O Mito da Imparcilidade.

Aposto que muitos, se não todos, já ouviram falar nessa tal de imparcialidade. Vocês sabem, aquilo sobre não assumir partido sobre nenhum dos lados em uma discussão. Pois é, saiba que isso não existe, não importa em qual âmbito se esteja, imparcialidade é algo que não existe. Principalmente no meio jornalístico

Vou tentar explicar, pegue um crítico musical, independente de sua especialidade, na teoria, ele deveria analisar um disco de acordo com seus conhecimentos. Se instrumentos e voz estão harmônicos, se estão bem afinados, se a melodia e letra combinam, se a letra é boa, a técnica utilizada, dentre tantas outras coisas.

Da mesma forma um crítico de cinema, ao analisar um filme ele vê diversos aspectos, atuações, roteiro, direção, fotografia, maquiagem, montagem, tudo tem de ser bem estudado para se fazer uma boa análise.

Mas é justamente ai que está o grande porém, afinal, ninguém faz isso. Quando você critica algo, você o faz de acordo com seus gostos pessoais, não adianta dizer o contrário, todos fazem isso. Se um crítico de cinema analisa um filme, ele falará de aspectos técnicos, mas além disso ele falará do filme segundo sua opinião. O mesmo para o crítico musical, por melhor que seja uma canção, por mais bem executada que ela seja e melhores os músicos, se ele não gostar, ele não irá dar uma crítica favorável.

Da mesma forma acontece com o jornalismo. Um jornalista, na teoria, teria de ser o mais imparcial possível, para tentar narrar fatos da forma como eles são. No entanto não é o que acontece, seja por conta de coisas que ele acredite, ou seja por imposição, o jornalismo brasileiro vem sofrendo muito por conta disso. Ao invés de informar, denunciar e mostrar como as coisas acontecem, parecem estar sempre querendo desviar a atenção dos fatos, torcendo uma coisa aqui outra ali, mostrar que não é bem assim.

Veja o que ocorre atualmente no Rio de Janeiro. Pergunte a qualquer cidadão sensato e trabalhador como ele vê a situação do município do Rio. As respostas não serão nada animadoras, desde o caos no trânsito, por obras que paralisem a cidade, fechamento de vias importantes sem que alternativas tenham sido previamente criadas, até os já conhecidos problemas na saúde e na segurança.

Boa parte da imprensa parece não ver essas coisas acontecendo, ou simplesmente não quer ver, sequer que o povo se de conta disso, sendo que tudo está a olhos vistos, basta uma rápida caminhada pelo centro da cidade, ou alguns bairros do subúrbio. Tirando alguns casos mais gritantes, parece que sempre está tudo bem com o Rio. Capas de jornais mostrando praias lotadas, gente feliz com o calor infernal que tem feito nesse ano, futebol, novela... 

Revista semanais? As mais lidas sempre abordam temas irrelevantes, ou quando falam de algo sério, parecem estar sobre a batuta de algum extremista político, sempre defendendo os seus.

Por isso, nunca confie na imparcialidade das coisas, nem na de ninguém, todos falamos de algo baseados em nossos gostos pessoais, nossas filosofias. Imparcialidade é algo que funciona muito bem e é bonitinho na teoria, pois na prática, se um dia houve, hoje em dia ela foi esquecida e não passa de uma palavra no dicionário.
Leia o Restante.

Orquestra Sinfônica Brasileira: Carta Aberta ao Eduardo Paes (e outros do tipo).


Prezado Prefeito,  

Essa semana correu os portais e blogs de notícias sobre infelizes declarações que proferiu a respeito da justificativa do injustificável corte de oito milhões da verba da Prefeitura destinada a Orquestra Sinfônica Brasileira.

Para tanto, devo lembrá-lo e a seus pares que ainda que almeje vender-se como um prefeito gestor não necessariamente isso transforma a prefeitura do Rio de Janeiro em um balcão de negócios cujo objetivo é o lucro financeiro (ou o resultado financeiro). Não, caro prefeito, esse pensamento está errado.

O objetivo de um prefeito é (ou deveria ser) administrar a cidade para os cidadãos, sejam eles de alguma maioria ou a minoria. E ainda que queira administrar a cidade como um empreendimento, continua errando.

A cidade vende a cidade. Vende tanto a Zona Sul quanto a Zona Norte, Zona Oeste, etc. Tudo está interligado. Cito um restaurante, por exemplo, não adianta nada o restaurante investir em reformar a fachada e não reformar o interior. Reformar a fachada e o interior e não reformar a cozinha. Reformar a fachada, interior, cozinha e seja lá mais o que na infraestrutura e deixar de lado outros aspectos e saber que justamente aquele que você não enxergou (como um funcionário displicente ou mal educado) que pode simplesmente colocar todo o investimento a perder em um simples ato (como ofender um cliente influente que leve a falência do restaurante em um processo moral).

É isso. Justamente por esse trabalho, e pela magnitude dele (pois não se trata de um restaurante), que a lei lhe permite a contratação de assessores, subprefeitos e outros tipos de profissionais técnicos e políticos para justamente evitar que situações como essa ocorram.

Não adianta querer se comparar a Carlos Lacerda, que demoliu a cidade e fez outra. Cesar Maia, seu tutor político, tentou e falhou. São outros tempos, outras cabeças e outras prioridades. Ao deixar que seu legado político se resuma a intervenções de infraestrutura pontual (zona sul e região portuária) é reduzir toda a importância do cargo a uma subprefeitura ou duas. É se apequenar diante do todo.

Daí causa-me espanto quando diz "dinheiro público tem que ser investido em coisas que de fato deem projeção à cidade", e ainda apregoa fundir a OSB com a OPES. O que se percebe na prática em suas declarações? Que ricos que gastam em Miami dão muito mais projeção a cidade do que pobres que gastam em Quintino? Que quem dirige de Land-Rover na Avenida Vieira Souto tem mais projeção que o incauto de Fusca na Rua Dias da Cruz? Que São Paulo deve ser unido ao Amapá para solucionar o problema da desiguldade social? Que o apartamento de seu líder partidário, Sérgio Cabral (então vulgo Governador do Rio de Janeiro), deve ser anexado a um da Rocinha para garantir a projeção dos moradores da comunidade?

Não, senhor prefeito, isso está errado. Dinheiro público tem que ser investido em algo que dê retorno a sociedade e, principalmente, as comunidades que a compõe. E "comunidade" parte de um conceito muito mais amplo do que a ligação permiciosa que fizeram a favelas apenas para mudar a roupagem do preconceito.

Se outros eventos musicais conseguem se manter sem grande investimento público, é obrigação da prefeitura ajudar outros movimentos que não se sustentem para que a prefeitura obtenha seu objetivo constitucional enquanto parte do Estado: a igualdade. Aquela definição defendida por juristas e não juristas (e principal justificativa da política de cotas): atingir a igualdade tratando os desiguais com desigualdade para obter a igualdade.

Espero que se retrate, que pare de errar e usar de muleta os eventos internacionais. Porque se eles trazem tanta projeção, não deveria nem se preocupar em obter verba desviando-a de outros usos (pois pela sua lógica, ela surgiria como se por magia devido a "projeção").

Não cola.

Porque pode parecer tanto má fé quanto ser apenas péssimo assessoramento. E assessoria é cargo de livre nomeação e exoneração, logo, nesse sentido algo pode ser feito. E não imagino que o prefeito daria tais declarações de má fé ou fundamentado em preconceito com o "diferente" ou tido como "impopular".

Estaria equivocado?

Prove-me.

Lembrando que a Lei de Diretrizes Orçamentárias do Rio de Janeiro tinha um orçamento de R$ 72.739.524.652,00, e R$ 8.000.000,00 mal representa 0,01% do Orçamento (espero não ter errado a conta).

Fontes:
- RIO DE JANEIRO, Lei 6.380 de 09 de Janeiro de 2013. Prefeitura do Rio. Disponível em <http://download.rj.gov.br/documentos/10112/186190/DLFE-57612.pdf/Livro_LOA_2013.pdf>, acesso em 02/05/2013;
- MARINI, Íris. Prefeito Eduardo Paes pretende fundir OSB com Opes. Jornal do Brasil. Disponível em: <http://www.jb.com.br/rio/noticias/2013/04/30/prefeito-eduardo-paes-pretende-fundir-osb-com-opes/>, acesso 02/05/2013.
- NICZ, Alvacir Alfredo. O Princípio da Igualdade e sua significação no estado democrático de direito. Âmbito Jurídico. Disponível em:  <http://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=8420&revista_caderno=9>, acesso em 02/05/2013.
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Forjando Um Guerreiro: Aço e Fornalha - Última Parte

Elos Destruídos


A chama de uma vela ou até mesmo de uma tocha podem ser domadas, em geral são calmas e constantes e servem para iluminar caminhos. Uma fogueira, no entanto, pode ser uma força indomável, quanto mais alimentada maior será a força com que arderá, maior seu calor e sua imponência. Porém qual o melhor alimento para intensificar o fogo? Naquele dia e naquele lugar a fúria.

O rugido intenso das chamas que rapidamente consumiam o corpo de Haldar soava horrendo e pavoroso. O olhar de Ignus perante a cena era um olhar sádico, parecia apreciar cada instante da morte de seu ex-mestre sem nenhum traço de arrependimento. Em momento algum parecia querer se afastar dali, apenas contemplava o corpo de Haldar ser carbonizado pouco a pouco.

Enquanto observava a tudo contente por ter presenciado um belo espetáculo, Zarrantas notou o nítido desconforto de Paia, estava incomodado e inquieto, com certeza esse não era o resultado que ele esperava. Mas um gesto de seu irmão ainda o inquietava, quando Ignus deu o golpe derradeiro em Haldar, Paia teve um pequeno espasmo, no instante seguinte sua expressão mudou drasticamente.

– Um desfecho deveras inusitado para um combate deste nível, não concordam? – Perguntou Zarrantas.

A concordância só não foi unânime, pois Paia preferiu nada responder, porém seu silêncio dizia muito mais do que qualquer palavra.


–Aproxime-se, Ignus.

Embora não estivesse satisfeito com o resultado o Deus da Guerra não poderia se recusar a reconhecer a vitória de Ignus, e por mais que desprezasse a idéia, seria obrigado a torná-lo seu avatar, sua palavra e a presença de Zarrantas o obrigava a isso. O Rei dos Deuses era conhecido por nunca ter descumprido algo que dissera, então cobrava o mesmo dos outros deuses.

Mesmo completamente sujo e com a aparência em frangalhos Ignus parecia imponente e inabalável, até mesmo perante os deuses e nobres presentes. Seus companheiros olhavam orgulhosos para ele, mas no fundo lamentavam a perda de Haldar, há quem muito respeitavam e admiravam.

– Hoje, perante os olhos de nobres, companheiros e deuses, provaste teu valor. – Disse Paia seguido por uma salva de palmas de alguns dos presentes. – Em um combate intenso e justo superou teu oponente e agora receberá o reconhecimento por isso.

Elevando sua aura Paia envolveu Ignus com sua energia e curou todas as feridas de seu servo, deixando-o intacto como se nunca houvesse entrado em combate algum, até mesmo sentia-se mais disposto. A energia do deus foi se elevando cada vez mais e Ignus se sentia cada vez mais envolvido por ela, pouco a pouco sentiu a imensa aura divina mesclar-se a sua, tornando-se uma só. Após alguns poucos minutos o elo feito entre os dois foi cortado, a energia que Paia havia irradiado agora fazia parte de Ignus, tornando o guerreiro um ser, agora, mais próximo dos deuses.

– Parabéns, Ignus!

Alguns de seus companheiros que estavam presentes, logo após o término da cerimônia foram cumprimentá-lo, apesar de naquele dia terem perdido um grande amigo, e muitas vezes, também, um mentor, sentiam-se felizes pela vitória de Ignus.

– Obrigado, Rulgam! – Agradeceu sinceramente.
– Sem dúvida uma vitória incontestável. – Disse Aldo.
– Creio que se tivesse outro adversário que não Haldar minha vitória não teria o mesmo valor. – Comentou Ignus secamente.
– Hoje perdemos um companheiro, mas este teve um fim digno, superado por um antigo discípulo e morto em um combate justo e honroso. – Disse Rulgam.

Para um guerreiro morrer em batalha era uma forma honrosa de findar sua existência, pois morriam enquanto faziam aquilo que mais gostavam, lutar.

Reunidos todos olharam para o lugar onde Haldar havia perecido, a pira flamejante que se tornou seu corpo havia se extinguido, seu corpo já estava completamente consumido pela fúria das chamas. O vento que soprava agora carregava suas cinzas, um funeral digno de um guerreiro, pensavam seus companheiros, pesarosos pela perda do companheiro, mas contentes por saberem que sua partida havia sido de forma honrada e justa.

– Parabéns, Ignus. – Cumprimentou-lhe Teryon, surpreendendo a todos que naquele momento olhavam em silêncio para as cinzas de Haldar.
– Obrigado, Teryon! – Agradeceu Ignus.
– Um combate interessante, devo admitir, mesmo não sendo muito a favor de batalhas. – Disse com seu típico tom sincero e seco.
 – Fico satisfeito que tenha apreciado a luta, pois realmente, necromantes não costumam ter o apresso que temos pelo combate. – Respondeu Ignus.
– O que não me impede de reconhecer um bom duelo, ainda mais com oponentes de alto nível, além disso, sua vitória foi justa...
– Concordo! – Disse Aldo interrompendo Teryon. – Por mais forte e experiente que Haldar fosse, você o superou, provou tê-lo superado em força e habilidade. Só lamento pela perda do grande e valoroso que era.
– Verdade, no entanto a perda de Haldar poderia ter sido evitada. – Disse Teryon distraidamente.

A perplexidade no olhar dos guerreiros foi inevitável, até mesmo Ignus se mostrou surpreso, não conseguia, naquele momento, entender como poderia haver possibilidade de Haldar ainda estar vivo. As perguntas não tardaram a vir, logo Teryon estava perante uma enxurrada de questionamentos, mas esperou que todos se acalmassem para que pudesse responder.

– A superioridade de Ignus é um fato, mas o combate não foi justo, ao menos não até o fim. – Disse Teryon e os guerreiros não notaram o menor sinal de que ele poderia estar mentindo, mas a falta de uma explicação os fazia duvidar.
– Teryon, mesmo conhecendo sua fama de não mentir, ainda assim é difícil compreender isso. – Disse Ignus.
– Uma coisa posso dizer-lhes com certeza, Haldar não lutou sozinho, não por sua própria vontade.

Novamente todos se entre olharam questionando-se sobre as palavras do necromante, como Haldar poderia ter tido algum tipo de ajuda? Todos estavam completamente atentos ao combate, era impossível Haldar ter recebido qualquer tipo de auxílio, todos teriam notado tal fato.

– O que você sabe? – Questionou Rulgam irritado.
– Sei aquilo que vi e senti, até certo momento a luta foi entre Haldar e Ignus, porém em um determinado ponto houve interferência externa a favor de seu companheiro derrotado.
– A recuperação e reação repentina de Haldar foram realmente estranhas e surpreendentes, porém isso por si só não explica nem prova que houve qualquer interferência, então como podemos ter certeza se o que disse é verdade, necromante? – Perguntou Aldo, mesmo este também já conhecendo a fama de Teryon de nunca mentir.
– Ignus poderia confirmar tal fato, mas creio que ele estava focado demais no combate para ter notado qualquer outra coisa. – Respondeu Teryon olhando nos olhos de Ignus e vendo o mesmo concordar. – Até mesmo vocês teriam notado, com um pouco mais de dificuldade, claro, mas assim como ele – indicou Ignus com uma das mãos – prestavam atenção demais no combate para terem visto qualquer interferência.
– Maldito, se sabe o que aconteceu por que não diz logo? – Enfureceu-se Rulgam.
– Porque sei que não acreditarão em mim mais do que já acreditam. No entanto se querem mesmo saber o que aconteceu aqui aconselho que perguntem há um dos presentes, se eu notei, outro deve ter notado.

A cerimônia de consagração de Ignus como avatar aconteceria em breve, mesmo recebendo o reconhecimento imediato após a luta, ainda deveria ter um cerimônia oficial, como mandava a regra. Somente na cerimônia oficial Ignus receberia seu novo título de forma definitiva, além dos poderes e conhecimentos necessários para um avatar, mesmo já tendo recebido parte disso através do shii recebido de Paia, que agora fazia parte do seu.

Mesmo estando a poucos dias de se tornar um avatar tal fato parecia não chamar-lhe a atenção, no entanto as palavras de Teryon ainda ressoavam em sua mente, como se tivesse acabado de ouvi-las. Mentalizava a luta, movimento por movimento, passo por passo, mas nada do que se lembrava denunciava qualquer tipo de interferência a favor de Haldar. A única coisa que ainda não entendia era sua miraculosa recuperação, tinha certeza de que Haldar estava completamente sem forças, não havia como estar blefando, mas agora não conseguia em outra coisa que não um embuste muito bem arquitetado. Mas se aquilo realmente foi uma encenação, então como Teryon afirmava com tanta segurança que houve interferência?

Perdido em seus pensamentos Ignus demorou a perceber que batiam a porta de seu alojamento, era um mensageiro e pareceu assustado ao ver o rosto do guerreiro. Trazia uma mensagem de que o Oráculo estaria disponível para ele na manhã seguinte, Ignus não entendeu porque teria de ver o oráculo, ao que o mensageiro explicou-lhe ser uma tradição, o Oráculo deveria prever a boa sorte do futuro avatar.

– E se o que o futuro me reserva não for algo bom? – Questionou Ignus com um sorriso malicioso no rosto.
– Te... Tem que ser, senhor. – Respondeu o mensageiro repleto de receio.

Após agradecer pela mensagem Ignus viu o pobre mensageiro partir às pressas, então permitiu-se perder novamente em seus pensamentos até adormecer.

Na manhã seguinte após o desjejum Ignus aguardava o Oráculo em uma sala reservada, não havia guardas nas portas, muito menos no corredor, o local estava completamente isolado. Um dos criados do Oráculo entrou primeiro, trazia alguns rolos de pergaminho, tinta e penas, outro entrou logo depois carregando um suntuoso aparelho de chá, colocando-o cuidadosamente no centro da mesa. Após a saída dos dois o Oráculo finalmente apareceu, não usava seu típico manto esfarrapado, mas outro de melhor aparência.

– É um prazer revê-lo, Ignus. Chá? – Ofereceu o Oráculo após cumprimentar o guerreiro.
– Não, obrigado. – Recusou gentilmente Ignus.
– Vejo que tem muitos questionamentos, meu jovem, sua expressão mostra que sua mente está um tanto confusa.

A voz do Oráculo não soava como das outras vezes, seu tom era completamente diferente, soava mais altivo e imponente, não havia um traço sequer do cinismo habitual.

– Apenas uma coisa me inquieta atualmente, o que me foi dito por Teryon, o necromante.
– Sobre a possibilidade de seu antigo mestre ainda estar vivo, certo?

A surpresa no rosto de Ignus era notória, como ele poderia saber? Oráculos costumavam ser apenas adivinhos quando muito meros conselheiros, como este poderia saber exatamente o que fora discutido entre duas pessoas?

– Como sei disso é algo não convém agora você saber, creio que antes gostaria de saber exatamente o que Teryon quis dizer, estou errado?

O tom de voz do oráculo não demonstrava malícia, mas sim preocupação, mesmo ele sendo quem era já não tinha certeza se o que fazia era o certo.

– Vá direto ao ponto. – Disse Ignus decididamente.
– Haldar foi possuído, controlaram seu corpo para que o mesmo te derrotasse, o que não aconteceu.

A revelação abriu a mente de Ignus, agora entendia como repentinamente Haldar se reergueu e começou a lutar de forma diferente, tudo fazia sentido.

– Quem fez isso? – Questionou Ignus.
– Infelizmente, guerreiro, não cabe a mim revelar-te isso. – Respondeu secamente o Oráculo para em seguida degustar um gole do chá fumegante.
– O que quer dizer com isso? – Perguntou Ignus nitidamente irritado.
– Exatamente o que disse antes, que não cabe a mim revelar quem fez tal coisa a seu falecido mestre.

A irritação de Ignus apenas aumentava conforme o Oráculo recusava-se a dizer quem possuíra o corpo de Haldar durante o combate, o sentimento era tamanho que o shii do guerreiro transbordava violentamente, fazendo alguns objetos tremerem e sofrer pequenas rachaduras. No entanto o Oráculo permanecia sereno em sua cadeira, degustando calmamente sua xícara de chá, observando atentamente a ira do guerreiro.

– Te mataria agora mesmo se isso fosse possível. – Declarou Ignus sem nenhum temor.
– E por que não o faz? – Perguntou o Oráculo recostando-se ainda mais na cadeira parecendo apreciar o momento.
– O oráculo que nunca erra uma previsão, um ser famoso e misterioso, além de grande adivinho também conhecedor de eventos passados, qualidades incomuns para um mero humano, coisa que você não é. – Disse Ignus com firmeza desafiadora na voz.
– E o que lhe faz pensar que sou diferente?
– Depois de tanto lidar com seres com capacidades extraordinárias e deuses, seria vergonhoso não ser capaz de distinguir um.
– Um...?
– Não se faça de tolo, sei muito bem que você é um deus, mesmo ocultando sua verdadeira forma e poder o shii que emana de você é poderoso demais para não pertencer a um deus. – Explicou Ignus olhando nos olhos do Oráculo.
– Hoje os tempos são outros, muitos humanos conseguem atingir níveis de poder altíssimos, muitos chegam a tal nível que conseguem, até mesmo, superar alguns deuses. – Respondeu o Oráculo.
– Mesmo assim são poucos que conseguem tamanho feito, além do mais, o shii de vocês, deuses, é diferente, é impossível confundir um deus que sempre foi deus com um humano com poder equivalente.
– Você é realmente um indivíduo fascinante, Ignus, nunca foi um humano comum, nada na sua vida foi como na vida de outros. Superou mazelas terríveis e chegou onde está hoje.

O guerreiro apenas observou o deus sem nada dizer.

– Embora vocês humanos vivam indefinidamente muitos não alcançam uma idade tão avançada quanto a sua por diversos motivos, no entanto, justamente você, que sofreu várias tentativas de aborto, quase foi assassinado pelo próprio pai e seu bando, enfrentou batalhas contra exércitos inteiros, dentre outras coisas, continua vivo e lúcido.
– Aonde quer chegar? – Perguntou Ignus.
– Já é estranho que alguém passe por tantas dificuldades em sua vida e continue vivo para contar, não crê que seja o momento de parar?
– Parar? Por que deveria?
– Até hoje, por mais estranho que soe, sempre superou todas as adversidades, mas até quando?

Por um momento Ignus ficou pensativo, afinal o que o deus disse fazia sentido, até quando? Mas por mais que pensasse a incerteza era única resposta que tinha. Mesmo já tendo sofrido algumas derrotas nenhuma havia sido fatal, no entanto esse dia chegaria, sedo ou tarde, mas chegaria.

Enquanto via o guerreiro meditar o deus se levantou e calmamente dirigiu-se a saída, Ignus ainda perdido em seus pensamentos mal notou. Finalmente quando saiu de seu próprio transe, o guerreiro notou que o Oráculo já estava na porta, pensou em chamar-lhe, mas desistiu. Porém o deus ainda se voltou para ele e contemplou o semblante decidido de Ignus.

– Se ainda estiver disposto a saber o que houve com Haldar sugiro que fale com Zarrantas, o Rei dos Deus com certeza poderá lhe dizer sem reservas o que houve exatamente naquele dia.

Seguindo o conselho do Oráculo Ignus procurou Zarrantas, entretanto após algum tempo se deu conta do quanto sua busca era difícil, Zarrantas não era um deus qualquer apenas por sua posição como rei dos deuses, mas também por ser um deus recluso e reservado. Suas aparições eram raras, mesmo em ambientes fechados, ninguém sabia como encontrá-lo, até mesmo alguns deuses desconheciam alguma forma de localizar seu rei.

A tarefa de Ignus se fazia ainda mais difícil pelo fato do mesmo conhecer poucos deuses, além disso, qual deus o levaria ao encontro de Zarrantas sabendo que ele não possuía nenhum apreço por humanos. Sabendo disso Ignus se via sem esperanças de descobrir o que houve durante seu combate com Haldar, pois quem saberia dizer o paradeiro justo do Rei dos Deuses?

– Parece preocupado, Ignus, o que houve?

Um de seus companheiros de ordem vagava distraidamente pelas ruas da cidade onde se encontrava quando avistou Ignus, nunca havia visto tal expressão no rosto do colega. Ao questionar o que se passava Ignus explicou-lhe sobre sua procura por Zarrantas, não explicou, porém, o motivo.

– Há rumores de que ele esteja nas terras dominadas pela força de Artan, mas não se sabe onde exatamente. – Disse o companheiro de Ignus.
– Os domínios de Artan são bem vastos e, se o que dizem é verdade cada dia mais aumentam.
– A sede de poder dele parece não encontrar limites, é impressionante como consegue tantos aliados e como derrota com tanta facilidade seus opositores.

Despedindo-se do companheiro Ignus lhe agradeceu, mesmo ainda não tendo a informação exata ao menos agora tinha uma direção que poderia seguir. Sem perder tempo tomou um cavalo e foi em direção a um dos reinos dominados por Artan, o mais próximo dali era um reino que servia de morada ao deus Alptraum des Meeres. Era uma um reino litorâneo formado por três cidades, todas tinham grande atividade portuária e o comércio local era próspero. Se Zarrantas realmente estivesse em um dos reinos dominados pelas forças de Artan aquele poderia ser o local onde estava, afinal, Zarrantas não se daria ao trabalho de visitar um reino que na pertencesse a um deus.

Após algumas horas de intensa cavalgada Ignus pode ver a entrada do reino, a alta muralha era bem guardada, havia guaridas espalhadas em distâncias regulares, o número de soldados que vigiavam o local era impressionante. O portão de entrada estava erguido e caravanas entravam e saiam a todo o tempo, mas a vigilância era intensa, ninguém entrava ou saia do local sem ser vistoriado antes.

 – Saudações, guerreiro, o que o trás a nossos domínios? – Questionou um dos guardas que abordou Ignus.
– Soube que o Rei dos Deuses pode estar nessa região, é verdade?

O misto de surpresa e apreensão nos rostos dos guardas era nítido, a simples menção de Zarrantas causava muito espanto e até pavor em alguns, como foi o caso dos que estavam próximos e ouviram a conversa.

– Nenhuma comitiva real ou divina passou por aqui nos últimos dias, guerreiro, lhe deram um informação incorreta. – Disse um dos guardas de forma insegura e um tanto relutante.
– Zarrantas não é conhecido por ter comitivas escoltando-o, ele pode muito bem estar em seu território sem, obrigatoriamente, ter passado por vocês.

O que Ignus disse fazia sentido, concordaram os guardas, mas mesmo assim a afirmação de que o Rei dos Deuses estaria ali era um absurdo, eles saberiam de tal fato caso o mesmo fosse verdade.

– Por acaso Alpatraum des Meeres se encontra por aqui? – Perguntou Ignus.
– Sim, está.
– Então a chance de Zarrantas estar aqui é grande. Poderiam permitir minha entrada?
– Já sabemos o que deseja, por mais estranho que seja, mas ainda não sabemos quem é, guerreiro.
– Sou Ignus, Emissário do Deus da Guerra, Paia.

Somente a menção de seu nome já fez os guardas ficarem apreensivos, a fama de Ignus era extensa e todos conheciam seu nome e alguns de seus feitos, por isso mesmo muitos o temiam. Rapidamente permitiram sua entrada, não havia nenhum atrito entre as forças de ambos os lados que impedisse a passagem de Ignus, mesmo que houvesse, aqueles soldados não estavam dispostos a entrar em um combate desnecessário do qual sabiam que não sairiam vitoriosos.

Dentro da cidade Ignus observou o grande vai e vem de pessoas para todos os lados, o movimento nas ruas era intenso, praticamente impossível de ver alguém parado por mais de dois minutos. Carroças de diversos tamanhos circulavam em todas as direções levando e trazendo carga do porto, boa parte eram caixas fechadas, mas também havia grande quantidade de fardos de tecidos de um mesmo tipo, além de sacos e mais sacos de especiarias.

Apesar do grande volume de gente o local parecia muito bem vigiado, guardas circulavam entre a multidão, outros estavam colocados em postos estratégicos, nada parecia passar desapercebido.

As ruas eram largas, mas a grande movimentação tornava impossível cavalgar por elas e para sua sorte não foi difícil encontrar um estábulo, havia um estrategicamente colocado a direita do portão principal. A um primeiro olhar não parecia muito grande, no entanto tão logo se aproximou mais, Ignus pode ver que o local possuía dois pavimentos, sendo um subterrâneo. As baias eram bem espaçosas e confortáveis para os cavalos, o local estava bem cheio e também a movimentação era grande a todo o momento alguém partia enquanto outro cavaleiro chegava.

– É um belo animal! – Comentou um dos responsáveis pelo local que auxiliava Ignus.
– Sim, é e bem resistente.
– Não se preocupe, aqui ele ficará seguro, há água no cocho logo atrás e também um pouco de feno, mas se preferir podemos providenciar algo melhor para ele comer.

Deixando algumas moedas com um dos cuidadores Ignus partiu em direção ao palácio, a caminhada seria longa, além do fato de ter que enfrentar a balburdia natural das ruas o palácio ficava mais afastado dali, numa parte mais elevada do terreno. Enquanto seguia o guerreiro tinha a nítida impressão que estava sendo observado, porém o grande volume de pessoas impedia-o de conseguir detectar algo com mais precisão. Por várias vezes olhou para trás e poderia jurar ver alguém seguindo-o tranqüilamente apesar do fluxo intenso, mas no instante seguinte esse mesmo ser parecia simplesmente ter desaparecido.

Quando se aproximou do castelo notou que o aceso até ali era restrito, um portão e um muro separavam seus arredores do restante da cidade, possivelmente apenas soldados e pessoas com autorização especial tinham acesso aquela parte da cidade. Sem precisar se concentrar muito Ignus sentiu com clareza uma poderosa presença, provavelmente a do deus local, porém a que chamava mais a atenção era uma energia muito maior e intensa que não fazia questão de se ocultar, a de Zarrantas.

– Alto! Quem é e o que deseja?

Dois soldados estavam de guarda no portão, ao ver aproximação de Ignus logo cruzaram as lanças, um claro sinal de que a entrada ali não era permitida.

– Sou Ignus, Emissário do Deus da Guerra. Venho à procura de Zarrantas, Rei dos Deuses, que nesse momento está com seu soberano e deus.

Os soldados se entre olharam, a informação era verídica, porém sigilosa. Não sabiam como agir naquele momento, já que não foram instruídos sobre a chegada de nenhum convidado, no entanto preferiram permitir sua passagem, afinal, sabiam quem era Ignus e assim como os soldados da entrada da cidade, estes também queriam evitar qualquer tipo de incidente diplomático.


– Devo me preocupar com isso?

Em seu salão de reuniões Alptraum parecia preocupado, as notícias que Zarrantas trazia não lhe pareciam muito animadoras, mesmo assim mantinha inabalável por fora. As visitas do Rei dos Deuses eram raras e ultimamente nuca eram um bom sinal.

– De fato, irmão meu, acontecimentos vindouros demandam grande cautela, creio que todos nós seremos afetados.

Mesmo falando sobre um suposto risco que muitos corriam em um futuro breve, Zarrantas parecia inquietantemente calmo demais, tal tranqüilidade não trazia nenhuma segurança para Alptraum.

– Não quero soar insolente, Rei, mas diferente de ti tenho um séquito e tenho que zelar por eles, se algo tão preocupante assim pode acontecer para você vir até mim dizer, então a coisa pode ser ainda pior do que demonstra ser. – Disse Alptraum olhando severamente para Zarrantas.
– Nunca pude compreender vossa predileção pelos humanos. Selvagens, tolos e fracos, que utilidade essas bestas possuem? – Questionou Zarrantas.
– Eles são bem úteis, às vezes, mas admito que hajam alguns repugnantes entre eles.
– Tudo o que sabem fazer é guerra e perverter a criação de nossos irmãos...
– E o que me diz de Cryo? – Questionou Alptraum interrompendo Zarrantas.
– Falas da serva do irmão Hantar?
– Exatamente, não foi ela que o salvou certa vez?
– Hantar fora um tolo, seu erro quase custou-lhe a existência, porém uma sacerdotisa humana conseguiu salvar-lhe usando sua própria essência, um ato surpreendente e louvável, ainda mais vindo de uma inferior como ela. No entanto não passa de mera exceção.
– Assim como ela muitos humanos conseguiram alcançar níveis de poder bem elevados, equiparando-se a muitos de nossos irmãos. – Observou Alptraum.
– Como havia dito, mera exceção. – Respondeu Zarrantas secamente.
– E o que me diz de Fonan Drax?
– Irmão Fonan partilha de meu ponto de vista, embora não concorde com sua excentricidade de admiração por pássaros.
– Não acha estranho, Rei Zarrantas, que justo alguém como ele, que muitos têm como seu braço direito, tenha se envolvido com uma humana?

A provocação não passou despercebida e a irritação no olhar de Zarrantas era nítida, todo o palácio pareceu tremer levemente por um instante.

– Onde queres chegar com isso, Alptraum? – Questionou Zarrantas profundamente irritado.
– Sei bem que Fonan e vossa majestade partilham do repúdio pelos humanos, assim como muitos outros deuses, sei também de seu respeito à Cryo pelo que ela fez a Hantar, mas ainda assim Cryo é uma humana, não considera estranho o envolvimento de Fonan com ela?
– Como bem disseste, irmão, respeito Cryo pelo seu ato para com nosso irmão Hantar, seu modo de pensar e agir a diferem e muito de sua raça, além do mais, possui conhecimento e força que jamais outro humano será capaz de atingir. – Respondeu Zarrantas, contendo-se ao máximo. – Porém devo admitir que fico mui surpreso com seu envolvimento com Fonan, afinal, muitas vezes ele próprio demonstra mais repulsa pela humanidade que qualquer outro.
– Ao que parece Fonan pode estar reconsiderando seu modo de pensar...
– Este teu discurso nos levará a algum lugar? – Perguntou Zarrantas? Interrompendo Alptraum.
– Creio que não, majestade, desculpe por minha insolência. – Respondeu Alptraum fazendo uma reverência profunda.
– Não importa, tens o direito de pensar como bem entender. Posso lhe fazer um pedido?
– Sim, claro. – Disse Alptraum duvidosamente.
– Poderias me ceder tua sala por alguns instantes, há um visitante que deseja conversar comigo.

As portas do salão real se abriram repentinamente e até mesmo os guardas se surpreenderam ao ver Alptraum deixando o local, logo a frente Ignus olhava atentamente para o deus que se dirigia altivamente em sua direção. Após passar o efeito da perplexidade todos os guardas curvaram-se diante Alptraum, mas este não pareceu notar-lhes a falta e não deu atenção.

– Você deve ser Ignus, certo?
– Sim, senhor. – Respondeu Ignus fazendo uma reverência.
– Rei Zarrantas o aguarda em minha sala.

A surpresa e incredulidade eram nítidas no rosto de Ignus, mas ele nada disse, apenas observava enquanto o deus se afastava calmamente e seus servos permaneciam curvados e imóveis. Logo que Alptraum saiu de seu campo de visão Ignus caminhou até o salão real onde era aguardado por Zarrantas, um guarda fez menção de bloquear-lhe a entrada, mas logo se dera conta do erro que estava para cometer e retomou sua posição.

Lá dentro Ignus pode ver um vulto ser tragado pelas sombras no chão no exato momento em que entrava, por um instante pensou ser sua imaginação, mas ao olhar para baixo e ver as sombras ficando mais fracas teve certeza de que algo, ou alguém, tinha acabado de partir.

Enquanto seguia até próximo de Zarrantas, Ignus ouviu as portas fecharem atrás dele com um forte estampido, sentiu também como se a ligação daquele local com o resto do mundo houvesse sido desfeita no exato instante que as portas fecharam, como se estivesse em outro plano, outra dimensão.

– Rei Zarrantas, agradeço por poder conversar comigo. – Disse Ignus fazendo uma profunda reverência.
– Seria descortês de minha parte não atender aos anseios de um servo tão importante de um irmão meu. – Falou Zarrantas que pode notar a leve irritação de Ignus quando disse a palavra “servo”.
– Serei direto, vossa majestade deve ter notado que houve interferência externa em meu combate contra Haldar, gostaria de saber exatamente o que houve.
– De fato, tua contenda com teu ex-mestre não fora de toda justa, houve sim uma interferência que poderia ter auxiliado a Haldar, mas vós superaste tal adversidade de forma magistral, então que importância tem tal fato? – Perguntou Zarrantas com nítida satisfação.
– Um combate daquele tipo tem de ser apenas um contra um, se há alguma interferência, aquele que atrapalha tem de ser punido.
– Estas com a razão, não é justo, no entanto, saiba que Haldar em momento algum pediu pelo auxilio que lhe foi prestado.
– Então vossa majestade sabe quem fez aquilo? – Perguntou Ignus demonstrando grande ansiedade.
– Desacreditado fiquei ao notar o ocorrido, mas naquele momento a nada do que fizesse mudaria o curso que já havia se desenhado. Porém quero deixar-te claro uma coisa, não ter interferido não significa apoie tal ato.

Ignus nada disse, apenas observou Zarrantas, aguardando ansioso e furioso pela resposta.

– Foste Paia o causador daquilo.

A surpresa de Ignus não foi maior que o prazer que Zarrantas sentiu ao ver a imensa aura de fúria transbordar de Ignus, sua energia alcançara um nível de intensidade tamanho que o local começou a tremer repentinamente. Mas da mesma forma que os tremores vieram ele sumiram, tudo parecia como antes, no entanto Ignus aparentava apenas calmaria externa.

– Tua fúria é justificável, não te atenha a refreá-la, só há de te prejudicar. – Disse Zarrantas cada vez mais contente ao ver a irá de Ignus.
– Agradeço pelo que me disse, vossa majestade, mas agora devo partir. – Disse Ignus fazendo uma última reverência.
– Lembra-te, jamais refreie teus instintos.
Ignus apenas ouviu este último conselho e partir sem dizer nada.

Os últimos preparativos para a cerimônia que logo aconteceria e a festa estavam quase no fim, muitos criados corriam para deixar tudo muito bem organizado, tudo tinha que estar no mínimo impecável. A preocupação inclusive com os pequenos detalhes era tamanha, que havia várias pessoas responsáveis apenas pela conferência dos diversos itens. Perfeição era o mínimo exigido para aquela ocasião.

Em seus aposentos os guerreiros trajavam seus uniformes de gala, de um vermelho forte e suntuoso, até mesmo os guardas comuns trajavam armaduras mais elaboradas e pomposas, todas devidamente polidas e reluzentes.

No imenso salão preparado para a cerimônia Paia se encontrava sentado no trono central, este era feito de diversos pedaços de armaduras, armas e escudos, simbolizando espólios de guerra. Havia ainda outros seis tronos que estavam ocupados por outros deuses, Zarrantas estava presente, assim como Fonan, que se destacava dos demais por sua elevada altura e altivez. Outro deus também chamava a atenção, mas este não por sua postura, mas sim por sua extrema semelhança com Zarrantas, seu nome era Samur, no entanto apenas a aparência os igualava, as atitudes e o modo de pensar de Samur eram completamente opostos. Nas fileiras laterais de convidados se mesclavam nobres de todos os tipos, leais a Paia ou não, além de representantes de outros reinos e até mesmo alguns reis e suas respectivas guardas pessoais.

Um imenso tapete vermelho cortava o salão de uma ponta a outra, da entrada até o trono de Paia, estava flanqueado de ambos os lados pelos companheiros de Ignus, todos muito orgulhosos pela honra que o amigo receberia.

Um sino soou às dez da noite, após a última badalada todos permaneceram em silêncio profundo. Pouco depois as imensas portas de madeira se abriram e Ignus caminhou lenta e altivamente pelo tapete vermelho, enquanto seus amigos erguiam lanças e espadas, formando um túnel. O guerreiro apenas trajava um manto branco, sem nenhum detalhe, apenas um mero pedaço de pano, sua cabeça e rosto ocultos por um capuz longo.

Ao chegar à frente do trono Ignus ergueu o capuz revelando seu rosto e ali permaneceu, olhando fixamente para Paia.

– Irmãos e companheiros, amigos e convidados, hoje estamos todos aqui reunidos para a consagração do guerreiro Ignus como meu avatar. – Disse o Deus da Guerra levantando-se de seu trono.
Houve uma explosão de palmas e gritos de guerra por parte dos companheiros de Ignus, mas com um simples gesto de mão Paia fez com que todos voltassem a silenciar.
– Então Ignus, ajoelhe-se perante mim e aceite o meu sangue divino, comunguemos nosso sangue e torne-se meu...
– Não!

O tom forte e decidido de Ignus sobressaltou sobre a voz do deus e fez com que todos, além de surpresos, se sentissem diretamente ameaçados. Um silêncio mórbido tomou conta do local, ninguém ousava fazer o menor comentário sequer, apenas as trocas de olhares preocupados eram suficientes para transmitir toda a preocupação e duvida de todos os presentes. Até mesmo os deuses pareciam preocupados, nunca antes tinham se deparado com tal situação, Zarrantas parecia indiferente apenas observava sem demonstrar nenhuma reação aparente.

– Como ousa erguer sua voz perante a minha?

A ira nos olhos do Deus da Guerra era nítida, de todas as ousadias de Ignus aquela era a maior de todas as afrontas.

– Nunca me ajoelharei e seguirei alguém covarde o suficiente para interferir na vida alheia, ainda mais em um duelo homem a homem, visando prejudicar um dos lados.

A reação dos presentes foi a mesma, todos se entreolhavam novamente e desta vez cochichavam uns com os outros, especulavam sobre o que o guerreiro estava falando, ainda não tinham idéia dos motivos de sua rebelião, mas logo saberiam, mas também sabiam que aquele ato não passaria sem uma punição.

– Do que está falando seu insolente? – Questionou Paia.

Sem pestanejar Ignus acusou o deus de interferir no seu combate contra Haldar, onde se sagrou vitorioso, repetiu tudo o que havia descoberto desde a revelação feita por Teryon até a descoberta da identidade de quem tentou prejudicá-lo, mas não revelou nenhum nome.
– Ousa me acusar sem provas, verme?

Paia caminhava lentamente em direção a Ignus, sua energia divina pulsava intensamente, mas ainda estava contida o suficiente para não afetar nada nem nenhum dos presentes.

– Não tenho provas materiais do que fez, mas aqui há quem possa confirmar minha versão.

A segurança de Ignus apenas deixava o deus cada vez mais irado, enquanto a duvida no olhar dos outros presentes era cada vez mais evidente.

– Se apresentem aqueles que ousam confirmar o que este verme diz.

No mesmo instante um dos convidados se ergueu e todos os olhares se dirigiram até ele, era Teryon, trajando suas vestes negras típicas, seu olhar era o mesmo de sempre, analítico e profundo.

– Ousa confirmar o que este insolente diz? – Questionou Paia ainda mais irado ao ver que alguém apoiava Ignus.
– Na verdade, eu mesmo revelei a ele que a luta não havia sido justa até certo ponto. – Respondeu Teryon secamente.
– E tem alguma prova disso, necromante?
– O que ganharia mentindo e inventando algo desse tipo?

Os presentes se sentiram acuados ao ver a energia divina de Paia aumentar visivelmente, todo o local pareceu tremer violentamente, tamanha a ira do deus, no entanto Teryon parecia impassível, sua expressão não sofrera a menor alteração enquanto sustentava firmemente o olhar furioso do deus. Até mesmo os outros deuses pareciam incomodados dessa vez, menos Zarrantas.

– Não crê que tudo isso já foi longe demais, irmão? – Perguntou Fonan a Zarrantas.
– Absolutamente, irmão meu, é neste momento onde a cortina se abre e o espetáculo há de ser revelado.

Repentinamente Zarrantas, o Rei dos Deuses se levantou de seu trono, Paia estava pronto a descarregar sua ira sobre Teryon, mas ao ver seu soberano se manifestar deteve-se, pois sabia que tal ousadia por parte de dois humanos não passaria desapercebida por Zarrantas.

– Lamento muito por ti, irmão Paia, porém o relato de teu servo, Ignus e, as palavras  de Teryon falam a verdade. Tal interferência relatada e confirmada realmente ocorreu e foste tu, irmão, quem cometeu tal ato.

A surpresa tomou conta de todos e o burburinho foi inevitável, entre os companheiros de Ignus outro sentimento predominava, a indignação. Nunca poderiam imaginar que seu próprio deus teria intenção de prejudicar a um dos seus, por mais que fosse seu soberano, aquilo era ato repulsivo.

– Majestade...
– Irmão Paia, devo advertir-lhe que teu ato é totalmente repulsivo? – Disse Fonan interrompendo Paia.
– Mas, Primeiro Fonan, eu...
– Ousa questionar um Primeiro e desmentir as palavras de nosso rei? – Questionou outro deus presente seu nome era Sampouku.

O Deus da Guerra sentiu-se acuado, frustrado e furioso ao mesmo tempo, traído pelo servo e pelos próprios deuses.

– Tudo isso é sua culpa!

Tomado pela ira Paia disparou uma rajada energética contra Ignus, mas o guerreiro estava atento e com impressionante maestria rebateu o ataque jogando em direção a parede atrás de onde estavam os deuses.

– Parai!

A voz de Zarrantas retumbou pelo salão deixando todos atordoados, até mesmo os deuses pareciam incomodados, pela primeira vez podia-se ver em seu rosto alguma demonstração de sentimento.

– Irmão Paia, tu serás punido por tua interferência no combate entre Ignus e Haldar, teus servos.

A decisão de favorecer a um mortal deixou todos os presentes ainda mais surpresos, todos conheciam o repudio que Zarrantas nutria pelos humanos.

– Independente de ambos serem seus servos, tu não deverias ter interferido em vossas escolhas, nenhum deus tem o direito de fazer isso. – Disse Zarrantas
– Posso ser punido, majestade, mas este humano pagará por sua insolência.

Repentinamente Paia desapareceu, mas apenas para olhos mortais e isso não era um bom sinal, imediatamente alguns dos humanos presentes começaram a ser consumidos instantaneamente, até mesmo suas almas eram despedaçadas violentamente. Em um gesto rápido Samur conseguiu evitar que outros fossem mortos criando uma barreira em volta dos humanos, que a essa altura já estavam completamente apavorados com o horror que presenciavam. Todo o local tremia violentamente, imensas rachaduras surgiam a todo momento, vários escombros começavam a cair causando ainda mais pânico aos presentes que sem saber o que fazer permaneciam acuados.

O Deus da Guerra agora estava em sua verdadeira forma, apenas a elite de seus soldados e os outros deuses eram capazes de vê-lo em toda sua plenitude, trajava uma armadura de guerra completa e imponente, em sua cintura pendia uma espada de cabo belissimamente adornado, um par de adagas e um grande e imponente martelo de guerra. Em sua mão esquerda portava um escudo e na outra uma lança, nas costas um arco e dois machados cruzados.

– Hoje sua existência chegará ao fim, verme infecto e insolente. – Disse Paia a Ignus, tomado de ira.
– Não temo alguém como você!

A diferença de poderes naquele instante ira imensa, a derrota de Ignus já era dada como certa, ele sabia disso, no entanto o guerreiro não tinha medo, muito menos receio, enfrentaria Paia, ali, naquele momento, mesmo que isso custasse sua vida.

A energia de Paia se elevou ainda mais, Ignus começou a se sentir esmagado por ela, era forte e intensa, mas aquilo para ele não significava nada. Fazendo um gesto como se estivesse a se livrar de fortes amarras Ignus afastou a energia opressora do deus, para em seguida erguer a sua, era uma energia muito mais agressiva que a de Paia chegando, até, a se igualar a do deus, de alguma forma.


Os deuses conhecidos como primeiros, eram deuses com capacidades e poderes muito além dos outros, mas um deus inexperiente, mesmo sendo um primeiro, ainda era um deus inexperiente, Samur era um exemplo disso. Nunca fora apegado ao título que possuía, muito menos se comportava como um deus, por diversas vezes sofrerá severas reprimendas, inclusive, de deuses mais novos. Por mais forte que um primeiro pudesse ser Samur não possuía a habilidade e experiência que Zarrantas e Fonan possuíam, por exemplo, sua tentativa de salvaguardar os humanos sobreviventes, apesar de nobre, de nada adiantou quando Ignus ergueu sua energia.

A frágil barreira erguida pelo inexperiente deus que bravamente resistira a fúria de Paia, não fora capaz de suportar a surpreendente e poderosa força do humano Ignus, despedaçando-se como vidro estilhaçado, matando ainda mais pessoas de forma imediata, apenas alguns poucos de espírito mais forte sobreviveram. Os soldados mais fracos também foram consumidos pela força que Ignus emanava, até mesmo seus companheiros se sentiam mal perante tamanho poder, mas estes ainda resistiam. Teryon resistia com as próprias forças, mesmo com alguma dificuldade, mas parecia menos desconfortável que os outros sobreviventes.

Sem aviso, Paia investiu contra Ignus com sua lança, porém o guerreiro não se moveu, esperou que a arma divina estivesse o mais próxima possível de si para então usar seu shii e destruí-las sem muito esforço.

– Samur, tire os humanos sobreviventes daqui, rápido! – Disse o deus que trajava vestes cinzentas e cabelos negros bem curto e postura de um general.
– Retornarei, irmão Arzac.

Os humanos restantes, assim como Samur, desapareceram, inclusive Teryon e os companheiros de Ignus foram levados, reaparecendo no mesmo instante em um local muito distante de onde estavam, ainda assim era possível sentir a fúria do humano e do deus que agora se enfrentavam.

– Paia, pare imediatamente...
– Não! – Vociferou o deus interrompendo Arzac. – Por diversas vezes suportei a desobediência e a insolência desse ser, mas hoje isso será reparado, com o sangue e a alma dele!
– Irmão Arzac, peço-te que apenas observe, o humano não tem chance de sobreviver, quando este ato de insanidade findar, nosso irmão será punido como determina a lei, mas já que ele assume a conseqüência de seus atos, deixemo-nos que arque com as conseqüências. – Disse Zarrantas detendo Arzac que estava prestes a atacar o próprio irmão.

Outra onda energética foi disparada contra Ignus e novamente ele rebateu o ataque, o deus parecia contente ao ver a cena e atacou o guerreiro outras vezes, apenas para vê-lo desviar ou rebater inutilmente suas investidas.

– Até quando acha que conseguirá se safar? – Perguntou Paia. – Não se vanglorie por conseguir esquivar e desviar esses míseros ataques, muito menos por destruir uma de minhas armas.
– Destruirei não apenas suas armas, mas também você! – Desafiou Ignus.

O deus gargalhou sonoramente, o que restou do local tremeu e se desfez como se fosse feito de areia.

– Desarmado você não é nada.

A imagem de Ignus pareceu tremer, mas no instante seguinte o mesmo não estava mais lá, a ação fora tão rápida que até os próprios deuses se surpreenderam com a velocidade do guerreiro. Paia também fora pego de surpresa, mas logo notou o ataque direto e foi capaz de bloqueá-lo, ainda assim Ignus fora capaz de arrastar o deus por alguns metros. Aproveitando o força do ataque inicial Ignus saltou por sobre Paia, já atrás dele socou-lhe as costas com força tal que fora capaz de arremessar o deus para frente. Paia ergue-se como se nada tivesse ocorrido, sua armadura ainda reluzente não apresentava o menor arranhão sequer

 – Se fosse um mero humano como você e minha armadura fosse um simples pedaço de metal, certamente teria me matado apenas com esse golpe. – Disse Paia olhando para Ignus.

Lentamente o deus sacou a espada que pendia em sua cintura, a lâmina larga e longa mostrava que era ameaçadoramente bela, aparentava jamais ter sido usada, uma arma perfeita. Com um movimento rápido o deus desenhou um corte cruzado no ar, a energia percorreu o ar em direção a Ignus a uma velocidade espantosa, mesmo assim, aquilo não foi suficiente para atingi-lo, saltando para o lado Ignus desviou do ataque, com um segundo salto foi em direção a Paia, ainda no ar ergueu o punho como se fosse socar com as costas da mão, mas pouco antes de desferir seu golpe seu punho ficou envolto em chamas escuras e intensas, até mesmo os deuses, que apenas observavam distantes, forma capazes de sentir o intenso calor. Paia contra-atacou com sua espada visando decepar o braço de Ignus, porém tal foi sua surpresa ao notar que sua espada não atingira o braço do inimigo, mas um objeto metálico, Yurian.

Imerso em sua perplexidade Paia se tornou um alvo fácil para Ignus, que derrubou-o sem dificuldades, mas quando estava prestes a encravar-lhe a lâmina ainda flamejante, Paia desapareceu, ressurgindo pouco depois do outro lado do que sobrara do salão.

– Impossível, essa maldita espada não poderia estar em seu poder. – Disse Paia revoltoso.

A resposta de Ignus veio em forma de ataque feroz, um corte flamejante de tal intensidade que fez os deuses sentirem seu calor novamente, mas Paia simplesmente desviou-se do golpe sem grande dificuldade. Sem dar tempo ao oponente Ignus lançou-se contra o deus, suas espadas se chocaram no ar produzindo faíscas intensas, um segundo golpe e novamente o choque das armas que dessa vez ficaram imóveis enquanto seus respectivos donos se encaravam mutuamente, em um duelo de força de vontade. Mas a determinação de ambos era idêntica e nenhum deles cederia.

A disputa agora era em outro nível, o deus começou a erguer sua energia fazendo com que a mesma pressionasse Ignus que também ergueu a sua, não para se proteger, mas sim para contra-atacar. Quanto maior era a emanação divina maior era a emanação energética de Ignus, tudo a sua volta estava já havia se desfeito, até mesmo o solo estava sendo destruído tamanho era o poder que se manifestava.


Longe dali os humanos que foram levados por Samur sentiam a energia do deus e do guerreiro como se ambos estivessem ao seu lado, imediatamente alguns começaram a ser afetados por isso. O que começou com um estranho e forte mal estar evoluiu para convulsões e sangramentos intensos, somente alguns poucos permaneciam ainda ilesos. Teryon fora obrigado a erguer um campo energético para si, pois sabia que aquilo tendia a ficar ainda pior e até mesmo ele sofreria as conseqüências. Já Samur  tentava ajudar os humanos que estavam em pior estado, mas o deus pouco podia fazer devido a seu parco conhecimento, nunca havia tido maiores preocupações nem se importava com o fato de ser um primeiro, porém pela primeira vez condenava a si mesmo por não poder fazer nada.

– Por favor, me ajude.

Ao ver que Teryon era o único que permanecia incólume Samur não hesitou em pedir a ajuda do necromante.

– Você é um deus, deveria ser capaz de dar conta disso sozinho. – Respondeu Teryon olhando severamente para Samur.
– Se tivesse uma ínfima parte do conhecimento de qualquer um de meus irmãos, sim, no entanto...
– É deprimente e surreal ver um Primeiro se humilhando perante um humano, implorando por ajuda. – Disse Teryon.
– Não me orgulho de ser um Deus muito menos um Primeiro, isso não faz a menor diferença para mim. – Respondeu Samur sinceramente.
– Erga uma barreia em volta deste lugar com o máximo de energia que conseguir reunir, isso não deve ser difícil, mesmo para você, o restante deixe por minha conta.


Uma poderosa explosão se fez ver, ouvir e sentir por quilômetros dali, tudo o que havia por perto foi devastado impiedosamente, Paia e Ignus estavam, agora, afastados um do outro, o guerreiro estava com seu traje em farrapos e a proteção que usava não mais existia. O deus aparentemente estava em melhores condições, no entanto sua armadura não era mais a mesma, exibindo grandes rachaduras, cicatrizes que feriam profundamente o ego de Paia.

Tomado de ira Paia atacou Ignus, o guerreiro defendo o ataque com sua espada, mas logo em seguida fora atingido com um chute no abdome, movendo-se rapidamente o deus conseguiu passar para trás de Ignus e atingir-lhe as costas com um profundo corte. Sem esperar por qualquer reação do guerreiro, Paia concentrou uma grande quantidade de energia em sua espada e golpeou Ignus novamente pelas costas, porém ele conseguiu, por pouco, desviar do feroz ataque e viu uma grande e profunda fenda ser aberta no chão ao seu lado.

Virando-se na direção do deus, Ignus pode ver outro ataque ser preparado, mas  desta vez ele fora mais rápido e disparou uma intensa rajada de fogo contra Paia, envolvendo-o completamente. Enquanto sustentava seu ataque Ignus viu o deus dispersar suas chamas, mas não com tanta facilidade, porém antes que Paia revidasse Ignus disparou um relâmpago que além de afastar o deus ainda fora capaz de destroçar sua armadura, deixando seu tórax totalmente exposto.

A fúria do deus apenas aumentava cada vez que era atingido, a cada golpe que errava, não mais raciocinava, seu único pensamente era aniquilar Ignus da forma mais dolorosa e lenta possível.

– Se continuar assim não creio que esse lugar sobreviverá a fúria de ambos. – Disse Fonan mostrando certa preocupação.
– Esta contenda não deve perdurar por muito mais, irmão, acalma-te e observa. – Disse Zarrantas que deleitava-se com a cena.
– Não estou preocupado nem com este lugar nem com algum deles, apenas acho tudo isso uma grande bobagem.

Por mais que dissesse o contrario o olhar de Fonan demonstrava nitidamente toda sua preocupação, há muito já considerava o plano de Zarrantas um erro, mas agora que o via chegar a seu derradeiro estágio tinha cada vez mais certeza de que as coisas não seguiriam o caminho que haviam planejado.

A sensação de um forte impacto tirou Fonan de seu transe, Paia estava pressionando os dois punhos contra o tórax de Ignus que era pressionado contra um paredão natural de pedra. Usando seu shii o guerreiro conseguiu afastar Paia momentaneamente, mas quando ia esboçar reação, o Deus da Guerra girou e atingiu-lhe um chute, jogando-o novamente contra o paredão.

Vendo-se ser atingido por uma longa seqüência de golpes frontais, Ignus concentrou rapidamente sue shii e expando-o e seguida em forma de explosão, destruindo com facilidade o local onde estava preso e arremessando o deus para longe, dando-lhe alguma segurança.

Mesmo com a visão obscurecida pela imensa nuvem de poeira que se formou, Ignus mantinha sua atenção focada em Paia através da grande energia que o deus desprendia de si, o que permitia-lhe precisar com exatidão a posição do mesmo, inclusive seus movimentos. Não foi difícil para ele saber o momento que Paia evocou um arco e disparou uma flecha em sua direção, entretanto aquela não era uma flecha comum, era uma flecha criada pelo poder de um deus. Na metade de seu trajeto mortal a flecha se multiplicou em várias dezenas, todas com a mesma força da original, além do mais, para a preocupação de Ignus, sua velocidade aumentou consideravelmente.

Agindo impulsivamente o guerreiro simplesmente usou seu shii para impulsioná-lo para frente o mais forte e rápido que pode, fugindo assim do ponto as flechas cairiam, mas para sua surpresa as mesmas mudaram sua trajetória e começaram a segui-lo. Ignus tentou usar seu shii novamente para mantê-lo em sua trajetória e acelerar mais, surpreendeu-se ao notar que conseguira ainda mais do que havia planejado, ele estava voando, voando assim como vira Haldar fazer.

Mesmo aumentando ainda mais sua velocidade notou que as flechas ainda o seguiam e também estavam mais rápidas, então, como uma rápida e bem sucedida manobra ele se lançou contra o deus. Vendo Ignus se aproximar tão velozmente o Paia concentrou em seus punhos um grande quantidade de energia, em sua velocidade atual, Ignus não teria chance de escapar de seu ataque e conseqüentemente seria atingido pelas flechas. Porém Ignus também disso e acelerou ainda mais, viu o golpe de Paia ser desferido impiedosamente, com grande habilidade Ignus não apenas conteve o ataque como também se valeu da força e da velocidade de seu vôo para arremessar Paia contra suas próprias flechas. As dezenas de flechas energéticas atingiram em cheio Paia, perfurando, rasgando e mutilando seu corpo divino violentamente.

– Levante-se, deus. – Ordenou Ignus imperiosamente. – Irei destruí-lo de pé perante os seus, você será a vergonha dos deuses.
– Você não passa de um reles humano. – Disse Paia enquanto se levantava. – Mas sua afronta custará um alto preço.

Em um piscar de olhos Ignus se viu envolto pela energia divina, em um primeiro momento tentou expandir a sua para se proteger de qualquer eventual ataque, mas o deus fora mais rápido e mais afortunado, comprimindo sua energia envolta de Ignus esmagando-o fortemente. Mesmo com toda a força que possuía e empregava naquele momento Ignus não conseguia encontrar uma forma de se ver livre daquela situação, sequer conseguia se concentrar para expandir seu shii e contra atacar. Após pouco tempo o deus explodiu a energia que estava envolta de Ignus, uma profunda e larga cratera se formou, até mesmo os outros deuses que a distância observavam a luta tiveram que se proteger, tamanha fora sua força.

Cada mínima parte do corpo de Ignus estava seriamente abalada, mas ele pouco sentia e pouco se importava tal era seu estado mental e espiritual, completamente focado em seu algoz. Lentamente ele começou a se erguer, com alguma dificuldade, mas rapidamente teve que se jogar para um lado tão logo notou uma nova investida de Paia contra ele. O deus pousou provocando uma forte onda de choque arremessando Ignus para não muito longe, mas distante o suficiente para que ele ao menos pudesse se recompor com um pouco mais de segurança.

Paia agora estava empunhando seus dois machados, Ignus sabia que defender um ataque de qualquer um deles não seria algo, o tamanho e o peso deles aumentaria muito a força de qualquer golpe. Ignus estava desarmado, não conseguira segurar sua espada durante a explosão, muito menos sabia onde ela estava, mas isso não importava, sabia que poderia convocá-la a qualquer momento.

Um dos machados fora arremessado, enquanto cortava o ar girando horizontalmente, o mesmo parecia acumular energia. Mesmo a uma velocidade alta, Ignus não teve dificuldade em desviar do machado, porém logo notou que havia cometido um grave erro, ao se chocar contra o solo a energia acumulada pelo machado fora detonada, gerando uma poderosa explosão, pegando Ignus de surpresa e arremessando-o completamente indefeso em direção a Paia. Ao ver o inimigo vir em sua direção, praticamente de peito aberto, o deus saltou em sua direção erguendo o machado ameaçadoramente. Quando o golpe fatal foi desferido, Ignus demonstrando grande habilidade conseguiu chutar a mão de Paia que segurava o machado, fazendo-o soltar a arma pouco antes de se chocarem em pleno ar e caírem pateticamente no chão.

A indefinição do combate até aquele momento começava a deixar Zarrantas impaciente, porém não tanto quanto Arzac, que por diversas vezes teve de ser detido. Fonan se mostrava preocupado, sabia que aquela luta teria um resultado desastroso, mas ele, assim como os outros presentes estava de mãos atadas, entretanto quando conseguiu captar um lampejo da ansiedade de Zarrantas ficou realmente preocupado.

– Se esse combate infundado continuar por mais tempo, eu pessoalmente hei de pará-lo. – Anunciou Fonan.
– Se vai fazer algo por que não agora? – Questionou irado Arzac.
– Bem sabes, irmão, que intercedo por humanos, no entanto, muito menos me agrada ver um irmão cometendo tamanha insanidade.
– Onde quer chegar, irmão Fonan? Questionou Arzac novamente.
– Paia cometeu um erro grave, agora comete outro, ele será punido em seu devido momento, não posso interferir em seus atos, no entanto minha paciência está quase em seu auge.
– O irmão Fonan, tem razão, irmão Arzac. – Disse Sampouku que até agora só havia se pronunciado uma vez. – O que podemos fazer é aguardar o desfecho de tudo e no devido tempo punirmos Paia.

Um forte som chamou a atenção de todos, Paia afundava a cabeça de Ignus no chão o mais forte que podia, impedindo o mesmo de se levantar. Pondo-se de pé rapidamente Paia começou a chutar Ignus, mais e mais forte, depois, novamente com os pés, afundou ainda mais sua cabeça do desolado solo onde lutavam.

– Esse é o lugar onde você merece estar, prostrado no chão, com a cara enfiada na terra como um verme, chafurdando como um suíno imundo. – Vociferou Paia às gargalhadas.

Por um tempo o deus permaneceu em silêncio, seu adversário jazia no chão, ferido e inerte. O contentamento de finalmente ter subjugado o insolente humano tomou conta de seu ser, sonoramente ele gargalhou e contemplou seus irmãos que o encaravam a distância, não importava se eles aprovavam ou não seu ato, estava feliz consigo mesmo e queria externar tal sentimento. Como um símbolo de sua vitória agarrou Ignus pela cabeça, erguendo-o e exibindo-o como um troféu.

– Tolo inebriado.

As palavras de Fonan penetraram fundo em seus ouvidos, porém ainda mais fundo penetrou a lâmina de Yurian. Lenta e dolorosamente o deus sentiu a espada penetrar seu corpo divino até transpassá-lo por completo, enquanto suas negras chamas ardiam furiosamente. Seus olhos lentamente se viraram, para sua surpresa, Ignus o encarava furiosamente, seu rosto era um misto de sangue, suor e terra, ale de uma profunda ira, instantes depois seu emissário soltou a espada e segurou firmemente a mão que lhe mantinha cativo, uma poderosa energia avermelhada envolveu o punho de Ignus e instantes depois dilacerou aquele pedaço do braço do deus.

Tão logo se viu livre, Ignus passou para trás do deus e empunhou sua espada novamente, segurando-a fortemente com as duas mãos enquanto girava sua lâmina, causando ainda mais dor ao deus. Sem muito esforço ele ergueu o Paia, com sua lâmina ainda fincada em seu corpo, o deus pendeu para trás e viu uma das mãos de Ignus pousar pesadamente sobre seu rosto e disparar um poderoso relâmpago.

Agora era Paia que jazia no chão, seu rosto desfigurado pelo poder de Ignus, seu corpo violado pela brutalidade de um humano, no entanto era seu ego que estava mais ferido.

– Erga-se, Paia, um deus, até mesmo um de seu nível não deve se abalar apenas com isso, ou será que exagerei? – Provocou Ignus.

O deus olhou para seu antigo seguidor e viu a imponência de sempre no semblante de Ignus, mas toda aquela altivez apenas serviu para aumentar, ainda mais, seu ódio e a vontade de matar Ignus.

Enquanto se Paia se erguia Ignus o aguardava impacientemente, queria derrotar o deus, queria humilhá-lo, matá-lo em frente aos seus para que seu nome fosse lembrado eternamente como símbolo de grande vergonha para os deuses.

Mais uma vez Ignus e Paia se encaravam, imóveis e em silêncio, com suas espadas em punho. O deus apenas aguardou enquanto observava seu odiado ex-seguidor atacar-lhe ferozmente, Yurian desenhou no ar um arco mortal descendente visando as pernas de Paia, o deus guerreiro ao invés de bloquear ou desviar simplesmente contra-atacou, com um movimento rápido e preciso atingiu o rosto de Ignus com um chute, fazendo-o tombar para trás. Antes mesmo que atingisse o solo, Paia socou fortemente o abdome de Ignus, aumentando ainda mais o impacto contra o chão e fazendo com que o mesmo afundasse devido a grande força do golpe.

Sem permitir que Ignus tivesse tempo para reagir, o deus ergueu-o pelo pescoço, apertando o máximo que pode, depois arremessou para o alto. Repentinamente sua espada deu lugar a um suntuoso arco, uma flecha energética surgiu enquanto o deus fazia o gesto de como se estivesse colocando-a no arco. O disparo foi feito enquanto Ignus ainda estava no ar, a seta energética cruzou o ar velozmente dividindo-se em várias, tornando-se ainda mais veloz que antes. Ignus teve o corpo atravessado por quase todos os disparos, alguns atingiram-lhe de raspão, mas nenhumas das flechas errou seu alvo. Antes de atingir o chão novamente ainda foi atingido no peito, violentamente, pelo martelo arremessado por Paia.

Apesar da precisão e força dos golpes que recebera Ignus não se deixou abalar, rapidamente se levantou e correu em direção a Paia, sem se importar com seus inúmeros ferimentos. O deus também foi em direção a seu oponente, no entanto, desta vez, seu ataque não foi bem sucedido, Ignus saltou por sobre o deus, esquivando-se habilmente de sua espada, aproveitando a força do impulso inicial atingiu a costas de Paia com um profundo corte, com sua espada em chamas. Tomado pela ira de mais uma vez ter sido atingido pelas costas Paia girou em direção a Ignus, não mais com sua espada, mas empunhando um de sues machados.

Os deuses que atentamente observavam a todo o combate, desde seu início, por várias vezes se surpreenderam com seu desenrolar, porém nada causou-lhes mais espanto do que aquilo. O machado de Paia passou pelo ombro de Ignus cortando-o não muito profundamente, após ser solto depois que seu dono teve o cotovelo destruído por um soco. A força do punho de Ignus aliada a força do braço do deus fez com que o ataque fosse ainda mais potente, o antebraço de Paia agora pendia estranhamente, retorcido para o lado oposto.

Aproveitando a perplexidade de Paia conseguiu arrancar-lhe uma das pernas, com apenas um corte, rápido e seco. O deus foi ao chão, seus olhos arregalados contemplavam o guerreiro que se erguia perante ele, enquanto a lâmina flamejante de sua espada atravessava o corpo divino brutalmente.

 O urro de fúria de Ignus atravessou os ouvidos de Paia, enquanto o guerreiro usava o peso de seu próprio corpo para fincar ainda mais sua espada no deus. A chama escura queimava a uma intensidade que nunca antes Paia sentirá, nem mesma da vez que tentou tomar a espada de Ignus sentiu tamanha agonia, lentamente o fogo o consumia e, pela primeira vez, em toda sua existência, o deus sentia o temor da morte. Em um esforço desesperado Paia agarrou a lâmina com as duas mãos, a fim de tentar tirá-la de si, até conseguia suportar a dor do corte profundo, no entanto o intenso calor das chamas o impedia de fazer qualquer coisa, sequer conseguia concentrar-se para tentar repelir seu algoz.

Vendo a tentativa desesperada do deus de se ver livre, Ignus fincou a espada ainda mais fundo, balançando a lâmina para causar mais dor. Uma vez mais encarou Paia e seus olhares se cruzaram, ambos exibiam um profundo ódio em seus semblantes, mas o ódio do deus era diferente, estava repleto de rancor e principalmente frustração, sempre fora orgulhoso de sua força e sendo um deus, perder para um humano, por mais forte que este fosse, era uma humilhação imensa.

– PARE!

O grito de Samur, desesperado ao ver o irmão ser subjugado de tal forma, conseguiu não apenas chamar a atenção dos outros deuses, mas também a de Paia e, até mesmo, do próprio Ignus.

– Já chega!

Em um ato impensado Samur apontou as mãos para Ignus e conseguiu afastá-lo do irmão, o próprio Paia ficou surpreso com a repentina ajuda, mas sabia que se Ignus não tivesse sido previamente distraído e sua concentração quebrada, a tentativa de Samur teria sido frustrada.

– O que pensa que está fazendo? – Vociferou Ignus furioso pela interferência, enquanto se levantava.
– Você venceu! Superou um deus, orgulhe-se disso, guerreiro!

Calado e ainda tomado de ira Ignus controlou-se e permaneceu onde estava. Olhou profundamente nos olhos de Samur, mas o deus desviou o olhar, o mesmo não foi feito pelos outros deuses que observavam o combate.

– Admita sua derrota, Paia, é o único e mais honrado ato que pode tomar agora. – Disse Sampouku secamente.

Todos olharam para Paia, jazia estirado ao chão, Yurian ainda fincada em peito, completamente vencido. O Deus da Guerra olhou para os irmãos em busca de auxilio, apenas obteve reprovação, todos os deuses presentes pareiam concordar com Samur e Sampouku. Não tinha escolha, por mais doloroso e humilhante que fosse, estava derrotado.

– Eu... Estou... Eu... Reconheço a... Vitória de Ignus.

Admitir a vitória de Ignus era mais fácil do que admitir a própria derrota, uma derrota para um reles humano. Paia sentia-se humilhado, perante seus irmãos e por eles próprios, obrigado a admitir a vitória de um humano, alguém que outrora o servia.

– Isto finda está contenda. – Disse Zarrantas.

Em seu intimo o Rei dos Deuses estava ainda mais frustrado, até mesmo, do que Paia.

– Não é suficiente.

Repentinamente Ignus saltou em direção a sua espada e arrancou-a violentamente do peito do deus, Samur temendo o pior tentou novamente deter Ignus, mas este anteviu que seria atrapalhado, de sua mão um projétil de energia negra foi disparado, atingindo Samur em cheio e arremessando-o para longe. Paia tentou se aproveitar do momento de distração de Ignus para golpeá-lo e matá-lo de uma vez, enquanto erguia sua mão, pouco a pouco, sua espada era materializada, sentiu sua lâmina divina penetrar a carne do ventre do humano, isso lhe deu um imenso prazer.

Arzac viu o exato momento que o irmão acertara Ignus, imediatamente surgiu ao lado deles, mas no instante em que afastaria o humano para impedir sua morte, Ignus fincava sua espada no crânio de Paia ao mesmo tempo que um relâmpago atingia ambos.


Mesmo longe dali Teryon, os companheiros de Ignus e os outros humanos sobreviventes sentiram a grande dispersão de poder, junto com ela um intenso clarão e uma onda de choque que arremessou-os a metros dali, alguns, ao se recomporem olharam na direção de onde ainda podia se sentir uma grande concentração de poder, mas daquela distância nada podiam ver, alguns até mesmo foram até lá, mas a única coisa que conseguiam dizer sobre o que viram, mesmo muito distantes do local onde havia ocorrido o combate, era desolação.

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Assim termina o segunda arco da saga de Ignus. O 3º está ainda, sim, ainda, sendo escrito, não sei quanto tempo levarei para terminá-lo, mas quero fazer o melhor possível para aumentar o nível da narrativa e agradar os que gostam dessa estória. Até o próximo capítulo!

Leia o Restante.

Forjando Um Guerreiro: Aço e Fornalha - Oitava Parte

Sem Remorso

Muitos soldados estavam acostumados a receber visitas ilustres, ver nobres, reis, avatares... Era algo de certa forma corriqueiro, para essas ocasiões sempre trajavam vestimentas adequadas e armaduras mais pomposas, tudo para honrar o convidado. Mas o visitante desta vez não era um nobre qualquer, muito menos um representante de um deus, era Zarrantas, Rei Zarrantas, Rei dos Deuses. Somente a menção de seu nome já causava calafrios a quem quer que fosse.

Mesmo tendo como senhor direto Paia, Deus da Guerra, receber outro deus era sempre um evento magnífico, mas receber o próprio Rei dos Deuses podia ser ao mesmo tempo uma honra máxima, como também um grande perigo, afinal, Zarrantas não era conhecido por sua tolerância aos atos dos humanos.

Enquanto a maioria dos deuses sempre era acompanhado de uma suntuosa comitiva, Zarrantas sempre estava só, não possuía lacaios nem nenhum tipo de servo, achava que a servidão era algo baixo demais e que apenas humanos serviam para tal, no entanto seu repúdio pela humanidade era tamanho que não se permitia sequer ter humanos como escravos. Também não possuía avatares, pois achava que não havia ser algum que servisse de seu porta-voz.

Ao perceber a aproximação do Rei dos Deuses que calmamente flutuava em direção ao portão principal os soldados foram tomados por um pavor indescritível, imediatamente se prostraram com rostos grudados ao solo, nenhum deles merecia a honra de olhar diretamente para o deus, muito menos queriam arriscar encará-lo de frente. Somente os dois que guardavam a porta diretamente conseguiram reagir, abriram-na bem antes que Zarrantas estivessem mais próximo, mas logo depois afundaram seus rostos no chão enquanto sentia a divina e imensa presença do Rei dos Deuses passar por eles vagarosamente.

– É uma honra incomensurável tê-lo me minha humilde morada, Rei Zarrantas, soberano de todos os deuses e seres existente! – Cumprimentou-lhe Paia fazendo uma profunda reverência enquanto as portas atrás do deus se fechavam.
– Orgulha-me estar perante caríssimo irmão meu. – Respondeu Zarrantas.

Como toda a humildade Paia cedeu seu trono para que Zarrantas o ocupasse, oferta que foi prontamente aceita.

– Tua cordialidade e educação são antagônicas ao título que possui, Deus da Guerra. – Elogiou-o Zarrantas.
– Agradeço as doces palavras, meu Rei, mas não posso deixar de perguntar, a que devo a honra de sua ilustre presença?

A questão nunca foi respondida um estrondo seguido de um forte tremor tomou conta de todo o salão, fazendo que até mesmo Zarrantas se calasse. A surpresa foi nítida nos rostos dos deuses que intimamente se perguntavam o que estaria acontecendo, principalmente Paia, por não conseguir compreender o ocorrido.

Poucos segundos depois as portas se escancararam com violência e perplexo o Deus da Guerra observou enquanto Ignus avançava pelo salão.

Em um primeiro momento Zarrantas se mostrou extremamente irritado com a interrupção causada por Ignus, mas pouco depois pareceu achar aquilo providencial, no entanto Paia era puro ódio.

– Como ousa invadir meu salão dessa forma? – Vociferou o deus.
– Não tinha a intenção de fazer isso, mas creio que os guardas se esqueceram de quem sou. – Respondeu Ignus com uma dura expressão no rosto.
– Maldito seja, eu...
– Parai!

O som da voz de Zarrantas reverberou pelo salão, mas justamente onde Paia se encontrava parecia que o efeito havia sido mais forte, fazendo com que o deus imediatamente ficasse sem qualquer reação.

– Vós sois Ignus, não, que detém o título de “Emissário”, estou certo? – Questionou Zarrantas.

Isso deixara Paia ainda mais perplexo, nunca antes ouvira dizer de Zarrantas se dirigir diretamente a um humano, quanto mais presenciar tal fato.

– Sim. Mas sinto não saber a quem me dirijo. – Respondeu Ignus secamente.

Ele sentia uma força colossal emanando do ser ocupante do trono de Paia, era algo tão grandioso que nem mesmo os deuses que havia visto antes sequer conseguiriam se aproximar de tamanha magnitude de poder. Porém, estranhamente não se sentia ameaçado por ele.

– Estúpido verme insolente este é Rei Zarrantas, Rei dos Deuses.

Há tempos havia ouvido falar desse nome além de muitas histórias sobre ele, mas nunca imaginara que um dia teria a honra de vê-lo pessoalmente, quanto mais conversar com o próprio, pois até mesmo ele conhecia a fama do apreço que Zarrantas nutria pelos humanos.

– Guarde teus impropérios para ti, Paia, o rapaz não tem culpa pelo ocorrido. Teus súditos deveriam ter-lhe alertado de minha presença e de eu quem era, no entanto, ao que parece, apenas tentaram impedi-lo entrando em uma desnecessária contenda da qual foram derrotados.
– Não, alteza, também sou culpado pelo ocorrido e peço desculpas por ter interrompido sua reunião. – Disse Ignus sinceramente fazendo uma profunda reverência.
– Teu comportamento bruto e intempestivo é justificável, afinal, sois servo de meu irmão, Paia, os guardas deveriam ter demonstrado mais respeito para com vós por conta de tua posição.
– Agradeço pela compreensão, alteza. – Respondeu Ignus ainda com a cabeça baixa.

Paia não conseguia compreender os atos de Zarrantas, como alguém como ele que nunca gostou de humanos estava se dando ao trabalho de conversar com um da mesma forma que faria com outro deus? Além disso, não admitia a intromissão repentina e desmotivada de Ignus, sequer conseguia disfarçar tal sentimento, sem contar o fato de ter sido repreendido de forma tão dura na frente de um de seus subordinados.

– Vou aguardar do lado de fora, mais uma vez peço desculpas pelo incidente.

O olhar do Deus da Guerra estava fixo em seu servo, todo seu ódio era canalizado naquele olhar severo, Zarrantas percebeu e pareceu deliciar-se com isso. Quando Ignus começava a dar o segundo passo em direção a saída o Rei dos Deuses chamou-lhe a atenção, surpreso, Ignus apenas virou a cabeça em direção ao deus.

– Diga-me, Ignus, há quanto tempo estás na ordem de meu irmão? – Questionou Zarrantas.
– Creio que há quase um ano. – Respondeu duvidoso, pois nem mesmo ele sabia direito há quanto tempo servia a Paia.
– E ainda não foste submetido à provação final?
– Não, ainda não. Creio que ainda não esteja apto a tal...
– Discordo! – Respondeu Zarrantas em alto e bom som interrompendo Ignus – Se tu, hoje, não és considerado apto a passar por esse teste, então nunca serás. Um emissário divino não pode ostentar tal título sem passar por está provação máxima.

Repentinamente Paia foi tomado por uma idéia nefasta, seu semblante que antes era puro rancor, mudou repentinamente para uma expressão de puro sarcasmo sádico.

– Rei Zarrantas talvez gostaria de saber que na verdade eu estava planejando a provação de Ignus e organizando seus preparativos. – Disse Paia com um sorriso malicioso no canto da boca.
– Excelente! E quando tal evento ocorrerá? – Perguntou Zarrantas mostrando-se bastante animado.
– Em dois dias, na Arena de Rafaia.

Aquilo pegou Ignus completamente desprevenido, de todas as coisas que esperava ouvir de Paia essa não era uma delas. O fato de passar pela provação máxima de aceitação na ordem era algo que não esperava, ao menos não que acontecesse tão cedo e de forma tão repentina, sem o menor alarde. Ainda sem saber como reagir, Ignus ficou paralisado por um instante e depois reverenciou os deuses e agradeceu-lhes.

Após saber que teria de ficar recluso até o dia do teste Ignus saiu do salão, dois guardas que estavam do lado de fora e acabavam de recobrar a consciência depois de terem sido atacados por Ignus foram ordenados a acompanhar o guerreiro até o local onde deveria ficar totalmente isolado. O temor dos guardas enquanto acompanhavam Ignus era visível, o tempo inteiro olhavam para ele e se punham em uma posição mais defensiva, como que temendo um repentino ataque.

O local onde Ignus ficaria era em uma das torres do palácio, praticamente todo o pavimento seria disponibilizado a ele para que não fosse incomodado, apenas criados especialmente treinados para tal ocasião deveriam transitar ali, além de terem de atender a todos os pedidos de Ignus sem questionar. Havia um quarto bem grande e confortável somente para ele, ao lado havia um suntuoso quarto de banho.

– O senhor terá a sua disposição vinte criados que deverão zelar pelo seu bem estar, senhor Ignus. – Disse um criado que se chamava Gustav.

Pela breve explicação que dera a Ignus, Gustav era o responsável por garantir uma boa estadia aos guerreiros que pretendiam enfrentar a provação, era uma espécie de mordomo. Sua aparência era bem séria e fechada, sua mandíbula era bem proeminente assim como as maçãs de seu rosto, mas mesmo sob seu semblante carrancudo ele aparentava ser alguém prestativo.

– Então terei criados para me auxiliar em tudo que queira? – Questionou Ignus duvidoso.
– Perfeitamente, senhor, estamos aqui para isso! – Disse o mordomo, fazendo uma profunda reverência.

Os guardas foram dispensados por Gustav, o alívio em seus rostos foi imediato e evidente, no instante seguinte eles já não estavam mais ali.

– Poderia lhe sugerir algo, senhor? – Perguntou Gustav.
– O que seria?
– A notícia de sua prisão e recente fuga já não são mais segredo, por tanto, que tal começarmos por um banho enquanto preparamos um bom jantar para que o senhor relaxe?

Alguns poucos minutos depois Gustav anunciou a Ignus que seu banho já estava pronto e o guerreiro foi até a sala de banhos, nunca antes havia estado em uma sala de banhos tão grande e aconchegante. Duas criadas aguardavam do outro lado da sala sentadas sobre seus calcanhares, assim que Gustav fechou a porta atrás de Ignus elas se dirigiram até o guerreiro e começaram a lhe despir. Ambas eram lindas e trajavam apenas uma fina túnica branca, naquele cenário semi-enevoado elas tinham uma aparência quase etérea, como uma bela visão.

Enquanto elas o lavavam Ignus deixou-se mergulhar no devaneio de seus pensamentos, era a primeira vez que se sentia relaxar de tal forma, não lembrava de alguma vez ter sido banhado por outra pessoa, mesmo quando criança.

Uma das criadas era responsável pela parte de trás de Ignus e a outra lava sua frente. O cuidado e a delicadeza como elas tratavam dele era algo que impressionava-o, não era simplesmente um esfregar e banhar desmedido, cada parte de seu corpo era delicadamente limpa e massageada. A água morna proporcionava uma ótima sensação de relaxamento, o que permitiu que Ignus, ao menos naquele momento, esquecesse de todos os seus problemas.


O dia seguinte amanheceu tarde para Ignus, não lembrava de ter dormido tanto e tão bem, após o banho na noite anterior ainda recebeu uma longa e relaxante sessão de massagem, aliado ao conforto de sua cama ele adormeceu rapidamente. Tão logo abriu os olhos e levantou-se uma criada adentrou por uma das portas laterais trazendo nas mãos uma bacia metálica com água e uma toalha. Após lavar o rosto Ignus fora informado que o desjejum se daria no salão adjacente.

Uma longa mesa farta de pães, frutas, bolos, carnes e diversos tipos de bebidas estavam a sua disposição, mas parecia um banquete do que um simples desjejum. Gustav, o mordomo, apareceu logo após Ignus se acomodar à mesa. O homem de aparência altiva e expressão inabalável se mostrava um perfeito servo, servindo a Ignus de maneira correta, sem permitir que seu atual mestre tivesse qualquer trabalho.

– Espero que a refeição esteja a seu gosto, senhor. – Disse Gustav.
– Não poderia desejar coisa melhor, Gustav. – Respondeu Ignus nitidamente contente com toda a adulação.
– Se me permite o comentário, as roupas novas lhe caíram muito bem.

Na noite anterior, pouco antes de dormir, Ignus notara que havia uma muda de roupa limpa a sua espera, era feita de um tecido leve e bem confortável, muito melhor do que os retalhos usados já há algum tempo depois da fuga da prisão.

Assim que terminou sua refeição perguntou se poderia sair das dependências do castelo, Gustav prontamente lhe informou que só lhe era permitido transitar pelas partes internas destinadas a ele, nada deveria atrapalhá-lo em sua preparação para o futuro teste. Mas antes que Ignus ficasse completamente decepcionado foi informado de um jardim interno que estava a sua completa disposição.

– Caso deseje, senhor, há, também, uma área destinada a treinamento. Podemos providenciar também algum assistente, se achar necessário.
– Muito obrigado, mas creio que não será necessário, prefiro treinar sozinho.

Durante todo o restante daquele dia Ignus meditou, treinou e praticou seguidas vezes tudo o que sabia, por vezes a única coisa que fez foi apenas permanecer imóvel apenas concentrando-se em seu shii, tentando equilibrá-lo. Foi assim quase o dia todo sem uma pausa sequer, somente tarde da noite decidiu ir repousar, para no dia seguinte retomar um ritmo ainda mais intenso de treinos.


– Como se sente hoje, senhor? Ansioso?

O dia derradeiro chegara, mas estranhamente Ignus não sentia ansiedade, muito menos nenhum tipo de nervosismo, pelo contrário, estava calmo e sereno, como jamais se sentira. A calmaria antes da tempestade, pensou, o momento de paz que sempre precede grandes mudanças. Em seu íntimo sabia que algo de muito importante aconteceria em breve, mas isso não o perturbava, não naquele momento.

Pouco depois do desjejum Ignus foi até a carruagem que o levaria até a arena onde o teste seria realizado, já trajando o manto cerimonial ele partiu. A viagem foi tranqüila e não durou muito, os cavalos erma bem rápidos e pareciam muito bem dispostos naquele dia. Assim que chegou ele foi guiado até uma pequena sala onde foi informado que deveria aguardar até que fosse chamado.

Não muito tempo depois uma bela jovem de pele bem escura adentrou a sala convocando Ignus, pelos trajes ele assumiu que ela era uma sacerdotisa e à medida que foi seguindo-a e encontrando outras vestidas da mesma forma, teve certeza. Já em outra sala Ignus recebeu bênçãos das sacerdotisas, estranhou o fato de todas serem negras e estar usando vestidos brancos espalhafatosos com turbantes nas cabeças, além dos cânticos serem todos acompanhados por sonoros tambores tribais.

Quando a cerimônia foi encerrada Ignus finalmente foi conduzido até a arena, era imensa, maior até do que o próprio imaginava, isso deixou-o contente, pois sabia que poderia lutar livremente.

A sua frente estava a platéia, viu que não era formada apenas por simples membros da ordem, mas também por alguns visitantes ilustres, como alguns reis leais a Paia, inclusive deuses. Mas o que mais surpreendeu Ignus foi a presença de Teryon e de Zarrantas, mais a do necromante, pois o Rei dos Deuses já havia demonstrado interesse prévio.

Assim que pôs os pés na arena Ignus foi recebido com uma salva de palmas calorosa, posteriormente retribuída corretamente com profundas reverências, mas Ignus notou que os únicos que se abstiveram foram Paia e Zarrantas.

– Irmãos, amigos e companheiros! – Disse Paia com um gesto expansivo após tomar seu lugar a frente de todos. – Estamos hoje aqui para ver a provação máxima do guerreiro Ignus, que hoje pode se tornar um verdadeiro membro da Ordem Absoluta da Guerra!
Os outros guerreiros companheiros de Ignus deram um potente grito de guerra em honra ao colega.

– Desde que se uniu a nós ele tem demonstrado grande coragem e habilidades excepcionais, sua ascensão ao posto que ocupa hoje é prova disso. Se hoje, ele passar nessa provação, eu sagrá-lo-ei como servo mais direto, meu avatar!

A explosão de entusiasmo entre os companheiros de Ignus foi unânime, até mesmo alguns outros convidados sentiram-se encorajados com a empolgação dos guerreiros e mais uma vez aplaudiram Ignus.

– Que comece o teste!

Silêncio. A empolgação recente dos guerreiros deu lugar a apreensão, ninguém ali sabia dizer como seria o desafio que Ignus teria de superar, mas seja o que for deveria estar a altura do grande guerreiro que era.

O portão a sua frente abriu-se lentamente e dele saiu uma figura coberta por um manto cerimonial semelhante ao de Ignus, uma forte aura era emanada por quem quer que estivesse por de baixo dele.

Rapidamente a pessoa desfez-se do manto e a surpresa de todos foi inevitável quando viram que se tratava de Haldar, além de uma dos melhores guerreiros da ordem, senão o melhor, outrora fora mestre de Ignus. Mas saber que enfrentaria seu antigo mestre parecia não abalá-lo, não de todo.

– Fico feliz em saber que será meu desafio. – Disse Ignus a Haldar enquanto ambos se encaravam firmemente sem ao menos piscar.
– E eu por saber que o testarei pessoalmente! – Respondeu Haldar duramente sustentando o olhar do ex-pupilo.

Por algum tempo ambos se encararam, não na esperança de estudar um ao outro, pois ambos já se conheciam muito bem, na verdade nenhum dos dois saberia dizer porque se encaravam naquele momento, mas apenas se encaravam.

Quase no mesmo instante um saltou na direção do outro, ambos rugiam como leões a fim de intimidar a futura presa ao mesmo tempo em que liberavam seus shiis, a energia liberada era tamanha que fez o chão se deformar severamente e rachar em vários pontos.

Um dos deuses criou uma barreira para proteger os mais indefesos do grupo, porém mesmo sendo um deus, a força conjunta de Haldar e Ignus tinha dimensões colossais, a simples barreira divina não foi capaz de suportar. Não fosse a ação rápida de Paia todos teriam sido afetados e as pessoas normais na platéia teriam morrido instantaneamente.

No instante em que ambos se chocariam no ar, os dois usaram seus respectivos shiis e aceleraram para chegar antes ao outro e tentar surpreendê-lo. Ignus atacou com um soco no abdome de Haldar, mas o mestre habilmente desviou a mão do ex-pupilo com um simples tapa, tendo o cuidado para desviar o punho de Ignus de forma que o mesmo ficasse quase de costas para ele. Com seu adversário em posição desfavorável Haldar aproveitou para tentar atingir sua nuca, porém Ignus pareceu prever a manobra e rapidamente esquivou se abaixando, aproveitando o movimento para tentar derrubar o ex-mestre com uma rasteira que também foi evitada antes que oferecesse algum perigo.

Vendo que seu ataque falhou Ignus com o punho envolto em shii golpeou fortemente o chão, até mesmo os deuses e os outros espectadores, distantes da cena, sentiram a intensidade do ataque, que fez tudo tremer fortemente. Grandes fendas se abriram instantaneamente no chão e Haldar perdeu o equilíbrio enquanto uma surgia embaixo de si, tornando impossível que conseguisse se desviar ou sequer defender o golpe seguinte de Ignus, que lhe arremessou até o outro lado da arena.

Sem perder tempo Ignus correu até onde Haldar caíra acertando-lhe um chute, fazendo-o girar no chão e bater contra o muro da arena. Antes que fosse novamente golpeado, Haldar usou uma pequena quantidade de shii para afastar Ignus e retardá-lo o suficiente, ao menos, para se levantar. Novamente de pé Haldar pode se defender dos ataques de Ignus, enquanto segurava os braços do companheiro ambos olharam profundamente nos olhos do outro, tentaram ao máximo sondar algum pensamento, ou até mesmo intimidar o adversário, mas nenhum deles mostrava o menor sinal de que estaria disposto a recuar.

– Fico feliz em saber que não treinei um fracote. – Disse Haldar com um meio sorriso.
– Será que continuará feliz depois que eu o derrotar? – Questionou Ignus em tom irônico.
– Isso veremos!

Com um gesto rápido e preciso Haldar se desvencilhou de Ignus e saltou, agora no ar Haldar voou o mais alto que pode e de lá contemplou o rosto frustrado de seu adversário, que imediatamente começou a concentrar seu shii. Haldar mergulhou estendendo os braços e gerando suas lâminas energéticas, no instante seguinte ele já estava cara a cara com Ignus que permaneceu imóvel até aquele momento, para no instante derradeiro explodir todo o shii que havia concentrado.

Sem esperar a poeira abaixar Ignus tentou sentir onde Haldar havia caído, o que não lhe exigiu muito esforço, pois seu antigo mestre estava com seu shii bem ativo. Enquanto se recompunha Haldar viu a figura de Ignus surgir do nada envolto em um ameaçador shii negro, há poucos metros de distância toda a energia que envolvia seu oponente foi disparada na forma de um grande e mortífero projétil. Em uma ação impensada Haldar tentou destruir o ataque de Ignus usando suas lâminas energéticas, mas acabou por gerar uma intensa explosão, arremessando os dois em direções opostas.

Pouco tempo depois ambos já estavam de pé novamente, encarando um ao outro, sem demonstrar o menor sinal de cansaço.

– Admirável a persistência destes. – Observou Zarrantas.
– Realmente, um vigor impressionante, Rei Zarrantas. – Concordou outro deus presente.

Diante os olhos de todos Haldar repentinamente desapareceu, somente os deuses, claro conseguiram ver seus atos, diferente dos outros que ficaram atônitos perante seu sumiço. Instantes depois viram o mesmo surgir ao lado de Ignus e desferir-lhe uma interminável seqüência de certeiros golpes, a intensidade dos ataques era tamanha que o som das pancadas eram perfeitamente audíveis, inclusive para os espectadores normais.

Em meio à interminável seqüência de golpes Haldar arremessou Ignus para o alto, saltando em seguida para alcançá-lo e ainda no ar golpeá-lo novamente jogando violentamente contra o solo. Antes que Ignus pudesse se recompor Haldar investiu contra ele usando o mesmo ataque com as lâminas de shii, atingindo Ignus e causando-lhe um sério corte no tórax.

– Você sabe quais são as regras desta prova, não sabe, Ignus? – Questionou Haldar enquanto observava o ex-discípulo se levantar.
– Só existem duas formas de se sair vivo daqui: desistência, o que me causará o banimento da ordem e humilhação total, ou matando meu oponente. – Respondeu Ignus secamente.
– Por mais apresso que tenha por ti, Ignus, não hesitarei em matá-lo se não desistir, mas caso desista, me envergonharei eternamente de ter treinado um covarde.
– É uma pena, pois então terei que matar meu melhor companheiro de batalha.

Um intenso clarão e um estrondo ensurdecedor tomaram conta do ambiente no instante em que Ignus disparou um relâmpago contra Haldar, que foi atingido em cheio pelo ataque, sendo arremessado contra um dos muros da arena e atravessando-a devido a força do golpe. Em meio aos escombros Haldar saiu caminhado lentamente, suas roupas agora reduzidas a meros trapos, além de uma grande cicatriz de queimadura do abdome.

– Desiste? – Perguntou Ignus.
– Nunca!

O estranho sorriso no rosto de Haldar foi retribuído por Ignus, ambos estavam contentes, mesmo sabendo que aquela poderia ser a última vez que viam um ao outro, mas estavam felizes. Uma estranha felicidade apenas experimentada por aqueles que no calor de um combate encontram um oponente que consideram digno.

Concentrando seu shii em uma das mãos Haldar materializou uma suntuosa espada, a energia contida no objeto pulsava forte tamanha era sua intensidade. Vendo aquilo Ignus desejou ter Yurian consigo naquele momento, no entanto sequer tinha idéia de onde ela poderia estar.

Enquanto observava atentamente a nova investida contra ele, Ignus não conseguia desviar a mente de Yurian, alguma coisa dentro dele dizia que era possível reavê-la, mas como, ele se perguntava, porém não sabia a resposta.

Vendo que não conseguiria escapar do golpe Ignus envolveu rapidamente o próprio punho em shii, a fim de defender o ataque, porém, para sua surpresa, a lâmina de shii de Haldar simplesmente transpassou o fluxo energético de Ignus. A dor era intensa e o sangue brotava em abundância do corte que sofrera, mas Haldar não parou e novamente golpeou Ignus que desviou por pouco.

– Usa a espada, seu tolo.

Aquela voz outra vez, a mesma voz que Ignus ouvira quando invadiram a cidade dos seguidores de Valum. Naquela ocasião a estranha voz a alertara sobre o uso de seus poderes, agora pedia-o para usar sua espada, Ignus não conseguia entender como seria possível utilizar um objeto poderia nem mais existir.

– Ela não pode ser destruída, tolo. Ela é não é um simples artefato de metal inanimado, ela tem vida!

Não importando a origem da voz uma coisa era certa, ela sabia o que Ignus pensava e sabia muito mais do que dizia, mas ele não tinha tempo para pensar em tal coisa, não quando tinha se manter concentrado em um combate onde sua vida e honra estava em risco, muito menos quando seu adversário estava armado e plenamente disposto a matá-lo. A desconcentração de seu ex-discípulo não passou despercebida por Haldar, parecia disperso e em momento algum demonstrava vontade de reagir.

– A essência dela está em você, use-a e convoque-a até você.
– NÃO!

Todos os presentes na platéia, inclusive Zarrantas, se surpreenderam ao ver Haldar simplesmente ser atirado a metros de distância de Ignus que era envolto por uma aura escura.

– Mostrarei a você, seja quem quer que seja, derrotarei Haldar apenas com meus punhos, sem artifício externo nenhum!

A duvida e a curiosidade tomou conta de todos, com quem ele estaria falando?

Ao ver Haldar plenamente recomposto Ignus não hesitou em disparar outro poderoso relâmpago contra o antigo mestre, este mais forte que o anterior. Porém, diferente da outra vez, Haldar consegui defender o ataque, usando sua espada como escudo. Não satisfeito Ignus disparou outro, que novamente foi defendido, mas agora ele o sustentou e intensificou não como um disparo simples, e sim como uma carga contínua. Haldar lutava para conter o poder de Ignus, sentia cada fibra do seu corpo lutando para resistir, mas rapidamente estava sendo vencido. Em uma tentativa quase desesperada Haldar conseguiu desviar o relâmpago de Ignus, antes que o mesmo pudesse reagir imediatamente Haldar contra atacou com uma pequena quantidade de shii, fazendo com que Ignus anulasse seu golpe para evitar ser atingido.

Ver o adversário a salvo não deixava Ignus satisfeito, mesmo esse adversário sendo alguém que ele estimava, afinal, naquele momento ambos não eram mais companheiros. A frustração que sentia ele gerava raiva, a raiva tornava-se força que era transparecida em sua aura, aumentando cada vez mais.

Decidido a acabar com combate Ignus investiu contra Haldar com toda a velocidade que pode, tentando usar seu shii para impulsioná-lo mais rapidamente. Em um piscar de olhos ele já estava bem próximo de seu antigo mestre, sabendo que não conseguiria parar a tempo saltou indo em direção a Haldar com os dois pés esticados, prontos a atingir o adversário em cheio.

Devido a velocidade e a posição que estava Ignus nada viu após o salto, apenas sentiu seus pés atingirem algo e arremessá-lo em seguida, a queda não fora nada confortável, entretanto seu estado atual fazia-o ignorar certos incômodos. Ainda agachado Ignus novamente disparou um relâmpago contra Haldar, mas ele, desta vez, previu que seria atacado e saiu do alcance de Ignus.

Tardiamente o guerreiro notou que seu ex-mestre já estava fora de seu alcance, quando estava virando para ficar de frente para Haldar, sentiu seu tórax ser violentamente cortado, tal foi a força do golpe que Ignus foi arrastado por uns cinco metros antes de cair no chão. O corte fora profundo e sangrava bastante, mas estava tão concentrado no combate que novamente não sentiu o golpe. Erguendo-se com um salto Ignus pode, a tempo, bloquear um novo ataque de seu oponente, para em seguida revidar e também ter seu golpe bloqueado.

Novamente ambos estavam estáticos, seguros um pelo outro, medindo suas forças, esperando que o outro cedesse, mas as forças estavam igualadas, a vontade de vencer era a mesma. Agindo por puro instinto Ignus puxou Haldar para si e deu-lhe uma cabeçada, não era um golpe elaborado como os anteriores, mas serviu para fazer com que ficasse livre do ex-mestre.

Assim que se viu livre Ignus envolveu seus punhos em chamas, disparando-as contra Haldar o atingido em cheio, o calor era tão intenso que até a platéia pode senti-lo sem o menor esforço, como se estivessem a poucos metros do ataque. Haldar ressurgiu coberto de chamas rolando no chão para extingui-las, valendo-se disso Ignus concentrou um relâmpago, mas conteve-o no momento em que dispararia contra o oponente.

– Deveria ter aproveitado a oportunidade e me destruído enquanto estava indefeso. – Disse Haldar depois que estava livre das chamas, mas seu corpo ainda ardia.
– Mas se o fizesse não passaria de um mero fraco e covarde, que só vence inimigos caídos e indefesos.
– Vejo que o treinei bem, no entanto, isto é um combate de vida ou morte, e nesses casos, tolas filosofias, como essa, não se aplicam. – Concluiu Haldar.

Mais uma vez Haldar alçou vôo e se distanciou, sempre sendo seguido pelo fixo olhar de seu ex-pupilo.

– Sabe o que me entristece, Haldar? – Questionou Ignus – O fato de nunca ter me ensinado a voar.

O mestre e agora oponente, nada disse, apenas sorriu para o guerreiro que um dia treinara, a quem tinha como um filho.

Outra vez Ignus presenciava Haldar investir contra ele como uma flecha, a diferença era que desta vez estava muito mais rápido e tinha os braços postos para trás. Pouco antes de atingir Ignus, ele traçou um corte energético no ar para em seguida arremeter, Ignus saltou para o lado, evitando, assim, o ataque, mas não conseguiu prever que aquilo era um embuste. Haldar já estava atrás de Ignus, que apenas pode ver a lâmina energética rasgar seu abdômen. Sem aguardar reação Haldar saltou para o lado golpeando o flanco de Ignus, aproveitando o impulso saltou mais uma vez, agora atrás de seu oponente fincou-lhe a lâmina energética o mais fundo que pode.

A platéia redobrou a atenção ao que parecia o fim do embate, Ignus deus dois passos cambaleantes para frente enquanto Haldar apenas observava, a expressão de dor era nítida no rosto do emissário. Lentamente ele se debruçou para frente, a espada ainda fincada em suas costas, em um movimento brusco Ignus ergueu-se novamente elevando seu shii de forma igualmente brusca, a lâmina energética foi desfeita em instantes, como se nunca houvesse existido.

No lugar onde Ignus estava agora havia uma enorme cratera, Haldar fora violentamente arremessado para trás devido a força do shii inimigo. Mais uma vez a interferência divina foi crucial para a sobrevivência dos espectadores comuns, pois desta vez a onda energética foi tal que fora capaz de destruir boa parte da arena. Ninguém, nem mesmo os deuses, tiveram tempo para se recuperar da perplexidade em que se encontravam, ainda atentos a imagem de Ignus que transbordava uma quantidade imensa de poder, apenas viram quando alguns escombros voavam aleatoriamente e em seguida um furioso Haldar ia de encontro a sua presa.

Para a surpresa ainda maior de todos, Ignus se atirou contra o antigo mestre e os dois se chocaram no ar, e ali permaneceram girando por alguns segundos, até que Ignus, com os pés, arremessou Haldar contra o chão. Usando seu shii para dar impulso Ignus atingiu o solo pouco depois de Haldar, vendo que este ainda permanecia caído não hesitou, saltou em direção ao oponente, o punho envolto em shii, decido a acabar ali o combate. No momento derradeiro Haldar rolou para o lado evitando o golpe, mas a energia reunida por seu antigo aluno era tanta, que ao se chocar com o chão a mesmo provocou uma violenta explosão.

Mesmo usando seu shii como proteção Haldar não conseguiu evitar o ataque totalmente, a energia liberada na explosão fora tamanha que conseguiu destruir sua barreira feita às pressas. Antes que pudesse pensar em alguma estratégia Haldar viu Ignus disparar em sua direção uma intensa rajada de fogo, sua única reação foi alçar vôo novamente, no entanto as chamas o seguiram e envolveram-no em pleno ar. O calor era intenso como jamais sentira igual, sentia cada parte de seu corpo ser consumida rapidamente pela ferocidade das chamas, era impossível se concentrar.

Como se o fogo fosse uma corrente sólida que envolvia seu antigo mestre, Ignus puxou Haldar de volta ao solo. As queimaduras eram severas, a pele de Haldar já mostrava muitas deformidades e estava completamente nu e sem forças, atirado ao chão completamente derrotado.

– Me... Rendo...

As palavras soaram praticamente inaudíveis até mesmo para Ignus que estava a sua frente, mas os deuses presentes conseguiram compreender bem o que fora dito, o combate havia chegado ao fim. Os espectadores comuns ainda não tinham ciência da desistência de Haldar, embora soubessem que o mesmo não tinha mais condições de continuar a lutar.
   
Alguns dos deuses presentes pareciam satisfeitos com o espetáculo que presenciaram, não esperavam ver um combate tão feroz e intenso entre dois simples humanos, mas agora percebiam que não eram tão simples assim. Zarrantas estava especialmente contente, via no rosto de Paia a frustração por ter seu guerreiro mais experiente derrotado por um ex-aprendiz.

– Decepcionado, irmão? – Perguntou Zarrantas com um malicioso sorriso nos lábios.
– Não sei se é exatamente essa a palavra...
– Então por que não auxilia teu filho caído? – Interrompeu Zarrantas olhando seriamente para Paia.
   
Por um momento o deus nada disse, apenas observou Zarrantas tentando sondar alguma coisa, uma intenção, um sentimento, o que fosse, no entanto a expressão do Rei dos Deuses não o traia. Paia olhou mais uma vez para a arena e viu Ignus dispersando seu shii enquanto observava seu antigo mestre atirado ao chão. Repentinamente a sugestão de Zarrantas ecoou novamente em sua cabeça, Haldar não poderia perder aquele combate, não daquela forma.
   
   
De pé perante o oponente derrotado Ignus não se sentia exatamente feliz, a vitória sobre seu mestre não lhe trouxe o contentamento que sempre achou que teria quando esse dia chegasse, apenas sentia indiferença.
   
Enquanto aguardava uma confirmação de sua vitória, totalmente relaxado e desconcentrado, Ignus fora derrubado e antes mesmo que pudesse ter qualquer reação sentiu seu pé ser violentamente puxado para em seguida ser arremessado na direção oposta de onde estava. Assim que atingiu o chão sentiu seu abdome ser fortemente cortado, enquanto ainda rolava no solo sem compreender o que acontecia.
   
No momento em que se recobrava e se erguia novamente apenas teve tempo de ver Haldar correndo em sua direção no exato momento em que saltava para em seguida atingir seu rosto em cheio com um chute, fazendo Ignus tombar mais uma vez. Antes que pudesse reagir Ignus fora erguido pela cabeça, Haldar apertava-lhe o crânio o com força, parecia querer esmagá-lo a qualquer custo. Quando Ignus esboçou uma reação, Haldar fora mais rápido reuniu rapidamente uma quantidade de shii em seus punhos em pouquíssimo tempo, detonando-a quase que imediatamente. Mesmo a explosão não sendo forte o suficiente para causar sérios danos, ainda assim foi o necessário para ferir Ignus e deixá-lo mais desorientado.
   
Nenhum dos espectadores presentes, nem mesmo os deuses, poderiam esperar por uma reviravolta daquelas, Haldar que estava praticamente morto no chão se reerguera como uma fera insana, atacando sua presa sem dar-lhe chance para escapar, ou sequer defender-se, além do mais, suas feridas pareciam milagrosamente curadas.
   
De joelhos e completamente desnorteado Ignus uma presa fácil para Haldar, novamente levado ao chão por um chute o guerreiro não teve chance de se defender dos ataques desferidos pelas lâminas energéticas, só quando suas costas estavam banhadas de sangue conseguiu gerar uma pequena explosão de shii para afastar Haldar.
   
Antes mesmo de conseguir se levantar Ignus teve de ser rápido para se esquivar da lâmina de Haldar, com um pequeno, mas preciso movimento conseguiu sair da rota mortal traçada pela espada energética, como também conseguiu ficar em uma posição favorável para contra atacar. No entanto Haldar estava muito mais focado no combate do que Ignus poderia supor, com maestria defendeu saiu da frente do punho flamejante do adversário e ainda segurou, torcendo-o para trás violentamente.
   
– Adeus, Ignus!
   
O tom de voz de Haldar estava diferente, era repleto de ódio e rancor, não parecia o mesmo Haldar que Ignus conhecia desde menino, mas não havia dúvida, até sua aura demonstrava sua sede por matar. Mesmo sabendo que seu mestre nunca hesitava em matar, era a primeira vez que o via daquela forma, era como se fosse outra pessoa, ou como se estivesse possuído.
   
Enquanto ainda mantinha seu adversário imobilizado Haldar concentrou todo o shii possível na mão que segurava Ignus, mas desta vez, o discípulo fora mais rápido e habilidoso que o mestre. Com um movimento rápido Ignus conseguiu ficar de frente para Haldar e disparou-lhe um pequeno relâmpago, forte o suficiente para fazer Haldar soltá-lo e se afastar.

Mesmo depois de ser atacado Haldar mantinha o shii contido, sem perder a concentração e ao que parecia ele ainda reunia mais energia. Ignus não estava disposto a deixar Haldar terminar o que fazia, com uma das mãos disparou uma rajada de fogo apenas como distração, obrigando seu ex-mestre a se mexer e abrir a guarda, assim que notou a abertura disparou outro relâmpago. Vendo que não conseguiria desviar do ataque Haldar simplesmente o conteve, auxiliado pela grande quantidade de energia que havia reunido até então.

Outra vez Ignus sustentou o poder, porém desta vez Haldar não demonstrava tanta dificuldade em conter o poder de seu adversário, assim que Ignus intensificou a força de seu ataque o mesmo se voltou contra ele, arremessando-o a metros dali. Ferido e sem compreender o ocorrido apenas teve tempo de saltar e fugir de um relâmpago disparado por Haldar, causando-lhe grande estranheza já que o mesmo já o havia dito antes que não sabia usar esse tipo de ataque.

– Seus relâmpagos são feitos basicamente de shii, assim como muitas emanações de poder. – Disse Haldar após disparar outro relâmpago e ver Ignus desviar. – Sabendo disso qualquer que compreenda um pouco sobre shii é capaz de imitá-lo, basta conhecer a essência do golpe, conhecendo mais é possível, também, revertê-lo, como fiz.

Sem piedade Haldar disparou outro relâmpago contra seu adversário, porém este era muito mais poderoso e intenso que os anteriores, Ignus seria capaz de desviar, no entanto preferiu medir forças com o mestre, contra-atacando com outro relâmpago. Os dois imensos poderes se chocaram no ar causando uma grande explosão, mas ambos sustentavam seus poderes, intensificando-os cada vez mais. Em um ato repentino Ignus começou a sugar seu próprio poder, trazendo junto a energia disparada por seu mestre, foi um movimento rápido que pegou Haldar desprevenido, impedindo-o de se conter. Quando Haldar tentava interromper seu ataque Ignus disparou de volta toda a energia que havia contigo, o resultado foi um ataque de proporções devastadoras, arrasando completamente as sobras da arena desprotegidas pelos deuses.

Quando a poeira abaixou todos puderam ver a expressão de Ignus que demonstrava seus primeiros sinais de cansaço, seu olhar estava pesado e sua respiração ofegante, ele próprio não esperava que o combate tomasse tais proporções. Distante dali Haldar sai da profunda cratera onde estava, o corpo exibia um amontoado de cicatrizes, o sangue brotava por todas as partes e seu braço direito parecia estar quebrado.

– Até o fim? – Questionou Ignus que olhava em direção a Haldar.
– Até o fim.

A disputa entre os dois já não era mais por seu sentido original, entretanto o motivo agora pouco importava, nada mais importava. Repentinamente uma poderosa aura negra tomou conta do corpo de Ignus, investiu contra seu adversário como se fosse uma flecha e por onde passava sua aura parecia deixar um rastro destrutivo. Uma aura semelhante tomou conta de Haldar e ele também se lançou contra Ignus.

Quando estavam próximos de se chocar, Ignus saltou e voou com os dois pés esticados como se fosse um grande projétil energético, Haldar por sua vez deu um pequeno passo para o lado, mas que fora suficiente para desviar do ataque. Antes que o corpo de Ignus passasse completamente por ele, ainda conseguiu segurar-lhe a cabeça e empurrá-lo violentamente contra o chão, abrindo uma considerável cratera devido à força do impacto.

Sem dar tempo para Haldar se afastar ou mesmo executar um novo ataque, Ignus rolou em sua direção jogando seus pés para trás para atingi-lo, mas a experiência de Haldar novamente falou mais alto e ele conseguiu desviar. Já de pé Ignus conseguiu ser ágil o suficiente para defender um soco de Haldar e segurar seu braço, sem dar tempo de qualquer reação contrária. Vendo a oportunidade Ignus golpeou fortemente um dos joelhos de seu mestre. O som do osso sendo partido fora tão alto que os espectadores conseguiram ouvir com clareza, mesmo estando distantes, mas o golpe não fora forte o suficiente apenas para isso, imediatamente Haldar tombou, sou perna havia sido dilacerada.  Antes de cair por completo Ignus ainda atingiu o lado oposto do cotovelo de seu mestre quebrando-o e expondo o osso.

Mesmo com o outro braço praticamente inutilizado Haldar ainda conseguiu reunir boa parte de seu shii e disparar contra Ignus, a queima roupa, sem que o mesmo pudesse sequer se defender. Porém Haldar não conseguia mais se concentrar de forma adequada, seus ferimentos eram severos demais e o golpe, mesmo atingindo Ignus por completo, não surtiu o mesmo efeito que surtiria em condições normais.

Sem nenhum pesar, sem nenhuma piedade o punho de Ignus atravessou o tórax de Haldar, este teve um espasmo repentino e seu olhar mudou, como se desperto de um transe. Uma última vez ele olhou para seu discípulo, a quem tinha como filho. Em seus olhos a imagem do guerreiro cruel e severo ficaria gravada para sempre, até o momento em que seu corpo fora completamente consumido pelas chamas de Ignus.
Leia o Restante.