movimento nas ruas era intenso, praticamente impossível de ver alguém parado por mais de dois minutos. Carroças de diversos tamanhos circulavam em todas as direções levando e trazendo carga do porto, boa parte eram caixas fechadas, mas também havia grande quantidade de fardos de tecidos de um mesmo tipo, além de sacos e mais sacos de especiarias.

Apesar do grande volume de gente o local parecia muito bem vigiado, guardas circulavam entre a multidão, outros estavam colocados em postos estratégicos, nada parecia passar desapercebido.

As ruas eram largas, mas a grande movimentação tornava impossível cavalgar por elas e para sua sorte não foi difícil encontrar um estábulo, havia um estrategicamente colocado a direita do portão principal. A um primeiro olhar não parecia muito grande, no entanto tão logo se aproximou mais, Ignus pode ver que o local possuía dois pavimentos, sendo um subterrâneo. As baias eram bem espaçosas e confortáveis para os cavalos, o local estava bem cheio e também a movimentação era grande a todo o momento alguém partia enquanto outro cavaleiro chegava.

– É um belo animal! – Comentou um dos responsáveis pelo local que auxiliava Ignus.
– Sim, é e bem resistente.
– Não se preocupe, aqui ele ficará seguro, há água no cocho logo atrás e também um pouco de feno, mas se preferir podemos providenciar algo melhor para ele comer.

Deixando algumas moedas com um dos cuidadores Ignus partiu em direção ao palácio, a caminhada seria longa, além do fato de ter que enfrentar a balburdia natural das ruas o palácio ficava mais afastado dali, numa parte mais elevada do terreno. Enquanto seguia o guerreiro tinha a nítida impressão que estava sendo observado, porém o grande volume de pessoas impedia-o de conseguir detectar algo com mais precisão. Por várias vezes olhou para trás e poderia jurar ver alguém seguindo-o tranqüilamente apesar do fluxo intenso, mas no instante seguinte esse mesmo ser parecia simplesmente ter desaparecido.

Quando se aproximou do castelo notou que o aceso até ali era restrito, um portão e um muro separavam seus arredores do restante da cidade, possivelmente apenas soldados e pessoas com autorização especial tinham acesso aquela parte da cidade. Sem precisar se concentrar muito Ignus sentiu com clareza uma poderosa presença, provavelmente a do deus local, porém a que chamava mais a atenção era uma energia muito maior e intensa que não fazia questão de se ocultar, a de Zarrantas.

– Alto! Quem é e o que deseja?

Dois soldados estavam de guarda no portão, ao ver aproximação de Ignus logo cruzaram as lanças, um claro sinal de que a entrada ali não era permitida.

– Sou Ignus, Emissário do Deus da Guerra. Venho à procura de Zarrantas, Rei dos Deuses, que nesse momento está com seu soberano e deus.

Os soldados se entre olharam, a informação era verídica, porém sigilosa. Não sabiam como agir naquele momento, já que não foram instruídos sobre a chegada de nenhum convidado, no entanto preferiram permitir sua passagem, afinal, sabiam quem era Ignus e assim como os soldados da entrada da cidade, estes também queriam evitar qualquer tipo de incidente diplomático.


– Devo me preocupar com isso?

Em seu salão de reuniões Alptraum parecia preocupado, as notícias que Zarrantas trazia não lhe pareciam muito animadoras, mesmo assim mantinha inabalável por fora. As visitas do Rei dos Deuses eram raras e ultimamente nuca eram um bom sinal.

– De fato, irmão meu, acontecimentos vindouros demandam grande cautela, creio que todos nós seremos afetados.

Mesmo falando sobre um suposto risco que muitos corriam em um futuro breve, Zarrantas parecia inquietantemente calmo demais, tal tranqüilidade não trazia nenhuma segurança para Alptraum.

– Não quero soar insolente, Rei, mas diferente de ti tenho um séquito e tenho que zelar por eles, se algo tão preocupante assim pode acontecer para você vir até mim dizer, então a coisa pode ser ainda pior do que demonstra ser. – Disse Alptraum olhando severamente para Zarrantas.
– Nunca pude compreender vossa predileção pelos humanos. Selvagens, tolos e fracos, que utilidade essas bestas possuem? – Questionou Zarrantas.
– Eles são bem úteis, às vezes, mas admito que hajam alguns repugnantes entre eles.
– Tudo o que sabem fazer é guerra e perverter a criação de nossos irmãos...
– E o que me diz de Cryo? – Questionou Alptraum interrompendo Zarrantas.
– Falas da serva do irmão Hantar?
– Exatamente, não foi ela que o salvou certa vez?
– Hantar fora um tolo, seu erro quase custou-lhe a existência, porém uma sacerdotisa humana conseguiu salvar-lhe usando sua própria essência, um ato surpreendente e louvável, ainda mais vindo de uma inferior como ela. No entanto não passa de mera exceção.
– Assim como ela muitos humanos conseguiram alcançar níveis de poder bem elevados, equiparando-se a muitos de nossos irmãos. – Observou Alptraum.
– Como havia dito, mera exceção. – Respondeu Zarrantas secamente.
– E o que me diz de Fonan Drax?
– Irmão Fonan partilha de meu ponto de vista, embora não concorde com sua excentricidade de admiração por pássaros.
– Não acha estranho, Rei Zarrantas, que justo alguém como ele, que muitos têm como seu braço direito, tenha se envolvido com uma humana?

A provocação não passou despercebida e a irritação no olhar de Zarrantas era nítida, todo o palácio pareceu tremer levemente por um instante.

– Onde queres chegar com isso, Alptraum? – Questionou Zarrantas profundamente irritado.
– Sei bem que Fonan e vossa majestade partilham do repúdio pelos humanos, assim como muitos outros deuses, sei também de seu respeito à Cryo pelo que ela fez a Hantar, mas ainda assim Cryo é uma humana, não considera estranho o envolvimento de Fonan com ela?
– Como bem disseste, irmão, respeito Cryo pelo seu ato para com nosso irmão Hantar, seu modo de pensar e agir a diferem e muito de sua raça, além do mais, possui conhecimento e força que jamais outro humano será capaz de atingir. – Respondeu Zarrantas, contendo-se ao máximo. – Porém devo admitir que fico mui surpreso com seu envolvimento com Fonan, afinal, muitas vezes ele próprio demonstra mais repulsa pela humanidade que qualquer outro.
– Ao que parece Fonan pode estar reconsiderando seu modo de pensar...
– Este teu discurso nos levará a algum lugar? – Perguntou Zarrantas? Interrompendo Alptraum.
– Creio que não, majestade, desculpe por minha insolência. – Respondeu Alptraum fazendo uma reverência profunda.
– Não importa, tens o direito de pensar como bem entender. Posso lhe fazer um pedido?
– Sim, claro. – Disse Alptraum duvidosamente.
– Poderias me ceder tua sala por alguns instantes, há um visitante que deseja conversar comigo.

As portas do salão real se abriram repentinamente e até mesmo os guardas se surpreenderam ao ver Alptraum deixando o local, logo a frente Ignus olhava atentamente para o deus que se dirigia altivamente em sua direção. Após passar o efeito da perplexidade todos os guardas curvaram-se diante Alptraum, mas este não pareceu notar-lhes a falta e não deu atenção.

– Você deve ser Ignus, certo?
– Sim, senhor. – Respondeu Ignus fazendo uma reverência.
– Rei Zarrantas o aguarda em minha sala.

A surpresa e incredulidade eram nítidas no rosto de Ignus, mas ele nada disse, apenas observava enquanto o deus se afastava calmamente e seus servos permaneciam curvados e imóveis. Logo que Alptraum saiu de seu campo de visão Ignus caminhou até o salão real onde era aguardado por Zarrantas, um guarda fez menção de bloquear-lhe a entrada, mas logo se dera conta do erro que estava para cometer e retomou sua posição.

Lá dentro Ignus pode ver um vulto ser tragado pelas sombras no chão no exato momento em que entrava, por um instante pensou ser sua imaginação, mas ao olhar para baixo e ver as sombras ficando mais fracas teve certeza de que algo, ou alguém, tinha acabado de partir.

Enquanto seguia até próximo de Zarrantas, Ignus ouviu as portas fecharem atrás dele com um forte estampido, sentiu também como se a ligação daquele local com o resto do mundo houvesse sido desfeita no exato instante que as portas fecharam, como se estivesse em outro plano, outra dimensão.

– Rei Zarrantas, agradeço por poder conversar comigo. – Disse Ignus fazendo uma profunda reverência.
– Seria descortês de minha parte não atender aos anseios de um servo tão importante de um irmão meu. – Falou Zarrantas que pode notar a leve irritação de Ignus quando disse a palavra “servo”.
– Serei direto, vossa majestade deve ter notado que houve interferência externa em meu combate contra Haldar, gostaria de saber exatamente o que houve.
– De fato, tua contenda com teu ex-mestre não fora de toda justa, houve sim uma interferência que poderia ter auxiliado a Haldar, mas vós superaste tal adversidade de forma magistral, então que importância tem tal fato? – Perguntou Zarrantas com nítida satisfação.
– Um combate daquele tipo tem de ser apenas um contra um, se há alguma interferência, aquele que atrapalha tem de ser punido.
– Estas com a razão, não é justo, no entanto, saiba que Haldar em momento algum pediu pelo auxilio que lhe foi prestado.
– Então vossa majestade sabe quem fez aquilo? – Perguntou Ignus demonstrando grande ansiedade.
– Desacreditado fiquei ao notar o ocorrido, mas naquele momento a nada do que fizesse mudaria o curso que já havia se desenhado. Porém quero deixar-te claro uma coisa, não ter interferido não significa apoie tal ato.

Ignus nada disse, apenas observou Zarrantas, aguardando ansioso e furioso pela resposta.

– Foste Paia o causador daquilo.

A surpresa de Ignus não foi maior que o prazer que Zarrantas sentiu ao ver a imensa aura de fúria transbordar de Ignus, sua energia alcançara um nível de intensidade tamanho que o local começou a tremer repentinamente. Mas da mesma forma que os tremores vieram ele sumiram, tudo parecia como antes, no entanto Ignus aparentava apenas calmaria externa.

– Tua fúria é justificável, não te atenha a refreá-la, só há de te prejudicar. – Disse Zarrantas cada vez mais contente ao ver a irá de Ignus.
– Agradeço pelo que me disse, vossa majestade, mas agora devo partir. – Disse Ignus fazendo uma última reverência.
– Lembra-te, jamais refreie teus instintos.
Ignus apenas ouviu este último conselho e partir sem dizer nada.

Os últimos preparativos para a cerimônia que logo aconteceria e a festa estavam quase no fim, muitos criados corriam para deixar tudo muito bem organizado, tudo tinha que estar no mínimo impecável. A preocupação inclusive com os pequenos detalhes era tamanha, que havia várias pessoas responsáveis apenas pela conferência dos diversos itens. Perfeição era o mínimo exigido para aquela ocasião.

Em seus aposentos os guerreiros trajavam seus uniformes de gala, de um vermelho forte e suntuoso, até mesmo os guardas comuns trajavam armaduras mais elaboradas e pomposas, todas devidamente polidas e reluzentes.

No imenso salão preparado para a cerimônia Paia se encontrava sentado no trono central, este era feito de diversos pedaços de armaduras, armas e escudos, simbolizando espólios de guerra. Havia ainda outros seis tronos que estavam ocupados por outros deuses, Zarrantas estava presente, assim como Fonan, que se destacava dos demais por sua elevada altura e altivez. Outro deus também chamava a atenção, mas este não por sua postura, mas sim por sua extrema semelhança com Zarrantas, seu nome era Samur, no entanto apenas a aparência os igualava, as atitudes e o modo de pensar de Samur eram completamente opostos. Nas fileiras laterais de convidados se mesclavam nobres de todos os tipos, leais a Paia ou não, além de representantes de outros reinos e até mesmo alguns reis e suas respectivas guardas pessoais.

Um imenso tapete vermelho cortava o salão de uma ponta a outra, da entrada até o trono de Paia, estava flanqueado de ambos os lados pelos companheiros de Ignus, todos muito orgulhosos pela honra que o amigo receberia.

Um sino soou às dez da noite, após a última badalada todos permaneceram em silêncio profundo. Pouco depois as imensas portas de madeira se abriram e Ignus caminhou lenta e altivamente pelo tapete vermelho, enquanto seus amigos erguiam lanças e espadas, formando um túnel. O guerreiro apenas trajava um manto branco, sem nenhum detalhe, apenas um mero pedaço de pano, sua cabeça e rosto ocultos por um capuz longo.

Ao chegar à frente do trono Ignus ergueu o capuz revelando seu rosto e ali permaneceu, olhando fixamente para Paia.

– Irmãos e companheiros, amigos e convidados, hoje estamos todos aqui reunidos para a consagração do guerreiro Ignus como meu avatar. – Disse o Deus da Guerra levantando-se de seu trono.
Houve uma explosão de palmas e gritos de guerra por parte dos companheiros de Ignus, mas com um simples gesto de mão Paia fez com que todos voltassem a silenciar.
– Então Ignus, ajoelhe-se perante mim e aceite o meu sangue divino, comunguemos nosso sangue e torne-se meu...
– Não!

O tom forte e decidido de Ignus sobressaltou sobre a voz do deus e fez com que todos, além de surpresos, se sentissem diretamente ameaçados. Um silêncio mórbido tomou conta do local, ninguém ousava fazer o menor comentário sequer, apenas as trocas de olhares preocupados eram suficientes para transmitir toda a preocupação e duvida de todos os presentes. Até mesmo os deuses pareciam preocupados, nunca antes tinham se deparado com tal situação, Zarrantas parecia indiferente apenas observava sem demonstrar nenhuma reação aparente.

– Como ousa erguer sua voz perante a minha?

A ira nos olhos do Deus da Guerra era nítida, de todas as ousadias de Ignus aquela era a maior de todas as afrontas.

– Nunca me ajoelharei e seguirei alguém covarde o suficiente para interferir na vida alheia, ainda mais em um duelo homem a homem, visando prejudicar um dos lados.

A reação dos presentes foi a mesma, todos se entreolhavam novamente e desta vez cochichavam uns com os outros, especulavam sobre o que o guerreiro estava falando, ainda não tinham idéia dos motivos de sua rebelião, mas logo saberiam, mas também sabiam que aquele ato não passaria sem uma punição.

– Do que está falando seu insolente? – Questionou Paia.

Sem pestanejar Ignus acusou o deus de interferir no seu combate contra Haldar, onde se sagrou vitorioso, repetiu tudo o que havia descoberto desde a revelação feita por Teryon até a descoberta da identidade de quem tentou prejudicá-lo, mas não revelou nenhum nome.
– Ousa me acusar sem provas, verme?

Paia caminhava lentamente em direção a Ignus, sua energia divina pulsava intensamente, mas ainda estava contida o suficiente para não afetar nada nem nenhum dos presentes.

– Não tenho provas materiais do que fez, mas aqui há quem possa confirmar minha versão.

A segurança de Ignus apenas deixava o deus cada vez mais irado, enquanto a duvida no olhar dos outros presentes era cada vez mais evidente.

– Se apresentem aqueles que ousam confirmar o que este verme diz.

No mesmo instante um dos convidados se ergueu e todos os olhares se dirigiram até ele, era Teryon, trajando suas vestes negras típicas, seu olhar era o mesmo de sempre, analítico e profundo.

– Ousa confirmar o que este insolente diz? – Questionou Paia ainda mais irado ao ver que alguém apoiava Ignus.
– Na verdade, eu mesmo revelei a ele que a luta não havia sido justa até certo ponto. – Respondeu Teryon secamente.
– E tem alguma prova disso, necromante?
– O que ganharia mentindo e inventando algo desse tipo?

Os presentes se sentiram acuados ao ver a energia divina de Paia aumentar visivelmente, todo o local pareceu tremer violentamente, tamanha a ira do deus, no entanto Teryon parecia impassível, sua expressão não sofrera a menor alteração enquanto sustentava firmemente o olhar furioso do deus. Até mesmo os outros deuses pareciam incomodados dessa vez, menos Zarrantas.

– Não crê que tudo isso já foi longe demais, irmão? – Perguntou Fonan a Zarrantas.
– Absolutamente, irmão meu, é neste momento onde a cortina se abre e o espetáculo há de ser revelado.

Repentinamente Zarrantas, o Rei dos Deuses se levantou de seu trono, Paia estava pronto a descarregar sua ira sobre Teryon, mas ao ver seu soberano se manifestar deteve-se, pois sabia que tal ousadia por parte de dois humanos não passaria desapercebida por Zarrantas.

– Lamento muito por ti, irmão Paia, porém o relato de teu servo, Ignus e, as palavras  de Teryon falam a verdade. Tal interferência relatada e confirmada realmente ocorreu e foste tu, irmão, quem cometeu tal ato.

A surpresa tomou conta de todos e o burburinho foi inevitável, entre os companheiros de Ignus outro sentimento predominava, a indignação. Nunca poderiam imaginar que seu próprio deus teria intenção de prejudicar a um dos seus, por mais que fosse seu soberano, aquilo era ato repulsivo.

– Majestade...
– Irmão Paia, devo advertir-lhe que teu ato é totalmente repulsivo? – Disse Fonan interrompendo Paia.
– Mas, Primeiro Fonan, eu...
– Ousa questionar um Primeiro e desmentir as palavras de nosso rei? – Questionou outro deus presente seu nome era Sampouku.

O Deus da Guerra sentiu-se acuado, frustrado e furioso ao mesmo tempo, traído pelo servo e pelos próprios deuses.

– Tudo isso é sua culpa!

Tomado pela ira Paia disparou uma rajada energética contra Ignus, mas o guerreiro estava atento e com impressionante maestria rebateu o ataque jogando em direção a parede atrás de onde estavam os deuses.

– Parai!

A voz de Zarrantas retumbou pelo salão deixando todos atordoados, até mesmo os deuses pareciam incomodados, pela primeira vez podia-se ver em seu rosto alguma demonstração de sentimento.

– Irmão Paia, tu serás punido por tua interferência no combate entre Ignus e Haldar, teus servos.

A decisão de favorecer a um mortal deixou todos os presentes ainda mais surpresos, todos conheciam o repudio que Zarrantas nutria pelos humanos.

– Independente de ambos serem seus servos, tu não deverias ter interferido em vossas escolhas, nenhum deus tem o direito de fazer isso. – Disse Zarrantas
– Posso ser punido, majestade, mas este humano pagará por sua insolência.

Repentinamente Paia desapareceu, mas apenas para olhos mortais e isso não era um bom sinal, imediatamente alguns dos humanos presentes começaram a ser consumidos instantaneamente, até mesmo suas almas eram despedaçadas violentamente. Em um gesto rápido Samur conseguiu evitar que outros fossem mortos criando uma barreira em volta dos humanos, que a essa altura já estavam completamente apavorados com o horror que presenciavam. Todo o local tremia violentamente, imensas rachaduras surgiam a todo momento, vários escombros começavam a cair causando ainda mais pânico aos presentes que sem saber o que fazer permaneciam acuados.

O Deus da Guerra agora estava em sua verdadeira forma, apenas a elite de seus soldados e os outros deuses eram capazes de vê-lo em toda sua plenitude, trajava uma armadura de guerra completa e imponente, em sua cintura pendia uma espada de cabo belissimamente adornado, um par de adagas e um grande e imponente martelo de guerra. Em sua mão esquerda portava um escudo e na outra uma lança, nas costas um arco e dois machados cruzados.

– Hoje sua existência chegará ao fim, verme infecto e insolente. – Disse Paia a Ignus, tomado de ira.
– Não temo alguém como você!

A diferença de poderes naquele instante ira imensa, a derrota de Ignus já era dada como certa, ele sabia disso, no entanto o guerreiro não tinha medo, muito menos receio, enfrentaria Paia, ali, naquele momento, mesmo que isso custasse sua vida.

A energia de Paia se elevou ainda mais, Ignus começou a se sentir esmagado por ela, era forte e intensa, mas aquilo para ele não significava nada. Fazendo um gesto como se estivesse a se livrar de fortes amarras Ignus afastou a energia opressora do deus, para em seguida erguer a sua, era uma energia muito mais agressiva que a de Paia chegando, até, a se igualar a do deus, de alguma forma.


Os deuses conhecidos como primeiros, eram deuses com capacidades e poderes muito além dos outros, mas um deus inexperiente, mesmo sendo um primeiro, ainda era um deus inexperiente, Samur era um exemplo disso. Nunca fora apegado ao título que possuía, muito menos se comportava como um deus, por diversas vezes sofrerá severas reprimendas, inclusive, de deuses mais novos. Por mais forte que um primeiro pudesse ser Samur não possuía a habilidade e experiência que Zarrantas e Fonan possuíam, por exemplo, sua tentativa de salvaguardar os humanos sobreviventes, apesar de nobre, de nada adiantou quando Ignus ergueu sua energia.

A frágil barreira erguida pelo inexperiente deus que bravamente resistira a fúria de Paia, não fora capaz de suportar a surpreendente e poderosa força do humano Ignus, despedaçando-se como vidro estilhaçado, matando ainda mais pessoas de forma imediata, apenas alguns poucos de espírito mais forte sobreviveram. Os soldados mais fracos também foram consumidos pela força que Ignus emanava, até mesmo seus companheiros se sentiam mal perante tamanho poder, mas estes ainda resistiam. Teryon resistia com as próprias forças, mesmo com alguma dificuldade, mas parecia menos desconfortável que os outros sobreviventes.

Sem aviso, Paia investiu contra Ignus com sua lança, porém o guerreiro não se moveu, esperou que a arma divina estivesse o mais próxima possível de si para então usar seu shii e destruí-las sem muito esforço.

– Samur, tire os humanos sobreviventes daqui, rápido! – Disse o deus que trajava vestes cinzentas e cabelos negros bem curto e postura de um general.
– Retornarei, irmão Arzac.

Os humanos restantes, assim como Samur, desapareceram, inclusive Teryon e os companheiros de Ignus foram levados, reaparecendo no mesmo instante em um local muito distante de onde estavam, ainda assim era possível sentir a fúria do humano e do deus que agora se enfrentavam.

– Paia, pare imediatamente...
– Não! – Vociferou o deus interrompendo Arzac. – Por diversas vezes suportei a desobediência e a insolência desse ser, mas hoje isso será reparado, com o sangue e a alma dele!
– Irmão Arzac, peço-te que apenas observe, o humano não tem chance de sobreviver, quando este ato de insanidade findar, nosso irmão será punido como determina a lei, mas já que ele assume a conseqüência de seus atos, deixemo-nos que arque com as conseqüências. – Disse Zarrantas detendo Arzac que estava prestes a atacar o próprio irmão.

Outra onda energética foi disparada contra Ignus e novamente ele rebateu o ataque, o deus parecia contente ao ver a cena e atacou o guerreiro outras vezes, apenas para vê-lo desviar ou rebater inutilmente suas investidas.

– Até quando acha que conseguirá se safar? – Perguntou Paia. – Não se vanglorie por conseguir esquivar e desviar esses míseros ataques, muito menos por destruir uma de minhas armas.
– Destruirei não apenas suas armas, mas também você! – Desafiou Ignus.

O deus gargalhou sonoramente, o que restou do local tremeu e se desfez como se fosse feito de areia.

– Desarmado você não é nada.

A imagem de Ignus pareceu tremer, mas no instante seguinte o mesmo não estava mais lá, a ação fora tão rápida que até os próprios deuses se surpreenderam com a velocidade do guerreiro. Paia também fora pego de surpresa, mas logo notou o ataque direto e foi capaz de bloqueá-lo, ainda assim Ignus fora capaz de arrastar o deus por alguns metros. Aproveitando o força do ataque inicial Ignus saltou por sobre Paia, já atrás dele socou-lhe as costas com força tal que fora capaz de arremessar o deus para frente. Paia ergue-se como se nada tivesse ocorrido, sua armadura ainda reluzente não apresentava o menor arranhão sequer

 – Se fosse um mero humano como você e minha armadura fosse um simples pedaço de metal, certamente teria me matado apenas com esse golpe. – Disse Paia olhando para Ignus.

Lentamente o deus sacou a espada que pendia em sua cintura, a lâmina larga e longa mostrava que era ameaçadoramente bela, aparentava jamais ter sido usada, uma arma perfeita. Com um movimento rápido o deus desenhou um corte cruzado no ar, a energia percorreu o ar em direção a Ignus a uma velocidade espantosa, mesmo assim, aquilo não foi suficiente para atingi-lo, saltando para o lado Ignus desviou do ataque, com um segundo salto foi em direção a Paia, ainda no ar ergueu o punho como se fosse socar com as costas da mão, mas pouco antes de desferir seu golpe seu punho ficou envolto em chamas escuras e intensas, até mesmo os deuses, que apenas observavam distantes, forma capazes de sentir o intenso calor. Paia contra-atacou com sua espada visando decepar o braço de Ignus, porém tal foi sua surpresa ao notar que sua espada não atingira o braço do inimigo, mas um objeto metálico, Yurian.

Imerso em sua perplexidade Paia se tornou um alvo fácil para Ignus, que derrubou-o sem dificuldades, mas quando estava prestes a encravar-lhe a lâmina ainda flamejante, Paia desapareceu, ressurgindo pouco depois do outro lado do que sobrara do salão.

– Impossível, essa maldita espada não poderia estar em seu poder. – Disse Paia revoltoso.

A resposta de Ignus veio em forma de ataque feroz, um corte flamejante de tal intensidade que fez os deuses sentirem seu calor novamente, mas Paia simplesmente desviou-se do golpe sem grande dificuldade. Sem dar tempo ao oponente Ignus lançou-se contra o deus, suas espadas se chocaram no ar produzindo faíscas intensas, um segundo golpe e novamente o choque das armas que dessa vez ficaram imóveis enquanto seus respectivos donos se encaravam mutuamente, em um duelo de força de vontade. Mas a determinação de ambos era idêntica e nenhum deles cederia.

A disputa agora era em outro nível, o deus começou a erguer sua energia fazendo com que a mesma pressionasse Ignus que também ergueu a sua, não para se proteger, mas sim para contra-atacar. Quanto maior era a emanação divina maior era a emanação energética de Ignus, tudo a sua volta estava já havia se desfeito, até mesmo o solo estava sendo destruído tamanho era o poder que se manifestava.


Longe dali os humanos que foram levados por Samur sentiam a energia do deus e do guerreiro como se ambos estivessem ao seu lado, imediatamente alguns começaram a ser afetados por isso. O que começou com um estranho e forte mal estar evoluiu para convulsões e sangramentos intensos, somente alguns poucos permaneciam ainda ilesos. Teryon fora obrigado a erguer um campo energético para si, pois sabia que aquilo tendia a ficar ainda pior e até mesmo ele sofreria as conseqüências. Já Samur  tentava ajudar os humanos que estavam em pior estado, mas o deus pouco podia fazer devido a seu parco conhecimento, nunca havia tido maiores preocupações nem se importava com o fato de ser um primeiro, porém pela primeira vez condenava a si mesmo por não poder fazer nada.

– Por favor, me ajude.

Ao ver que Teryon era o único que permanecia incólume Samur não hesitou em pedir a ajuda do necromante.

– Você é um deus, deveria ser capaz de dar conta disso sozinho. – Respondeu Teryon olhando severamente para Samur.
– Se tivesse uma ínfima parte do conhecimento de qualquer um de meus irmãos, sim, no entanto...
– É deprimente e surreal ver um Primeiro se humilhando perante um humano, implorando por ajuda. – Disse Teryon.
– Não me orgulho de ser um Deus muito menos um Primeiro, isso não faz a menor diferença para mim. – Respondeu Samur sinceramente.
– Erga uma barreia em volta deste lugar com o máximo de energia que conseguir reunir, isso não deve ser difícil, mesmo para você, o restante deixe por minha conta.


Uma poderosa explosão se fez ver, ouvir e sentir por quilômetros dali, tudo o que havia por perto foi devastado impiedosamente, Paia e Ignus estavam, agora, afastados um do outro, o guerreiro estava com seu traje em farrapos e a proteção que usava não mais existia. O deus aparentemente estava em melhores condições, no entanto sua armadura não era mais a mesma, exibindo grandes rachaduras, cicatrizes que feriam profundamente o ego de Paia.

Tomado de ira Paia atacou Ignus, o guerreiro defendo o ataque com sua espada, mas logo em seguida fora atingido com um chute no abdome, movendo-se rapidamente o deus conseguiu passar para trás de Ignus e atingir-lhe as costas com um profundo corte. Sem esperar por qualquer reação do guerreiro, Paia concentrou uma grande quantidade de energia em sua espada e golpeou Ignus novamente pelas costas, porém ele conseguiu, por pouco, desviar do feroz ataque e viu uma grande e profunda fenda ser aberta no chão ao seu lado.

Virando-se na direção do deus, Ignus pode ver outro ataque ser preparado, mas  desta vez ele fora mais rápido e disparou uma intensa rajada de fogo contra Paia, envolvendo-o completamente. Enquanto sustentava seu ataque Ignus viu o deus dispersar suas chamas, mas não com tanta facilidade, porém antes que Paia revidasse Ignus disparou um relâmpago que além de afastar o deus ainda fora capaz de destroçar sua armadura, deixando seu tórax totalmente exposto.

A fúria do deus apenas aumentava cada vez que era atingido, a cada golpe que errava, não mais raciocinava, seu único pensamente era aniquilar Ignus da forma mais dolorosa e lenta possível.

– Se continuar assim não creio que esse lugar sobreviverá a fúria de ambos. – Disse Fonan mostrando certa preocupação.
– Esta contenda não deve perdurar por muito mais, irmão, acalma-te e observa. – Disse Zarrantas que deleitava-se com a cena.
– Não estou preocupado nem com este lugar nem com algum deles, apenas acho tudo isso uma grande bobagem.

Por mais que dissesse o contrario o olhar de Fonan demonstrava nitidamente toda sua preocupação, há muito já considerava o plano de Zarrantas um erro, mas agora que o via chegar a seu derradeiro estágio tinha cada vez mais certeza de que as coisas não seguiriam o caminho que haviam planejado.

A sensação de um forte impacto tirou Fonan de seu transe, Paia estava pressionando os dois punhos contra o tórax de Ignus que era pressionado contra um paredão natural de pedra. Usando seu shii o guerreiro conseguiu afastar Paia momentaneamente, mas quando ia esboçar reação, o Deus da Guerra girou e atingiu-lhe um chute, jogando-o novamente contra o paredão.

Vendo-se ser atingido por uma longa seqüência de golpes frontais, Ignus concentrou rapidamente sue shii e expando-o e seguida em forma de explosão, destruindo com facilidade o local onde estava preso e arremessando o deus para longe, dando-lhe alguma segurança.

Mesmo com a visão obscurecida pela imensa nuvem de poeira que se formou, Ignus mantinha sua atenção focada em Paia através da grande energia que o deus desprendia de si, o que permitia-lhe precisar com exatidão a posição do mesmo, inclusive seus movimentos. Não foi difícil para ele saber o momento que Paia evocou um arco e disparou uma flecha em sua direção, entretanto aquela não era uma flecha comum, era uma flecha criada pelo poder de um deus. Na metade de seu trajeto mortal a flecha se multiplicou em várias dezenas, todas com a mesma força da original, além do mais, para a preocupação de Ignus, sua velocidade aumentou consideravelmente.

Agindo impulsivamente o guerreiro simplesmente usou seu shii para impulsioná-lo para frente o mais forte e rápido que pode, fugindo assim do ponto as flechas cairiam, mas para sua surpresa as mesmas mudaram sua trajetória e começaram a segui-lo. Ignus tentou usar seu shii novamente para mantê-lo em sua trajetória e acelerar mais, surpreendeu-se ao notar que conseguira ainda mais do que havia planejado, ele estava voando, voando assim como vira Haldar fazer.

Mesmo aumentando ainda mais sua velocidade notou que as flechas ainda o seguiam e também estavam mais rápidas, então, como uma rápida e bem sucedida manobra ele se lançou contra o deus. Vendo Ignus se aproximar tão velozmente o Paia concentrou em seus punhos um grande quantidade de energia, em sua velocidade atual, Ignus não teria chance de escapar de seu ataque e conseqüentemente seria atingido pelas flechas. Porém Ignus também disso e acelerou ainda mais, viu o golpe de Paia ser desferido impiedosamente, com grande habilidade Ignus não apenas conteve o ataque como também se valeu da força e da velocidade de seu vôo para arremessar Paia contra suas próprias flechas. As dezenas de flechas energéticas atingiram em cheio Paia, perfurando, rasgando e mutilando seu corpo divino violentamente.

– Levante-se, deus. – Ordenou Ignus imperiosamente. – Irei destruí-lo de pé perante os seus, você será a vergonha dos deuses.
– Você não passa de um reles humano. – Disse Paia enquanto se levantava. – Mas sua afronta custará um alto preço.

Em um piscar de olhos Ignus se viu envolto pela energia divina, em um primeiro momento tentou expandir a sua para se proteger de qualquer eventual ataque, mas o deus fora mais rápido e mais afortunado, comprimindo sua energia envolta de Ignus esmagando-o fortemente. Mesmo com toda a força que possuía e empregava naquele momento Ignus não conseguia encontrar uma forma de se ver livre daquela situação, sequer conseguia se concentrar para expandir seu shii e contra atacar. Após pouco tempo o deus explodiu a energia que estava envolta de Ignus, uma profunda e larga cratera se formou, até mesmo os outros deuses que a distância observavam a luta tiveram que se proteger, tamanha fora sua força.

Cada mínima parte do corpo de Ignus estava seriamente abalada, mas ele pouco sentia e pouco se importava tal era seu estado mental e espiritual, completamente focado em seu algoz. Lentamente ele começou a se erguer, com alguma dificuldade, mas rapidamente teve que se jogar para um lado tão logo notou uma nova investida de Paia contra ele. O deus pousou provocando uma forte onda de choque arremessando Ignus para não muito longe, mas distante o suficiente para que ele ao menos pudesse se recompor com um pouco mais de segurança.

Paia agora estava empunhando seus dois machados, Ignus sabia que defender um ataque de qualquer um deles não seria algo, o tamanho e o peso deles aumentaria muito a força de qualquer golpe. Ignus estava desarmado, não conseguira segurar sua espada durante a explosão, muito menos sabia onde ela estava, mas isso não importava, sabia que poderia convocá-la a qualquer momento.

Um dos machados fora arremessado, enquanto cortava o ar girando horizontalmente, o mesmo parecia acumular energia. Mesmo a uma velocidade alta, Ignus não teve dificuldade em desviar do machado, porém logo notou que havia cometido um grave erro, ao se chocar contra o solo a energia acumulada pelo machado fora detonada, gerando uma poderosa explosão, pegando Ignus de surpresa e arremessando-o completamente indefeso em direção a Paia. Ao ver o inimigo vir em sua direção, praticamente de peito aberto, o deus saltou em sua direção erguendo o machado ameaçadoramente. Quando o golpe fatal foi desferido, Ignus demonstrando grande habilidade conseguiu chutar a mão de Paia que segurava o machado, fazendo-o soltar a arma pouco antes de se chocarem em pleno ar e caírem pateticamente no chão.

A indefinição do combate até aquele momento começava a deixar Zarrantas impaciente, porém não tanto quanto Arzac, que por diversas vezes teve de ser detido. Fonan se mostrava preocupado, sabia que aquela luta teria um resultado desastroso, mas ele, assim como os outros presentes estava de mãos atadas, entretanto quando conseguiu captar um lampejo da ansiedade de Zarrantas ficou realmente preocupado.

– Se esse combate infundado continuar por mais tempo, eu pessoalmente hei de pará-lo. – Anunciou Fonan.
– Se vai fazer algo por que não agora? – Questionou irado Arzac.
– Bem sabes, irmão, que intercedo por humanos, no entanto, muito menos me agrada ver um irmão cometendo tamanha insanidade.
– Onde quer chegar, irmão Fonan? Questionou Arzac novamente.
– Paia cometeu um erro grave, agora comete outro, ele será punido em seu devido momento, não posso interferir em seus atos, no entanto minha paciência está quase em seu auge.
– O irmão Fonan, tem razão, irmão Arzac. – Disse Sampouku que até agora só havia se pronunciado uma vez. – O que podemos fazer é aguardar o desfecho de tudo e no devido tempo punirmos Paia.

Um forte som chamou a atenção de todos, Paia afundava a cabeça de Ignus no chão o mais forte que podia, impedindo o mesmo de se levantar. Pondo-se de pé rapidamente Paia começou a chutar Ignus, mais e mais forte, depois, novamente com os pés, afundou ainda mais sua cabeça do desolado solo onde lutavam.

– Esse é o lugar onde você merece estar, prostrado no chão, com a cara enfiada na terra como um verme, chafurdando como um suíno imundo. – Vociferou Paia às gargalhadas.

Por um tempo o deus permaneceu em silêncio, seu adversário jazia no chão, ferido e inerte. O contentamento de finalmente ter subjugado o insolente humano tomou conta de seu ser, sonoramente ele gargalhou e contemplou seus irmãos que o encaravam a distância, não importava se eles aprovavam ou não seu ato, estava feliz consigo mesmo e queria externar tal sentimento. Como um símbolo de sua vitória agarrou Ignus pela cabeça, erguendo-o e exibindo-o como um troféu.

– Tolo inebriado.

As palavras de Fonan penetraram fundo em seus ouvidos, porém ainda mais fundo penetrou a lâmina de Yurian. Lenta e dolorosamente o deus sentiu a espada penetrar seu corpo divino até transpassá-lo por completo, enquanto suas negras chamas ardiam furiosamente. Seus olhos lentamente se viraram, para sua surpresa, Ignus o encarava furiosamente, seu rosto era um misto de sangue, suor e terra, ale de uma profunda ira, instantes depois seu emissário soltou a espada e segurou firmemente a mão que lhe mantinha cativo, uma poderosa energia avermelhada envolveu o punho de Ignus e instantes depois dilacerou aquele pedaço do braço do deus.

Tão logo se viu livre, Ignus passou para trás do deus e empunhou sua espada novamente, segurando-a fortemente com as duas mãos enquanto girava sua lâmina, causando ainda mais dor ao deus. Sem muito esforço ele ergueu o Paia, com sua lâmina ainda fincada em seu corpo, o deus pendeu para trás e viu uma das mãos de Ignus pousar pesadamente sobre seu rosto e disparar um poderoso relâmpago.

Agora era Paia que jazia no chão, seu rosto desfigurado pelo poder de Ignus, seu corpo violado pela brutalidade de um humano, no entanto era seu ego que estava mais ferido.

– Erga-se, Paia, um deus, até mesmo um de seu nível não deve se abalar apenas com isso, ou será que exagerei? – Provocou Ignus.

O deus olhou para seu antigo seguidor e viu a imponência de sempre no semblante de Ignus, mas toda aquela altivez apenas serviu para aumentar, ainda mais, seu ódio e a vontade de matar Ignus.

Enquanto se Paia se erguia Ignus o aguardava impacientemente, queria derrotar o deus, queria humilhá-lo, matá-lo em frente aos seus para que seu nome fosse lembrado eternamente como símbolo de grande vergonha para os deuses.

Mais uma vez Ignus e Paia se encaravam, imóveis e em silêncio, com suas espadas em punho. O deus apenas aguardou enquanto observava seu odiado ex-seguidor atacar-lhe ferozmente, Yurian desenhou no ar um arco mortal descendente visando as pernas de Paia, o deus guerreiro ao invés de bloquear ou desviar simplesmente contra-atacou, com um movimento rápido e preciso atingiu o rosto de Ignus com um chute, fazendo-o tombar para trás. Antes mesmo que atingisse o solo, Paia socou fortemente o abdome de Ignus, aumentando ainda mais o impacto contra o chão e fazendo com que o mesmo afundasse devido a grande força do golpe.

Sem permitir que Ignus tivesse tempo para reagir, o deus ergueu-o pelo pescoço, apertando o máximo que pode, depois arremessou para o alto. Repentinamente sua espada deu lugar a um suntuoso arco, uma flecha energética surgiu enquanto o deus fazia o gesto de como se estivesse colocando-a no arco. O disparo foi feito enquanto Ignus ainda estava no ar, a seta energética cruzou o ar velozmente dividindo-se em várias, tornando-se ainda mais veloz que antes. Ignus teve o corpo atravessado por quase todos os disparos, alguns atingiram-lhe de raspão, mas nenhumas das flechas errou seu alvo. Antes de atingir o chão novamente ainda foi atingido no peito, violentamente, pelo martelo arremessado por Paia.

Apesar da precisão e força dos golpes que recebera Ignus não se deixou abalar, rapidamente se levantou e correu em direção a Paia, sem se importar com seus inúmeros ferimentos. O deus também foi em direção a seu oponente, no entanto, desta vez, seu ataque não foi bem sucedido, Ignus saltou por sobre o deus, esquivando-se habilmente de sua espada, aproveitando a força do impulso inicial atingiu a costas de Paia com um profundo corte, com sua espada em chamas. Tomado pela ira de mais uma vez ter sido atingido pelas costas Paia girou em direção a Ignus, não mais com sua espada, mas empunhando um de sues machados.

Os deuses que atentamente observavam a todo o combate, desde seu início, por várias vezes se surpreenderam com seu desenrolar, porém nada causou-lhes mais espanto do que aquilo. O machado de Paia passou pelo ombro de Ignus cortando-o não muito profundamente, após ser solto depois que seu dono teve o cotovelo destruído por um soco. A força do punho de Ignus aliada a força do braço do deus fez com que o ataque fosse ainda mais potente, o antebraço de Paia agora pendia estranhamente, retorcido para o lado oposto.

Aproveitando a perplexidade de Paia conseguiu arrancar-lhe uma das pernas, com apenas um corte, rápido e seco. O deus foi ao chão, seus olhos arregalados contemplavam o guerreiro que se erguia perante ele, enquanto a lâmina flamejante de sua espada atravessava o corpo divino brutalmente.

 O urro de fúria de Ignus atravessou os ouvidos de Paia, enquanto o guerreiro usava o peso de seu próprio corpo para fincar ainda mais sua espada no deus. A chama escura queimava a uma intensidade que nunca antes Paia sentirá, nem mesma da vez que tentou tomar a espada de Ignus sentiu tamanha agonia, lentamente o fogo o consumia e, pela primeira vez, em toda sua existência, o deus sentia o temor da morte. Em um esforço desesperado Paia agarrou a lâmina com as duas mãos, a fim de tentar tirá-la de si, até conseguia suportar a dor do corte profundo, no entanto o intenso calor das chamas o impedia de fazer qualquer coisa, sequer conseguia concentrar-se para tentar repelir seu algoz.

Vendo a tentativa desesperada do deus de se ver livre, Ignus fincou a espada ainda mais fundo, balançando a lâmina para causar mais dor. Uma vez mais encarou Paia e seus olhares se cruzaram, ambos exibiam um profundo ódio em seus semblantes, mas o ódio do deus era diferente, estava repleto de rancor e principalmente frustração, sempre fora orgulhoso de sua força e sendo um deus, perder para um humano, por mais forte que este fosse, era uma humilhação imensa.

– PARE!

O grito de Samur, desesperado ao ver o irmão ser subjugado de tal forma, conseguiu não apenas chamar a atenção dos outros deuses, mas também a de Paia e, até mesmo, do próprio Ignus.

– Já chega!

Em um ato impensado Samur apontou as mãos para Ignus e conseguiu afastá-lo do irmão, o próprio Paia ficou surpreso com a repentina ajuda, mas sabia que se Ignus não tivesse sido previamente distraído e sua concentração quebrada, a tentativa de Samur teria sido frustrada.

– O que pensa que está fazendo? – Vociferou Ignus furioso pela interferência, enquanto se levantava.
– Você venceu! Superou um deus, orgulhe-se disso, guerreiro!

Calado e ainda tomado de ira Ignus controlou-se e permaneceu onde estava. Olhou profundamente nos olhos de Samur, mas o deus desviou o olhar, o mesmo não foi feito pelos outros deuses que observavam o combate.

– Admita sua derrota, Paia, é o único e mais honrado ato que pode tomar agora. – Disse Sampouku secamente.

Todos olharam para Paia, jazia estirado ao chão, Yurian ainda fincada em peito, completamente vencido. O Deus da Guerra olhou para os irmãos em busca de auxilio, apenas obteve reprovação, todos os deuses presentes pareiam concordar com Samur e Sampouku. Não tinha escolha, por mais doloroso e humilhante que fosse, estava derrotado.

– Eu... Estou... Eu... Reconheço a... Vitória de Ignus.

Admitir a vitória de Ignus era mais fácil do que admitir a própria derrota, uma derrota para um reles humano. Paia sentia-se humilhado, perante seus irmãos e por eles próprios, obrigado a admitir a vitória de um humano, alguém que outrora o servia.

– Isto finda está contenda. – Disse Zarrantas.

Em seu intimo o Rei dos Deuses estava ainda mais frustrado, até mesmo, do que Paia.

– Não é suficiente.

Repentinamente Ignus saltou em direção a sua espada e arrancou-a violentamente do peito do deus, Samur temendo o pior tentou novamente deter Ignus, mas este anteviu que seria atrapalhado, de sua mão um projétil de energia negra foi disparado, atingindo Samur em cheio e arremessando-o para longe. Paia tentou se aproveitar do momento de distração de Ignus para golpeá-lo e matá-lo de uma vez, enquanto erguia sua mão, pouco a pouco, sua espada era materializada, sentiu sua lâmina divina penetrar a carne do ventre do humano, isso lhe deu um imenso prazer.

Arzac viu o exato momento que o irmão acertara Ignus, imediatamente surgiu ao lado deles, mas no instante em que afastaria o humano para impedir sua morte, Ignus fincava sua espada no crânio de Paia ao mesmo tempo que um relâmpago atingia ambos.


Mesmo longe dali Teryon, os companheiros de Ignus e os outros humanos sobreviventes sentiram a grande dispersão de poder, junto com ela um intenso clarão e uma onda de choque que arremessou-os a metros dali, alguns, ao se recomporem olharam na direção de onde ainda podia se sentir uma grande concentração de poder, mas daquela distância nada podiam ver, alguns até mesmo foram até lá, mas a única coisa que conseguiam dizer sobre o que viram, mesmo muito distantes do local onde havia ocorrido o combate, era desolação.

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Assim termina o segunda arco da saga de Ignus. O 3º está ainda, sim, ainda, sendo escrito, não sei quanto tempo levarei para terminá-lo, mas quero fazer o melhor possível para aumentar o nível da narrativa e agradar os que gostam dessa estória. Até o próximo capítulo!

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