[Conto] O Parque Sombrio - 4


Dois corpos.

Fred e Almeida observavam com espanto o segundo corpo no necrotério improvisado no hospital de Paquetá. Era um jovem de pele clara, cabelos negros lisos aparentando dezesseis anos. Nele tinha as mesmas marcas de hematomas da primeira vítima. O legista Abreu observa os amigos com o costume mórbido de quem há anos faz esse serviço, enquanto em paralelo termina com seu sanduíche.
- Porque não nos falou dele antes? - Pergunta Almeida a Dr. Abreu.
- Porque foi encontrado quando estavam na barca. - Responde. - Em uma hora e vinte muita coisa acontece.
- Percebo. - Fala Fred. - Qual o nome dele?
- Marcelo. - Responde Almeida, com lágrimas nos olhos. - Ele é meu amigo de infância.
- Deus! - Brada Fred, assombrado.
- Eu vou pegar esse filho da puta, parceiro... Vou lhe arrancar os bagos pela boca, eu prometo.

Almeida afasta-se do corpo de Marcelo e apoia-se em uma pilastra. Fred o ampara, preocupado com o envolvimento de Almeida no caso. "Espero que consiga manter as estribeiras", pensa enquanto observa Dr. Abreu cobrir novamente o corpo.
- Só existe uma diferença entre esse corpo e o outro. - Diz Abreu.
- Qual? - Pergunta Fred.
- Ele não tem a marca nas costas. E pelo que vi, Marcelo sofreu violência sexual...
- Um assassino gay? - Pergunta Fred.
- Não tenho certeza, encontrei marcas de... bem... ferrugem. - Fala o médico, sem jeito de como falar do estado do amigo de Almeida. - Provavelmente o dano foi causado por um objeto irregular e enferrujado, um cano velho ou sei lá qual objeto, pois não tinha nenhum no local onde o encontramos.
- E onde o encontraram?
- No Darke, como disse há pouco, na trilha para o outro mirante. Estou esperando alguns testes chegarem do continente para confirmar algumas suspeitas minhas.
- Quais seriam? - Questiona Almeida, quase recuperado.
- Que temos dois assassinos, e não apenas um.
- Uma ilhota de merda e dois assassinos? Deve ser coincidência, Abreu. Não tem como ser...
- Fica calmo, ainda é apenas uma suspeita. Só saberei quando os resultados chegarem, até lá vou curtir uns dias em Paquetá às custas do estado.
- Curtir? Você vai é se afogar em cachaça...
- Isso também!

Sem mais o que conversarem com Abreu eles saem da sala. Almeida e Fred fazem anotações em seus blocos e decidem juntos ir até o Darke de Mattos procurarem pistas. Almeida nesse momento se tornava um trunfo no caso, por ser antigo morador, e com a morte de um amigo de infância o crime deixara de ser apenas mais um caso e se tornara pessoal.

O parque já estava fechado desde as dezessete horas, e chegando as dezoito horas não conseguiriam nem encontrar um funcionário no portão. "Não se preocupe, é só pular o muro.", comenta Almeida, enquanto caminha pelo entorno da entrada e encontra rapidamente uma parte do muro possível de pular. Fred reluta um pouco, mas acaba cedendo a curiosidade. Em poucos minutos os dois policiais invadem o parque e caminham com calma pela escuridão que a cada minuto fica mais forte.
- Isso vai dar merda. - Sussurra Fred.
- Porque? - Questiona Almeida. - Faço isso desde pirralho, e pelo menos metade dessa ilha foi fabricada aqui. O Darke a noite é um verdadeiro motel!
- Mas nós somos policiais! Deveríamos ao menos ter pedido autorização ao administrador daqui.
- Você o viu?
- Não.
- Nem eu, então vamos até a segunda trilha logo, procuramos pelo tal cano de ferro e vamos embora daqui. Trouxe lanterna?
- Só celular.
- Eu trouxe, então não atrapalhe, ok? - Almeida saca uma pequena lanterna de bolso e ilumina o rosto de forma sinistra. - Eu sou o assassino do Darke! Buuuuuuu!
- Qual a sua idade Almeida? Dez anos?
- Em cada perna. - Responde Almeida. - Fred, já te falei que você é muito babaca?
- Hoje ainda não.

Os policiais chegam sem serem pertubados rapidamente ao início da trilha do segundo mirante. Menos fanfarrão Almeida passa a utilizar a lanterna do jeito tradicional e segue a trilha deixada pelos policiais militares quando recolheram o corpo. Depois de alguns metros subindo chegam ao mirante e encontram a marca de giz no chão feita pelos primeiros peritos.
- Consegue ver aqui no escuro? - Pergunta Almeida, sem saber se o ângulo da lanterna é bom para o amigo.
- Consigo, além da lanterna a noite está clara por causa da lua.
- É verdade... - Balbucia Almeida, observando a lua cheia sem dar muita importância. - Fred, onde você colocaria uma arma de crime?
- Porque me pergunta isso? Eu não sou o assassino...
- Mas você tem TOC, e loucura por loucura serve a sua...

Depois de quase uma hora de procura minuciosa nada é encontrado. Nenhuma pista foi deixada pelo assassino, nenhum galho quebrado significativo e nem mesmo uma pegada existe que não as das botas policiais. "A pior merda que tem aqui nesse país é ser investigador! Proteger a cena do crime e nada são sinônimos...", reclama Fred enquanto sobe o mirante e observa o parque do alto.
- O que seus olhos policiais podem ver?
- Eu vejo... nada!
- Eu...

A frase de Almeida é interrompida pelo eco de uma gargalha sinistra.

Os dois não estão sozinhos.

Continua...

Outras Partes de "O Parque Sombrio":
- Parte 1;
- Parte 2;
- Parte 3;
- Parte 4;
- Parte 5 (novo);

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